China revitalizou o socialismo porque manteve seu compromisso com o Marxismo, diz historiador do PCCh nos 105 anos do partido

Por Mauro Ramos23/07/2026 às 18:470 visualizações
Zhang Shiyi, ex-diretor do Sexto Departamento de Pesquisa do Instituto de História e Literatura do Partido, vinculado ao Comitê Central do PCCh. 23 de julho de 2026
Zhang Shiyi, ex-diretor do Sexto Departamento de Pesquisa do Instituto de História e Literatura do Partido, vinculado ao Comitê Central do PCCh. 23 de julho de 2026
Brasil de Fato

“Marx concebeu o socialismo como um ideal, mas a União Soviética fracassou em fazê-lo funcionar, enquanto a China o revitalizou”, avaliou Zhang Shiyi, ex-diretor do 6º Departamento de Pesquisa do Instituto de História e Literatura do Partido do Comitê Central do Partido Comunista da China (PCCh). A fala ocorreu por celebração dos 105 anos do PCCh, o partido no poder contínuo mais longevo da história.

Para o historiador, “A diferença central está no fato de a União Soviética ter abandonado o marxismo, enquanto a China permaneceu fiel a ele. Isso ilustra o valor teórico duradouro do marxismo.”

O debate na manhã desta quinta-feira (23) cobriu da disciplina do Exército Vermelho na Longa Marcha à aprovação do 15° Plano Quinquenal, passando pela linha de massas como instrumento central de governança. A Associação Chinesa de Diplomacia Pública (CPDA) organizou o evento para a imprensa em Pequim, sob o título “O 105° Aniversário da Fundação do Partido Comunista da China: História, Experiência e Contribuições Globais”.

Além de Zhang Shiyi, participaram Wang Yi, vice-diretor do Departamento de Pesquisa sobre a História do Partido, Escola do Partido do Comitê Central do PCCh (Academia Nacional de Governança); Zheng Huan, professor do Departamento de Pesquisa sobre a Construção do Partido, Escola do Partido do Comitê Central do PCCh (Academia Nacional de Governança).

Marxismo como teoria viva

Zheng detalhou as “Duas Integrações” aprovadas no 20° Congresso Nacional do PCCh, em 2022: do marxismo à realidade concreta da China e à cultura tradicional chinesa. “Não tratamos o marxismo como um livro didático estático ou dogma imutável”, disse. “Continuamos explorando e promovendo inovações teóricas à luz das características de cada época.”

Zhang reiterou a ideia: os princípios básicos do marxismo devem ser aplicados “à prática do mundo real, em vez de interpretados de forma dogmática”. Para o historiador, isso se desdobra em três aspectos.

O historiador desdobrou o argumento em três dimensões. A primeira é “defender a posição do povo”: “o marxismo é uma doutrina para a libertação de toda a humanidade, baseada na convicção central de que o povo é o motor da história”. A segunda é “adotar o pensamento dialético para coordenar as dimensões nacional e internacional”: “gerir bem os próprios assuntos é a base para enfrentar qualquer desafio”, respondendo racionalmente a pressões externas como competição entre grandes potências e bloqueios tecnológicos. A terceira é “tratar adequadamente a relação entre universalidade e particularidade”: a modernização de estilo chinês “equilibra perfeitamente os traços comuns a todos os caminhos de modernização e as especificidades da China”.

“Guiados pelo marxismo, defendemos a cooperação de ganha-ganha e nos esforçamos para criar mais oportunidades de desenvolvimento para todos os países, especialmente os em desenvolvimento”, disse.

Disciplina e linha de massas

Wang Yi detalhou o que chamou de lógica fundamental do enraizamento do PCCh entre o povo: a disciplina aproxima os quadros das massas; os vínculos afetivos e práticos integram Partido e povo; políticas concretas e sua implementação garantem esse enraizamento no longo prazo.

Ela citou o caso histórico da Longa Marcha. Alfred Bosshardt, missionário suíço que acompanhou o Exército Vermelho por 18 meses e registrou a experiência em livro publicado em 1936, descreveu a disciplina que observou: “As tropas mantêm disciplina extremamente rígida e ordem altamente organizada. Quando o Exército Vermelho se abrigou em pomares cheios de laranjas maduras para escapar de bombardeios aéreos, a unidade inteira recebeu ordem de não colher um único fruto”, citou Wang.

No presente, Wang Yi mencionou os dois condecorados com a Medalha de Primeiro de Julho deste ano. Ma Shanxiang, por mais de 30 anos, percorreu residências e resolveu conflitos comunitários em Pequim, desenvolvendo mais de 60 metodologias de mediação. Ao comentar o próprio trabalho, disse: “Não importa quão trivial pareça um problema das massas, ele é um grande evento.”

O outro caso é o de Huang Wenxiu, que percorreu 25 mil quilômetros para visitar todas as 195 famílias em situação de pobreza de seu vilarejo rural em Baise, na Região Autônoma de Guangxi, e criou um mapa próprio com as causas da pobreza de cada uma. Ela aprendeu o dialeto local para entender as dificuldades dos moradores. Morreu aos 29 anos, arrastada por uma enxurrada em junho de 2019, enquanto organizava medidas de prevenção de inundações.

Wang Yi definiu a linha de massas como “a arma estratégica mais bem-sucedida do PCCh em seus 105 anos de história”.

Construção partidária

Zheng destacou que, segundo estatísticas do Departamento de Organização do Comitê Central do PCCh, até 31 de dezembro de 2025 o partido contava com mais de 100 milhões de filiados e 5,431 milhões de organizações de base em todo o país.

O pesquisador também citou o “Pensamento de Xi Jinping sobre a Construção do Partido” como chave para compreender o PCCh. Sistematizado nos “Quatorze Compromissos” elencados no relatório “Características Contemporâneas e Significado Global do Pensamento de Xi Jinping sobre a Construção do Partido“, lançado em 2 de julho pela Escola do Partido do Comitê Central do PCCh (Academia Nacional de Governança) e pelo think tank da Xinhua, os Quatorze Compromissos constituem o programa que traduz em prática os princípios desse pensamento, abrangendo desde a liderança do Partido sobre todos os setores da vida nacional até a governança estrita e integral do PCCh.

O mesmo relatório identifica cinco dimensões de relevância do modelo partidário chinês para partidos do Sul Global: alternativa à crise de representação; referenciais de combate à corrupção; resposta à fragmentação orgânica; abandono da lógica de soma zero; e construção de um novo tipo de relações interpartidárias.

Planejamento de longo prazo

Zhang traçou o arco histórico do planejamento chinês a partir das Quatro Modernizações formuladas pelo primeiro-ministro Zhou Enlai em 1954. O conceito de modernização de estilo chinês, desenvolvido pelo secretário-geral Xi Jinping, distingue a via paralela adotada pelo país, em que industrialização, informatização, urbanização e modernização agrícola avançam simultaneamente, do modelo sequencial ocidental, em que cada etapa precedeu a seguinte.

O 15° Plano Quinquenal, aprovado nas Duas Sessões de março de 2026, estabelece 20 indicadores centrais de desenvolvimento, 16 tarefas estratégicas e 109 projetos prioritários. “A prática provou que elaborar e implementar Planos Quinquenais constitui a experiência central de governança do PCCh e uma força institucional vital do socialismo com características chinesas”, disse Zhang.

Fonte
Brasil de Fato
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