Do combate à desertificação à economia verde: China apresenta plano para ter 26% de cobertura florestal até 2030

Por Bruno Falci23/07/2026 às 17:490 visualizações
Imagem aérea da Fazenda Florestal de Saihanba, na província de Hebei, norte da China.
Imagem aérea da Fazenda Florestal de Saihanba, na província de Hebei, norte da China.
Brasil de Fato

O governo do Partido Comunista da China apresentou, na quarta-feira (22), um novo plano para o setor de florestas e pastagens, que orientará as políticas ambientais do país entre 2026 e 2030. A iniciativa faz parte do 15º Plano Quinquenal chinês e busca aprofundar uma estratégia construída ao longo das últimas décadas, na qual a proteção dos ecossistemas passou a ser incorporada ao planejamento econômico e social do país.

Divulgado pela Administração Nacional de Florestas e Pastagens da China e outros três órgãos governamentais, o documento estabelece metas para ampliar a cobertura florestal, fortalecer áreas protegidas e desenvolver uma economia ligada aos recursos naturais.

Entre os objetivos definidos para os próximos cinco anos estão: elevar a cobertura florestal nacional para 25,8% até 2030, ampliar as reservas florestais para 22,4 bilhões de metros cúbicos e expandir o valor da indústria de florestas e pastagens para 14 trilhões de yuans, cerca de R$ 10,5 trilhões.

A nova fase do planejamento ambiental ocorre em um momento em que a China busca combinar crescimento econômico, inovação tecnológica e redução dos impactos ambientais. Para Pequim, essa estratégia está associada ao conceito de “civilização ecológica”, incorporado ao planejamento nacional como uma visão de desenvolvimento que busca integrar proteção ambiental, crescimento econômico e melhoria da qualidade de vida da população.

Além da conservação da natureza, o setor florestal passou a ser visto como uma área estratégica para geração de empregos, desenvolvimento regional e criação de novas cadeias produtivas. O plano prevê ampliar o uso sustentável dos recursos naturais e fortalecer a integração entre proteção ambiental e atividade econômica.

Da desertificação à economia verde

A nova etapa do planejamento ambiental chinês tem como um dos principais desafios enfrentar um problema histórico: a desertificação de extensas áreas do norte do país.

Durante décadas, regiões no noroeste e norte da China sofreram com erosão do solo, perda de vegetação e tempestades de areia que afetavam cidades, áreas agrícolas e comunidades locais. O país possui cerca de 2,57 milhões de quilômetros quadrados de terras desertificadas, principalmente em regiões áridas e semiáridas do norte e oeste.

Uma das principais respostas foi o Programa de Florestamento dos Três Cinturões de Proteção do Norte, conhecido internacionalmente como “Grande Muralha Verde”. Criado em 1978, o projeto se tornou uma das maiores iniciativas de reflorestamento do mundo, abrangendo áreas de mais de 4 milhões de quilômetros quadrados e envolvendo regiões do norte, nordeste e noroeste do país.

O objetivo é recuperar áreas degradadas, conter o avanço dos desertos e criar barreiras naturais contra tempestades de areia. Ao longo de mais de quatro décadas, a iniciativa transformou paisagens antes marcadas pela degradação ambiental e passou a ser considerada um dos símbolos da política ecológica chinesa.

A China possui atualmente cerca de 220 milhões de hectares de florestas, resultado de décadas de programas de plantio de árvores, recuperação de solos e proteção de ecossistemas. A cobertura florestal nacional, que era de cerca de 12% no início da década de 1980, ultrapassou 25% nas últimas medições.

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a China foi o país que mais ampliou sua área florestal nas últimas décadas, impulsionada principalmente por programas de reflorestamento e recuperação de áreas degradadas.

A restauração ambiental passou a ser integrada a outras políticas públicas, incluindo desenvolvimento rural, geração de renda e adaptação às mudanças climáticas. Em diversas regiões, projetos de recuperação ecológica foram combinados com novas oportunidades econômicas para comunidades locais, como turismo, agricultura sustentável e produção de alimentos associados às áreas florestais.

Na região autônoma da Mongólia Interior, por exemplo, iniciativas de proteção ambiental ajudaram a ampliar áreas verdes e reduzir os impactos das tempestades de areia que historicamente atingiam outras partes do norte da China.

Biodiversidade e desenvolvimento sustentável

O novo plano para 2026–2030 prevê acelerar os projetos de recuperação ecológica, fortalecer o sistema de áreas protegidas, ampliar a construção de parques nacionais e melhorar a conservação de zonas úmidas.

A biodiversidade é outro eixo central da estratégia. O documento estabelece ações de proteção para 165 espécies de animais e plantas silvestres ameaçadas de extinção.

Em 2021, a China estabeleceu seu primeiro grupo de parques nacionais, criando um sistema de proteção que reúne áreas de grande importância ecológica e cobre cerca de 230 mil quilômetros quadrados.

“Construir parques nacionais com altos padrões, implementar a integração e otimização das áreas protegidas, realizar proteção de emergência para 165 espécies de animais e plantas silvestres ameaçadas e proteger integralmente as zonas úmidas”, foram objetivos enumerados por Zou Qinghao, vice-diretor do Departamento de Planejamento e Finanças da Administração Nacional de Florestas e Pastagens da China.

Além da preservação, Pequim busca transformar os recursos florestais em uma área de desenvolvimento econômico. O plano prevê aumentar a autossuficiência em madeira, fortalecer a indústria de sementes florestais e ampliar atividades econômicas desenvolvidas sob áreas de floresta.

Entre essas iniciativas está a chamada economia sob os bosques, que reúne produção de alimentos, cultivo de plantas medicinais, turismo ecológico e outras atividades capazes de gerar renda, mantendo a conservação ambiental.

O documento também estabelece medidas para fortalecer a prevenção de incêndios florestais e o controle de organismos que ameaçam os ecossistemas.

Pequim também tem apresentado sua experiência de restauração ecológica como uma contribuição para o enfrentamento global das mudanças climáticas, defendendo que países em desenvolvimento possam conciliar crescimento econômico e proteção ambiental.

Ao estabelecer novas metas para 2030, a China busca consolidar uma trajetória em que a recuperação ambiental deixa de ser apenas uma política de conservação e passa a integrar uma estratégia mais ampla de desenvolvimento nacional.

Fonte
Brasil de Fato
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