O encontro “Céu, pássaro, jiboia: Cantos do cipó transpostos em imagem” reuniu, nesta quarta-feira (22), em Porto Alegre, o cacique, artista e mestre dos cantos tradicionais Txaná Ibã Sales Huni Kuin, liderança da Terra Indígena Rio Jordão, no Acre. A atividade integrou o projeto Ecarta Anfitriã e aproximou o público dos cantos, das histórias e das obras do Movimento dos Artistas Huni Kuin (Mahku), coletivo que transforma conhecimentos ancestrais em arte e resistência.
Durante a roda de conversa, mediada pelo professor Eduardo Marasca, Ibã Sales apresentou a trajetória de criação do Mahku e compartilhou a relação entre os cantos do Nixi Pae, medicina sagrada do povo Huni Kuin, e as pinturas produzidas pelo coletivo.
Marasca contou que conheceu Sales durante vivências junto ao povo Huni Kuin. “Eu conheci ele na floresta, na aldeia dele. Eu já tinha uma amizade com um dos filhos dele de muitos anos”, relatou.
Segundo o professor, a proposta do encontro foi apresentar ao público a dimensão artística e cultural do trabalho desenvolvido pelo cacique. “Essas pinturas são pinturas de rezos que são cantados dentro da força dessa medicina. Então é uma arte sagrada que, além de ser bonita visualmente, tem um significado muito profundo também.”
A apresentação foi conduzida por uma combinação entre fala, música e imagem. Ao mostrar as telas, o cacique entoava cantos tradicionais e explicava as histórias, os significados e os conhecimentos presentes em cada desenho. Para Sales, as pinturas não são apenas representações visuais, mas registros de saberes transmitidos pelos ancestrais. “Essa pintura não é pintura qualquer coisa. Essa pintura é significado.”
O processo artístico começa pelos cantos. As músicas carregam narrativas, ensinamentos e visões que, depois, ganham forma em imagens. “Eu escuto a música, eu não leio nada, eu pinto todinho. Eu te entrego, pinta”, explicou, ao falar sobre a relação entre os cantos e a criação das telas.
Dos cantos ancestrais às telas do Mahku
Os Huni Kuin, expressão que significa “povo verdadeiro” na língua Hãtxa Kuin, reúnem cerca de 14 mil pessoas no Brasil, principalmente no Acre, além de comunidades no Peru. A cultura Huni Kuin é marcada pela oralidade, pelos grafismos tradicionais (kene), pelos cantos rituais e pela transmissão dos conhecimentos entre gerações.
O Mahku surgiu a partir das pesquisas desenvolvidas por Sales no campus Floresta da Universidade Federal do Acre (Ufac), voltadas ao registro visual dos Huni Meka, cantos entoados durante os rituais do Nixi Pae.
Durante a atividade em Porto Alegre, o cacique apresentou músicas relacionadas a elementos da floresta, como a jiboia, o jacaré, os pássaros e as plantas, e explicou que cada canto possui uma narrativa própria e uma relação com os conhecimentos espirituais do povo Huni Kuin.
A força da jiboia nos cantos Huni Kuin
Ao apresentar uma das telas relacionadas à jiboia, Sales explicou a importância do animal na cosmologia Huni Kuin. Entre cantos e explicações, afirmou que a música é uma forma de transmitir caminhos de conhecimento e conexão espiritual. “Essa língua que nós estamos falando é uma língua da jiboia, língua da serpente”, explicou.
Segundo o cacique, o canto da jiboia representa uma aproximação com essa força ancestral. “É para chamar o caminho e a minha língua chama Pag-i-Tchan-i-Ná. Pag que admira, Tchan você está aproximando. Vem comigo dessa força. E agora chegando na força, você vai pedir, admirar e sonhar.”
Sales explicou que os cantos não são apenas manifestações artísticas, mas formas de comunicação com os saberes ancestrais. “O cipó traz, mesmo alguém que já foi embora, ele dá notícia.”
Além da jiboia, o cacique apresentou cantos relacionados a outros seres da floresta, como o jacaré e os pássaros, mostrando como cada música se conecta às imagens produzidas pelo coletivo.

‘Nós não temos livro, nós temos memória’
Durante a conversa, Sales destacou a importância da oralidade para a preservação da cultura Huni Kuin e lembrou o período em que a língua tradicional sofreu repressão. “Quando eu tinha 13 anos, escondido, tudo escondido. Não deixava falar a nossa língua”, contou.
De acordo com ele, durante muito tempo, os conhecimentos foram preservados pela memória dos mais velhos. “Nós não temos livro, nós temos memória, nós temos oralidade”, afirmou.
O cacique relatou que aprendeu por meio da convivência com o pai, que era cantor, contador de histórias, pescador e caçador. A partir desse processo, Sales passou a registrar os cantos e a desenvolver a pesquisa que deu origem ao Mahku. “Hoje a língua está voltando”, disse.
Ao recordar a trajetória do povo Huni Kuin, Sales afirmou que o fortalecimento da língua e dos conhecimentos tradicionais também se reflete no crescimento da comunidade no Rio Jordão. Segundo ele, em 1975, havia cerca de 300 pessoas na região. “Hoje nós estamos 5 mil no Jordão.” Para o cacique, esse processo está ligado ao esforço de retomada da língua e da cultura Huni Kuin.
Mahku: arte como escola e resistência
Ao explicar como funciona o Mahku, Sales contou que o coletivo reúne atualmente oito artistas, todos integrantes da família. Segundo ele, o trabalho é coletivo: primeiro, os cantos são narrados e compreendidos e, somente depois, transformados em imagens. Cada artista interpreta visualmente uma mesma música, preservando o significado, mas criando uma pintura própria. “Mesmo a música, cada um faz diferente essa pintura.”
Para o cacique, o Mahku é mais do que um coletivo artístico. Trata-se de um espaço de pesquisa, ensino e fortalecimento dos conhecimentos tradicionais. “O Mahku é a nossa escola, a nossa universidade, onde nós estamos resgatando, incentivando os conhecimentos que já perdemos.”
Segundo Sales, antes de aprender a pintar em tela, os integrantes do coletivo aprendem os cantos, as histórias e os significados de cada imagem. “Primeiro você aprende a frase.”
O coletivo também atua na formação das novas gerações, envolvendo crianças e jovens no aprendizado da pintura, dos grafismos, da música, da cerâmica, da tecelagem e de outros saberes tradicionais.
Hoje, o Mahku recebe convites para exposições e projetos no Brasil e no exterior. As obras do coletivo integram acervos de instituições como o Museu de Arte de São Paulo (Masp), a Pinacoteca de São Paulo, o Museu de Arte do Rio, a Fondation Cartier, na França, e o Musée des Beaux-Arts de Montréal, no Canadá. O grupo também participou da Bienal de Veneza de 2024.
Durante a conversa, Sales afirmou que a produção artística também é uma estratégia de fortalecimento do território e da floresta. Segundo ele, os recursos obtidos com a venda das obras retornam para a comunidade. “Faz a tela, compra terra. Faz a tela, compra casa. Faz a tela, compra material. Faz alimento. Ajuda os parentes que estão naquele caso difícil.”
O cacique explicou que o projeto nasceu da preocupação com a preservação da floresta e dos conhecimentos ancestrais. “Se não tivesse floresta, não existia mais”, disse. Para Sales, cada pintura leva ao público uma mensagem sobre a importância da floresta e da continuidade da vida.
