O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deu novos detalhes sobre o acordo nuclear entre o país e a Arábia Saudita. O mandatário foi às redes sociais nesta quinta-feira (23), dia seguinte à confirmação da decisão, para anunciar que o acerto estaria totalmente condicionado à adesão da Arábia Saudita aos Acordos de Abraão, que foram definidos pelo republicano como “muito respeitados e bem-sucedidos”.
Trump não deu mais detalhes sobre se Riade estaria, de fato, disposta a aderir aos Acordos de Abraão. A Arábia Saudita tampouco se pronunciou, ao contrário do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, que, nas redes sociais, mencionou que uma eventual adesão saudita “seria um avanço histórico para a paz no Oriente Médio”.
Uma hipotética adesão da Arábia Saudita aos Acordos de Abraão seria uma reviravolta em sua postura. Os arranjos foram celebrados em 2020, ainda durante o primeiro mandato de Trump, e têm previsto que Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Marrocos e Sudão normalizem as relações com Israel, em troca de facilidades comerciais.
Na prática, o distensionamento com Israel tem funcionado como um primeiro passo para o movimento estratégico de fundo: isolar o Irã no contexto do Oriente Médio.
Riade, porém, resiste à ideia, argumentando que qualquer melhoria nas relações com Israel passaria, necessariamente, pela criação do Estado da Palestina. Desde o início do genocídio israelense em Gaza, esse argumento ganhou ainda mais força para a Arábia Saudita.
“Sem a Arábia Saudita, os Acordos de Abraão não se completam”, explica Najad Khouri, fundador do Grupo de Estudos e Pesquisa sobre o Oriente Médio (GEPOM) e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) para a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) e a Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica (ECEMAR).
As mudanças de contexto não têm alterado a postura da Arábia Saudita, que, mesmo ao formular a Iniciativa de Paz Árabe, em 2002, já cobrava o reconhecimento de Israel de um Estado palestino.
A relação com o Irã, porém, tem mudado. Historicamente, a Arábia Saudita sustenta um receio sobre o programa nuclear iraniano. O príncipe herdeiro Mohammad bin Salman já chegou a afirmar que, caso o Irã desenvolva armas nucleares, seu país fará o mesmo.
“Desde que o acordo nuclear do Irã aconteceu, em 2015, sempre foi preocupação da Arábia Saudita. Por isso que ela, junto a Israel, faz objeções ao acordo nuclear”, diz Khouri. Trump retirou os EUA do pacto em 2018, durante seu primeiro mandato.
Para o historiador Gabriel Mathias Soares, Global Fellow na Habib University em Karachi, no Paquistão, mesmo que parte da elite saudita não atribua grande importância à causa palestina, existe uma parcela significativa da população que dificilmente aceitaria esse movimento sem resistência.
“Há ainda outro elemento a ser lembrado: partes do sul da Arábia Saudita possuem fortes vínculos históricos, culturais e até linguísticos com o Iêmen. Os houthis, embora tenham origem no islamismo zaidita, ampliaram a base de apoio para além desse grupo religioso, inclusive dentro das Forças Armadas iemenitas. O movimento tem um discurso nacionalista de unidade do Iêmen, e não de separação territorial”, avalia.
Arábia Saudita, a joia da coroa
Ao voltar ao poder, em janeiro de 2025, Trump fez um movimento que contrariou os antecessores. “Normalmente, o chefe de Estado faz a inauguração das visitas internacionais indo aos países vizinhos. No caso, Canadá e México. Mas, agora, Trump escolheu a Arábia Saudita, e não escolheu Israel”, diz Khouri, que lembra que o reino saudita é “a joia da coroa do Oriente Médio, tanto em termos petrolíferos quanto como uma potência média”.
Os números são robustos. Segundo dados da Agência Internacional de Energia (AIE), a Arábia Saudita é o segundo maior produtor de petróleo do mundo, e a Organização dos Países Exportadores de Petróleo e Aliados (Opep+) aponta que o país concentra também a segunda maior reserva do mundo.
Não por acaso, o país tem tido que redirecionar mais de 70% de suas exportações de petróleo bruto, que tinham no Estreito de Ormuz um canal crucial de escoamento, para o porto de Yanbu, no Mar Vermelho. Mas, nesta semana, os houthis voltaram ao teatro de operações e atacaram embarcações da Arábia Saudita, voltando a fazer ameaças.
Trump, de olho no peso estratégico da Arábia Saudita, já vinha dizendo, nos últimos meses, que um eventual acordo (como o anunciado ontem) passaria pela adesão de Riade. Pela lógica do republicano, quanto mais os países concordarem com os Acordos de Abraão, maior seria o estrangulamento da posição de Teerã no curso da guerra que se estende desde fevereiro.
Mas o próprio acordo nuclear entre Washington e Riade tem sido objetivo de dúvidas. Sem dar grandes detalhes sobre o que está por vir, os EUA confirmaram que o texto abre caminho para enriquecimento de urânio em solo saudita, caso seja viável comercialmente. Se os Estados Unidos vetarem o avanço, a Arábia Saudita ficaria impedida de buscar a tecnologia por dez anos.
Outro ponto de preocupação do acordo, previsto para durar 30 anos, é a dispensa ao chamado “padrão-ouro” de supervisão internacional, que funciona como o nível mais rigoroso de fiscalização previsto pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Uma concessão saudita nesse ponto, em específico, poderia criar um precedente para que outros países do Oriente Médio reivindiquem termos parecidos. “Há um risco sério de que a região possa ficar altamente atomizada”, alerta Khouri.
Desdobramentos incertos
No campo geopolítico, uma eventual melhoria nas relações entre Riade e Tel Aviv “colocaria a Arábia Saudita muito mais na mira do Irã e de outros grupos que se opõem a Israel”, segundo Soares, que lança a seguinte questão: até que ponto a Arábia Saudita realmente se beneficia com uma aproximação com Israel? “Nos conflitos recentes, boa parte da infraestrutura militar instalada na região serviu principalmente aos interesses israelenses, e não necessariamente aos próprios países árabes”, explica.
Outro aspecto tem a ver com a situação interna saudita. “Embora o país seja extremamente rico em recursos naturais, nem toda sua população desfruta do mesmo padrão de desenvolvimento observado em outros grandes produtores de petróleo. Além disso, as principais regiões produtoras de petróleo são de maioria xiita, especialmente a Província Oriental. Essas áreas já registraram protestos e repressão ao longo dos anos”, pondera Soares.
Não que a adesão seja impossível, mas o balanço entre os ganhos e perdas será necessário. “Seria difícil imaginar a Arábia Saudita aceitando a proposta sem obter contrapartidas muito maiores do que as oferecidas até agora, mesmo com a promessa de um acordo nuclear. Os riscos parecem superar os benefícios”, avalia Soares.
