Cem anos sem solidão: na “zona azul” da Costa Rica, envelhecer bem não é um projeto individual

Por José Antonio Rabadán Sánchez, Profesor de Trabajo Social y Servicios Sociales, Universidad de Alicante23/07/2026 às 13:290 visualizações
Retrato de uma família da Península de Nicoya (Costa Rica): lá não é raro encontrar um centenário cercado por quatro gerações de familiares e amigos, ainda útil, cuidando de um bisneto ou atendendo a um filho dependente.
          Foto: José Antonio Rabadán, Author provided (no reuse)
Retrato de uma família da Península de Nicoya (Costa Rica): lá não é raro encontrar um centenário cercado por quatro gerações de familiares e amigos, ainda útil, cuidando de um bisneto ou atendendo a um filho dependente. Foto: José Antonio Rabadán, Author provided (no reuse)
Foto: CC BY-ND / The Conversation Brasil

Nos últimos anos, visitei mais de 50 centenários na chamada “zona azul” da Península de Nicoya, Costa Rica, e suas famílias. Entrei em suas casas, sentei nas suas salas e conversei longamente com eles. O que mais chamou a atenção nessas vidas tão longas não é o que comem nem como se movimentam, mas o fato de sempre terem companhia e apoio. Em uma cadeira de balanço, à sombra da varanda, costumamos ver um idoso cercado por pessoas: um filho que volta do campo, um neto para cuidar, uma vizinha que aparece ao anoitecer. Aos cem anos, eles continuam sendo o centro de algo e da vida de alguém.

As “zonas azuis” são regiões do mundo com uma concentração incomum de pessoas muito longevas. O termo, não isento de críticas, foi cunhado pelos demógrafos Gianni Pes e Michel Poulain ao mapear a longevidade dos habitantes da Sardenha, e o divulgador científico Dan Buettner as popularizou ao descrever o que seriam pelo menos cinco delas no planeta: Sardenha (Itália), Okinawa (Japão), Icária (Grécia), Loma Linda (Estados Unidos) e a já mencionada Península de Nicoya.

Nesta última, a longevidade masculina é excepcional. Estudos demográficos mostram que um homem de 60 anos natural dessa região da Costa Rica tem sete vezes mais chances de chegar aos cem anos do que um japonês. Essa característica não é observada entre aqueles que emigram do local, o que sugere que ela tem mais a ver com o ambiente do que com a herança genética.

Vínculos não se compram

O fator que se repete lá não se compra nem se herda. É a rede social de pessoas que cerca cada idoso e que não se desfaz com a idade.

Essa permanência aponta para algo mais profundo. Na Península de Nicoya, a idade social e a cronológica se dissociam. Uma pessoa pode ter cem anos e continuar sendo útil, ativa e necessária. Nas sociedades desenvolvidas, buscamos uma dissociação diferente, da idade biológica da cronológica. Queremos manter o corpo jovem, mesmo que o calendário avance. Sua expressão mais extrema é personificada por Bryan Johnson, o milionário norte-americano que está investindo uma fortuna para reverter sua idade biológica e reconheceu que seu regime lhe custou relacionamentos. Ele otimiza o organismo e negligencia os laços afetivos.

A gerontologia oferece um marco para compreender esse vínculo. A “teoria do comboio”, formulada pela psicóloga norte-americana Toni Antonucci, descreve cada pessoa avançando pela vida dentro de um comboio de relacionamentos. Ao lado do indivíduo viajam familiares, amigos e vizinhos que o acompanham e apoiam em cada etapa. Na maioria das sociedades, esse comboio vai ficando cada vez mais vazio devido à viuvez, à distância ou às mudanças.

Na zona azul da Península de Nicoya, no entanto, o “comboio” parece ficar cheio até o fim. Não é raro encontrar um centenário cercado por quatro gerações de familiares e amigos, ainda útil, cuidando de um bisneto ou atendendo a um filho dependente. Esse idoso não envelhece tão bem “apesar” de sua comunidade, mas, como tudo indica, “graças” a ela.

O isolamento pode matar

A importância dessa companhia não é mera intuição. Diversos estudos a comprovam. Há quase quatro décadas, um trabalho já clássico publicado na revista científica Science concluiu que o isolamento social constitui um fator de risco de morte de primeira ordem. Posteriormente, uma meta-análise envolvendo mais de 300 mil pessoas estimou que a falta de conexão social está associada a uma mortalidade comparável à do tabagismo. Os mecanismos são plausíveis. Quem tem alguém por perto costuma cuidar melhor de si, percebe mais cedo uma queda ou uma doença e encontra um motivo para se levantar.

O problema é que as sociedades desenvolvidas vêm desmantelando, peça por peça, esse conjunto. O sociólogo Zygmunt Bauman descreveu a modernidade líquida como uma época em que os laços são formados sem firmeza, para que possam ser desfeitos rapidamente. A família, durante séculos o principal pilar social, tornou-se individualizada.

O demógrafo David Reher distinguiu entre as sociedades com laços familiares fortes, incluindo as mediterrâneas, e aquelas com laços fracos. Estas últimas são características do norte da Europa e dos Estados Unidos, onde o indivíduo prevalece sobre o grupo. A Espanha, assim como outras sociedades ocidentais, está passando rapidamente do primeiro modelo para o segundo. Em uma geração, muitos filhos deixaram de envelhecer ao lado de seus pais, e o cuidado com os idosos foi transferido para asilos e outras instituições.

Os números refletem isso. Na Espanha, cerca de 2 milhões de idosos vivem sozinhos. Entre eles, 850 mil têm mais de 80 anos e quase oito em cada dez são mulheres. O número de lares unipessoais disparou em meio século. Uma em cada cinco pessoas com mais de 75 anos já vive sozinha. O que era exceção tornou-se regra, e não apenas lá.

Kodokushi, ou morte na solidão

Na sua forma mais extrema, esse isolamento culmina no que no Japão chamam de kodokushi: a morte na solidão, o corpo que ninguém descobre até semanas ou meses depois. Não é uma raridade oriental. Nas últimas semanas, sem precisar ir muito longe, a imprensa espanhola noticiou vários casos. Em um vilarejo de Zamora, encontraram sem vida um homem que morava sozinho, após vários dias sem dar sinais de vida. Em Albacete, foram encontrados os corpos de uma mãe e seu filho que ninguém via há semanas.

É preciso ter cautela com os números, pois na Espanha não há registro oficial dessas mortes. Elas só vêm à tona quando um vizinho se preocupa e a notícia chega a um jornal. No futuro, se nada mudar, o barômetro da solidão estará nos laboratórios forenses. Alguns chegam a propor medir a solidão de um país pelo grau de decomposição dos corpos ao chegarem à autópsia. Pois a decomposição orgânica revela quanto tempo demorou para que se percebesse o desaparecimento da pessoa. É difícil imaginar uma distopia mais silenciosa.

Uma realidade social, uma resposta comunitária

Por isso, tratar a solidão como uma questão privada, que cada um resolve com vontade própria ou com um aplicativo, é insuficiente. Um “comboio” não se reconstrói sozinho: requer uma comunidade que o sustente, e isso é uma decisão coletiva.

O próprio governo espanhol reconheceu isso. Ao aprovar, em fevereiro deste ano, o Marco Estratégico Estatal de Solidões, ele reconhece que a solidão não é um problema individual, mas uma realidade social que exige uma resposta comunitária, com ambientes de proximidade, iniciativas intergeracionais e um planejamento urbano que aproxime as pessoas.

O Reino Unido também criou um ministério da solidão em 2018, e o Japão aprovou, em 2024, uma lei para combatê-la. Quando vários países desenvolvidos legislam sobre o mesmo assunto, o problema deixa de ser individual.

Não conheci, na zona azul da Península de Nicoya, ninguém com um plano para chegar aos cem anos. Conheci pessoas com galinhas para alimentar, netos para criar e vizinhos com quem conversar. Ninguém contava seus anos, apenas suas amizades. Naquelas casas de madeira, longe da fictícia Macondo, é possível viver cem anos sem solidão.

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José Antonio Rabadán Sánchez não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Fonte
The Conversation Brasil
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