Cerca de 37,7% da população boliviana vivia abaixo da linha da pobreza em 2024, segundo o levantamento, em 2024. A nova pesquisa realizada pela Fundação Jubileu, que atualiza os dados e inclui a variável da inflação, revelou que 47,7% dos habitantes não possuem os recursos necessários para preencher a cesta básica de alimentos.
O levantamento demonstrou que os mais afetados são camponeses, indígenas, jovens e mulheres.
Segundo o INE, a pobreza atingia 4,7 milhões de pessoas em 2024, sobre um total de 11,3 milhões e 12,8% viviam em pobreza extrema, ou seja, sem renda para a cesta básica de alimentos.
Esse número subiu para 19%, o que representa cerca de 2 milhões de habitantes. O relatório da Jubileu determinou que atualmente a pobreza abrange 5,8 milhões de bolivianos, principalmente devido ao aumento dos alimentos, que nos últimos dois anos subiram 30%. Segundo esses dados, se em 2024 uma em cada três pessoas era pobre, hoje metade da população o é.
A partir dos dados do INE, a fundação apontou que 53% da população rural se encontra em pobreza moderada, contra 31% nas cidades.
Se analisada a pobreza extrema, 6% dos citadinos não cobrem uma cesta mínima de alimentos, enquanto no campo essa proporção sobe para 29,6%. Em relação à população indígena, a Jubileu avaliou que 46,1% vive abaixo da linha da pobreza, contra 33,5% daqueles que não reconhecem suas raízes ancestrais. Sobre o gênero, o estudo demonstrou que as mulheres enfrentam maiores níveis de pobreza, que chegam a 38,2%, enquanto nos homens é de 37,1%.
A pobreza também difere entre idades: 50,6% das crianças, meninas, meninos e adolescentes de até 17 anos estão em situação econômica precária, o que afeta seu desenvolvimento em todos os aspectos.
Em entrevista a Sputnik, Carla Cordero Sade, analista de políticas sociais da Fundação Jubileu e coordenadora do novo estudo, comentou que um problema estrutural da Bolívia reside na alta taxa de trabalho informal, que supera os 80%. A baixa produtividade e o emprego precário são as principais causas para limitar os rendimentos e perpetuar a pobreza no nosso país.
"Mesmo na época do boom econômico [até 2015], a informalidade trabalhista tem sido persistente em nosso país. Segundo os últimos dados da OIT [Organização Internacional do Trabalho], 85 de cada 100 trabalhadores na Bolívia atuam na informalidade. Os últimos dados oficiais situam em 87,7% essa proporção".
Como o estudo foi concluído em junho, não foram analisadas as repercussões na economia causadas pelos 53 dias de bloqueio nacional contra o Governo de Rodrigo Paz, ocorridos nos últimos meses.
Nesse período, vários negócios, comércios, bem como pequenas e médias empresas fecharam e demitiram trabalhadores.
"Um dia não trabalhado é um dia em que não se recebem rendimentos, assim se cai na pobreza por renda. Nesse âmbito se reproduzem as debilidades estruturais", disse Cordero.
A pesquisadora mencionou que, além disso, a Bolívia é um dos países menos produtivos da América Latina. "Não temos uma matriz de desenvolvimento produtivo de geração de valor agregado".
Para a pesquisadora, as deficiências na educação boliviana são determinantes nesse setor. O Estudo aponta que 58,8% daqueles que não têm estudos vivem na pobreza, mas apenas 18,7% daqueles que têm mais de 12 anos de escolaridade estão nesse estrato. Além disso, frisou, não há política pública para fortalecer o ingresso em carreiras importantes para o desenvolvimento do país:
Cordero mencionou que poucos jovens estudam engenharia química, industrial, agronomia, "que servem para transformar a produção no nosso país".
"Nossos jovens estão orientados para carreiras que já estão saturadas no nosso mercado de trabalho. Mais de 60% estudam direito e ciências sociais, carreiras que não estão orientadas para mudar essa matriz produtiva que o país precisa", explicou.
Pobreza no campo e na cidade
Atualmente, a população boliviana se distribui em 70% em áreas urbanas e 30% em zonas rurais. Em proporção a pobreza como um todo está mais concentrada nas cidades, segundo a pesquisa, mas a pobreza é mais extrema no campo.
"A pobreza afeta mais a área rural, mas também os indígenas, os jovens, porque 50% das crianças menores de 17 anos estão nessa faixa. Elas já estão em situação de desvantagem e assim se gera uma pobreza intergeracional", precisou Cordero.
Além disso, "a pobreza afeta mais as mulheres, precisamente porque as mulheres desempenham um papel duplo na economia: cuidam do lar e também trabalham, inseridas mais na economia informal. Por isso se veem essas desigualdades", comentou a especialista da Jubileu.
No início de julho, o governo nacional desvalorizou sua moeda ao adaptar o câmbio do dólar ao mercado paralelo e das carteiras eletrônicas. A cada dia, o Banco Central da Bolívia informa a cotização para o dia seguinte, atendendo ao jogo da demanda e oferta. Nas últimas três semanas, a cotização aumentou na razão de 10 a 20 centavos por dia.
Recentemente a moeda estrangeira aumentou muito e vários setores do comércio e pequenas empresas, que dependem de insumos importados para o desenvolvimento de suas atividades, exigiram medidas das autoridades diante dos aumentos, que podem elevar ainda mais o nível de pobreza.


