África Árabe: rivalidade entre países impede crescimento e integração da região, aponta analista

23/07/2026 às 17:150 visualizações
Foto: AVISO: midia estatal russa / Sputnik Brasil
A borda norte da África, banhada pelo mar Mediterrâneo, é composta por cinco países muçulmanos. A partilha da identidade religiosa, no entanto, não configura um alinhamento político automático entre os governos, que carregam rivalidades entre si.
A região, por mais que busque estabilidade econômica, esbarra em questões de defesa, insegurança alimentar e autonomia energética — este último item tem como principal desafio os conglomerados europeus que atuam no país.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, o historiador, escritor e analista internacional Said Marcos Tenório destaca que o colonialismo europeu destruiu o continente africano, mas rivalidades internas entre nações do norte dificultam o desenvolvimento local.
Tenório explica que as tensões entre Argélia e Marrocos, que mantêm sua fronteira compartilhada fechada, impedem o desenvolvimento de grandes projetos comuns de infraestrutura e o comércio entre os países da região. A rivalidade, por exemplo, impede o acesso rápido de outras nações do norte africano ao oceano Atlântico, que banha o território marroquino.

"O resultado dessa rivalidade histórica entre o Marrocos e a Argélia acaba afetando o comércio intra-regional, que é um dos menores do continente, representando apenas 5% do comércio total dos países do Maghreb [norte árabe da África]."

O especialista destaca que as rusgas com marroquinos também se estendem a outros países da região, como a Líbia, Mauritânia e Tunísia. A postura de Rabat diante de Tel Aviv, por exemplo, mantendo relações estratégicas com Israel, é um dos pontos que dificulta a aproximação de outros governos norte-africanos.
"A África travou ao longo de séculos uma luta colonial muito forte. O colonialismo europeu destruiu a África e a luta anticolonial africana se assemelha, em certo sentido, com as reivindicações do povo palestino de autonomia, de liberdade, de respeito aos direitos humanos, de questão territorial. A guerra em Gaza reforçou essa centralidade da questão palestina."
Outro ponto de imbróglio entre vizinhos e Marrocos é o Saara Ocidental, território controlado quase que em sua totalidade pelo governo de Rabat. A área é considerada a última colônia africana e saiu da posse da Espanha para as mãos marroquinas.
"No processo de descolonização, a Espanha, ao invés de transferir a administração do Saara Ocidental para a Frente Polisário, causou um hiato publicamente, posteriormente com um acordo de transferência para o Marrocos, no norte, e para a Mauritânia, no sul. Foi aí que gerou a Guerra do Saara."
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Quem deve ser o parceiro dos países do norte da África?

Se, após o colonialismo europeu na África, as metrópoles forneciam a maior rede de apoio ao continente, hoje países de todo o mundo tentam alinhar seus interesses com as nações africanas, que apresentam um enorme potencial de crescimento.
Tenório conta que a Rússia, por exemplo, tem ampliado sua presença no norte da África com cooperação militar, venda e compra de energia, negociação de equipamentos industriais e até comércio de cereais. Um ponto menos destacado, mas também vital, é a articulação diplomática de Moscou ao inserir estes países em um contexto global.
Aliada do Kremlin, a China também investe na região, em especial em infraestrutura, destaca o especialista. Portos, ferrovias, telecomunicações, parques industriais e intercâmbio de energia são alguns dos pontos que Pequim traz para o norte da África.
Apesar da crescente presença de novos players na região, Tenório alerta que União Europeia e Estados Unidos continuam sendo atores centrais no continente, com destaque para a ação na segurança e no financiamento de projetos. Todavia, Bruxelas e Washington não apresentam o mesmo domínio de antes.
"Esses países do norte da África diversificaram as relações com o passar do tempo. Então, hoje você vê países que antes mantinham uma relação quase que exclusiva com os Estados Unidos e a União Europeia, hoje eles têm uma relação muito mais forte com China, Rússia, Turquia, até mesmo com os países do Golfo."
Na visão do especialista, o futuro do norte da África deve passar por uma integração maior com o BRICS, grupo do qual o Egito já faz parte.

"A integração com a Europa e com os EUA já demonstrou, ao longo de séculos, que é uma via de apenas uma mão. EUA e União Europeia só querem roubar as riquezas da África, não levaram desenvolvimento algum nos anos de colonialismo. O que proporcionaram? Nada do ponto de vista de desenvolvimento humano, nacional, de infraestruturas que os países precisam para se desenvolver. Então, apostaria no BRICS [como o próximo grande parceiro]."

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