

Geofeira, visitas a sítios, vivências pedagógicas com estudantes e uma jornada de formação de professores marcaram o último dia da programação de campo da missão de revalidação do Geoparque Caçapava do Sul, realizada nesta quarta-feira (22). As atividades encerraram a etapa de visitas dos avaliadores da UNESCO, responsáveis por analisar se o território continua atendendo aos critérios para manter o título de Geoparque Mundial.
Entre os dias 15 e 22 de julho, Daniela Rocha, de Portugal, e Jean-Luc Desbois, da França, percorreram os territórios dos geoparques Quarta Colônia e Caçapava do Sul, no Rio Grande do Sul. Reconhecidos como Geoparques Mundiais da Unesco em 2022, ambos passam agora pela primeira revalidação, processo realizado a cada quatro anos para confirmar se os territórios continuam atendendo aos critérios exigidos pela organização. Segundo o coordenador científico do Geoparque Caçapava do Sul, André Borba, desde o reconhecimento pela Unesco, “o que mais mudou foi o pertencimento das pessoas, a união da comunidade, a integração e a visibilidade que Caçapava alcançou”.
Ao longo da missão, os avaliadores percorreram ainda diferentes pontos que representam a diversidade do patrimônio de Caçapava do Sul. Entre os locais visitados estiveram as Minas do Camaquã, que preservam o legado da mineração de cobre e paisagens marcadas por formações geológicas singulares; a Pedra do Segredo, um dos principais cartões-postais do Rio Grande do Sul; e o Forte Dom Pedro II, erguido com a finalidade de proteger a cidade de invasões estrangeiras.
Geoprodutos marcam o dia
Entre as atividades do último dia de visitas, os avaliadores da Unesco estiveram na Feira Municipal do Artesanato, Produtos e Prestação de Serviços (Femapro). No local, a comitiva que os recepciou mostrou geoprodutos feitos por artesãos e produtores de Caçapava do Sul. A iniciativa representa uma das estratégias dos Geoparques Mundiais da Unesco para transformar o patrimônio geológico, cultural e paisagístico em oportunidades de desenvolvimento para as comunidades do território.
Com 28 anos de história, a sede da associação reúne atualmente 26 salas e abriga, além da feira, o Centro de Atendimento ao Turista (CAT), a sede regional da Rota da Lã, o Lions Club e o Clube Recreativo Harmonia. Em 2026, o espaço também recebeu a certificação de Ponto de Cultura. Presidente da Femapro e integrante do Comitê Gestor do Geoparque Caçapava do Sul desde 2016, Rosa Ruschel destaca que a feira acompanhou a consolidação do geoparque e passou por mudanças nos últimos anos. “Quando eu entrei nesse espaço, ele estava bem desmotivado. Hoje conseguimos mudar essa realidade”, compara.
Os geoprodutos são bens e serviços que carregam a identidade do território e estabelecem relação com a geodiversidade, a história, a cultura e a paisagem local. Além de valorizar o patrimônio, os itens incentivam o empreendedorismo, fortalecem pequenos produtores e geram novas oportunidades de renda para a população. Desde o reconhecimento do Geoparque Caçapava do Sul pela Unesco, a rede de parceiros também cresceu. Em 2022, eram 46 selos distribuídos entre iniciativas parceiras, geoprodutos e apoiadores; atualmente, o território reúne 244 certificações.
Na Femapro, esse conceito aparece em diferentes criações inspiradas no município e/ou resultantes de matérias-primas locais. Entre os produtos estão esculturas em papel machê que representam a fauna regional, tábuas e gamelas de madeira, louças com paisagens e símbolos locais e peças em biscuit e lã que homenageiam animais pré-históricos, como a preguiça-gigante, além de pães e doces. A entidade é formada por 80% de artesãos, 10% de agricultores familiares e 10% de prestadores de serviços, além dos selos de Geoparceiro e Geoproduto. Segundo Rosa, o reconhecimento ampliou a procura pelos produtos locais. “O turista já chega aqui procurando por ele”, comenta.
Criada como feira permanente em 1998, a Femapro se consolidou como um espaço de fortalecimento da cultura e da economia local. Com maioria feminina entre os expositores, a iniciativa promove a autonomia econômica de artesãs e de produtoras. Para Rosa, a revalidação reforça a importância da melhoria contínua do território. “Se não existisse esse processo, talvez a gente achasse que aquilo que faz já estava bom”, afirma.

Educação, extensão e patrimônio no território
A programação com os avaliadores da Unesco destacou a integração entre educação, ciência e comunidade, um dos pilares dos geoparques. Ao longo de quatro dias em Caçapava do Sul, a comitiva visitou geossítios, projetos de educação patrimonial, iniciativas de pesquisa e ações voltadas à preservação da memória e da identidade do território.
No último dia da missão, a educação ambiental ganhou destaque durante a visita ao Sítio Chaleira Preta. No local, Daniela Rocha e Jean-Luc Desbois acompanharam vivências pedagógicas com estudantes dos anos iniciais. No local, os avaliadores conheceram um minhocário utilizado em atividades educativas e um moinho movido à roda d’água, construído por volta de 1865, que preserva técnicas tradicionais de moagem e integra o patrimônio histórico do território. Segundo André Borba, as escolas contam atualmente com cerca de 20 atividades à disposição para trabalhar temas como geoturismo, geoeducação e geoprodutos.
A relação entre universidade e comunidade também esteve presente durante a missão por meio das ações de extensão desenvolvidas pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa) no território. “O papel da UFSM tem sido principalmente na extensão universitária, levando professores, técnicos e estudantes para desenvolver projetos junto às comunidades do território”, afirma Borba. A atuação da instituição envolve projetos voltados à educação, pesquisa e valorização do patrimônio natural e cultural, aproximando o conhecimento acadêmico das demandas locais.
A programação foi encerrada no CTG Família Nativista, com a abertura da Jornada Interdisciplinar de Formação de Professores em Educação Patrimonial. O encontro reuniu educadores, gestores e representantes do Geoparque em um painel de abertura com a participação de Borba e da professora Marta Rosa Borin, docente da UFSM e especialista em patrimônio cultural. A atividade discutiu o papel da educação patrimonial na formação de professores e no fortalecimento da identidade territorial.



As impressões dos avaliadores da Unesco
Coordenadores de geoparques em seus países de origem, Jean-Luc Desbois, do Geoparque Massif des Bauges, na França, e Daniela Rocha, do Geoparque Arouca, em Portugal, destacaram o envolvimento coletivo como a principal impressão deixada por Caçapava do Sul durante a avaliação. Para os especialistas, a comunidade demonstra compreender o significado do que é um geoparque, a responsabilidade na construção do projeto e as oportunidades geradas pelo reconhecimento internacional.
Na avaliação de Jean-Luc, essa compreensão se reflete na evolução do território desde o reconhecimento em 2022. O avaliador destacou a ampliação dos geoprodutos, dos projetos desenvolvidos e das ações implementadas nos últimos quatro anos, período em que o território também trabalhou para atender às recomendações feitas na avaliação anterior. “Os avaliadores da outra missão deram algumas recomendações, e o que nós vimos durante os três dias é que houve muito trabalho nos últimos quatro anos”, afirma.
Para o avaliador francês, o comprometimento também está presente na forma como os moradores recebem os visitantes e se relacionam com o território. “Sinto desde o início da visita que as pessoas dão muita atenção ao outro, detectam o outro, todo mundo”, observa.Daniela também destacou que o sentimento de pertencimento esteve presente nos locais visitados durante a avaliação. Segundo ela, um dos aspectos que mais chamou atenção foi perceber que a comunidade compreende o significado de ser um geoparque mundial, conceito que muitas vezes é associado de forma equivocada apenas à preservação e às restrições de uso do território. “Todo mundo entende o seu verdadeiro significado, embora esse não seja um conceito fácil de compreender em um primeiro momento. Muitas pessoas associam a palavra ‘parque’ à ideia de restrições, quando, na realidade, a proposta é exatamente o contrário”, explica.
A especialista portuguesa enfatizou que iniciativas como os geoparceiros e os geoprodutos mostram como o reconhecimento internacional pode estimular novas formas de cooperação no território. “Esses programas também permitiram o surgimento de novos negócios e fez com que as pessoas se conhecessem para trabalhar em parceria. Assim, perceberam que o trabalho coletivo é mais forte do que cada um seguir sozinho”, destaca.
Assim como o colega avaliador, Daniela ressaltou a atuação conjunta entre instituições e comunidade na consolidação do projeto. “Eu acho que todos se reconhecem neste projeto, que está a ser alavancado pela Prefeitura, pela Universidade de Santa Maria. Todos chegaram a ele e, como todos estão a contribuir e a falar da mesma apropriação, o Geoparque em si segue muito mais vigoroso e forte”, conclui.
Após o encerramento oficial da missão nesta quinta-feira (23), os avaliadores irão elaborar um relatório com as observações realizadas durante a visita. O documento será encaminhado à Unesco, responsável pela análise da manutenção dos títulos de Geoparques Mundiais dos territórios de Caçapava do Sul e Quarta Colônia.
Texto: Giovanna Felkl, estudante de Jornalismo e bolsista da Agência de Notícias
Fotos: Sofhia Krening,estudante de Produção Editorial e bolsista da Agência de Notícias
Edição: Maurício Dias, jornalista
