Seu Januário, o avô que desenhou meus caminhos em Ferraz de Vasconcelos

Por Beatriz Alves24/07/2026 às 16:591 visualizações

“Você é neta do Seu Januário, né?” Essa é, sem dúvidas, a frase que mais escuto quando ando pelas ruas da Vila São Paulo, em Ferraz de Vasconcelos, Grande São Paulo. Minha própria geografia na cidade foi desenhada inteiramente pelas mãos do meu avô paterno. Sustentada há mais de três décadas por um mineiro de origem, paranaense de necessidade e ferrazense de coração, nossa família tem em Seu Januário Alves, de 86 anos, o seu centro de gravidade.

Homem negro, nascido em Ponte Nova (Minas Gerais) em 1940, com mais de 1,70 metro de altura e postura firme, ele é um doce em pessoa, daqueles que conquistam pela tranquilidade e por uma generosidade sem tamanho. Sempre disposto a fazer de tudo por todo mundo e que ama caminhar pelo bairro.

Januário acompanhou o crescimento de Ferraz de Vasconcelos @Arquivo pessoal
Januário acompanhou o crescimento de Ferraz de Vasconcelos @Arquivo pessoal

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No entanto, por trás dessa mansidão, também se esconde uma teimosia marcante, típica de quem passou a vida cuidando dos outros e se recusa a aceitar os limites do tempo. Se tem algo que o deixa bravo, é quando a idade tenta barrar a vontade de ajudar: ele se indigna quando não pode acompanhar alguém ao hospital ou sente que está ficando de fora de uma missão de cuidado.

Afinal, cuidar sempre foi sua linguagem. Quem o vê hoje, mantendo a rotina ativa e sem abrir mão do clássico copo de vinho no almoço (que eu sempre acompanho quando posso), talvez não dimensione a dureza do chão que ele pisou.

Seu Januário enfrentou a lida pesada na roça no Paraná desde cedo, a fome na juventude e a dor imensurável de perder três dos seus sete filhos, além da saudade da minha avó Ana, falecida em 2011, mas que segue viva em cada canto da nossa casa. Mesmo diante dos golpes da vida, sempre escolheu o afeto.

Em 1971, em busca de uma vida melhor, trocou o campo pela grande cidade e desembarcou em São Paulo. Morou na Cidade Ademar, na zona sul, e encarou anos de trabalho pesado nas fábricas até se aposentar aos 55 anos. Foi com o dinheiro das férias, em 1990, que comprou o terreno em Ferraz de Vasconcelos onde ergueria o nosso lar.

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Desde então, viu o nosso bairro, a Vila São Paulo nascer e se transformar: esteve lá quando a primeira rua do bairro foi asfaltada, assistiu ao primeiro comércio surgir e acompanhou até o quintal da nossa casa mudar no ritmo da cidade, deixando de ser apenas chão de terra batida para ganhar novas paredes e acolher a família que crescia. Mais do que testemunhar, fez questão de me ensinar a ler esse lugar. Conhece cada cantinho da cidade.

Foi esse mesmo homem doce e protetor que, durante anos, esperava por mim no ponto de ônibus depois da escola, guiava meus passos até a catequese na Paróquia Nossa Senhora da Paz, acalmava o meu medo diante do primeiro machucado e pegava a condução comigo para me esperar por horas até terminar uma entrevista de emprego em Guaianases.

‘Foi percebendo todo esse cuidado que me dei conta de que cada caminho que sei percorrer em Ferraz foi desenhado pelos passos dele’

Hoje, os papéis se invertem um pouco: sou eu quem o leva ao médico ou para almoçar. Ainda assim, ele quebra qualquer estereótipo de dependência. Meu avô segue super independente e, mesmo nas nossas voltas atuais, continua sendo o mestre que me ensina a enxergar o lugar onde moro. Ele foi o verdadeiro mestre que me ensinou a andar pelo mundo.

Quando peguei meu diploma da faculdade, olhei para ele e entendi que aquele papel pertencia à estrada que ele pavimentou para mim desde as manhãs em que me levava à escola.

Obrigada, vô. Se hoje sei pegar táxi até a estação, achar a melhor loja para comprar doce de leite ou me guiar até a nova igreja na rua de cima, é tudo aprendizado seu. Se me tornei jornalista e escrevo sobre a nossa quebrada, é porque o senhor me ensinou, esquina por esquina, a amar e entender o lugar de onde eu venho.

Agência Mural

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