Yes, we can!

Por Boletim Ponto24/07/2026 às 15:271 visualizações
O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva
O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva
Brasil de Fato


Faltando pouco mais de dois meses para as eleições, o governo já sente um clima de vitória. A única dúvida é se o mérito é de Lula, de Flávio ou de Trump.

.Tariflávio. Como esperado, o novo tarifaço chegou com uma sobretaxa de 25% sobre uma ampla lista de produtos de exportação brasileiros, mais 12,5% sobre aqueles supostamente relacionados ao trabalho escravo.

Do ponto de vista econômico geral, o impacto das tarifas deve ser pequeno. Além disso, Trump corre o risco de fortalecer a concorrência, aprofundando a perda de importância relativa dos Estados Unidos na balança comercial brasileira.

Já do ponto de vista político, o saldo do tarifaço foi positivo para o Planalto. Em poucos dias, a avaliação pessoal de Lula deu um pequeno salto, com a aprovação do eleitorado indo de 42% para 46% e a desaprovação caindo de 50% para 47%.

Mas não foi só a opinião do povão que mudou. Mesmo que uma lista de produtos tenha sido isenta — como carnes, minérios e remédios — a medida assustou os exportadores brasileiros. Tirando a Fiesp, o restante do empresariado viu o governo não como problema, mas como solução. Além de liberar R$ 18 bilhões em créditos para os setores atingidos, o Planalto discute a possibilidade de medidas de reciprocidade contra as exportações norte-americanas. Mas o mais provável é que Lula siga apostando no diálogo com Washington, nas críticas públicas a Trump e nos fóruns internacionais — como a Organização Mundial do Comércio (OMC_ — enquanto mantém os donos do PIB debaixo de suas asas.

Claro, quando o assunto é a relação da candidatura petista com o andar de cima, nem tudo são flores. No caso da Faria Lima, que também ensaia uma aproximação com Lula, a fala do ex-presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli, que defendeu o aumento do salário mínimo e o controle de capitais, gerou certo alvoroço, além da banca colocar preço no apoio com um novo ajuste fiscal, mas também serviu de alerta para o governo afinar o trabalho em equipe antes que a campanha comece.

Por fim, o tarifaço de Trump ainda cumpriu o papel de dar materialidade ao tema da soberania e do espectro da intervenção estrangeira nas eleições. Mas, ao contrário de se sentir ameaçado, Lula talvez acredite que Trump e Marco Rubio sejam seus melhores cabos eleitorais. 

.O recruta em seu labirinto. Flávio Bolsonaro chega à sua convenção sem vice na chapa, sem conseguir atrair o apoio do União Brasil e do PP — a federação do centrão que optou pela neutralidade — nem do Republicanos, do suposto aliado Tarcísio de Freitas, e sem a confiança do presidente do próprio partido.

Aliás, quando Valdemar afirma que será Jair, e não o candidato Flávio quem escolherá a vice na chapa, também sinaliza que Bolsonarinho é mesmo só um candidato de fachada. O apoio da família também continua sendo crucial para que sua candidatura seja um fracasso.

O irmão Eduardo ganhou o green card americano logo no momento em que é implantado o novo tarifaço no Brasil. Talvez empolgado com o salvo-conduto que ganhou de Trump, Dudu disparou a metralhadora contra o restante da direita, como Ronaldo Caiado e Kim Kataguiri, além da madrasta Michelle.

Ela, por sua vez, também seguiu jogando gasolina na fogueira da campanha do Ceará, onde teve a queda de braço com os enteados. Mas, Flávio também é capaz de afundar sua candidatura por conta própria. Mesmo ensaiando uma trégua tardia com a madrasta, ele repetiu o feito do pai, reunindo embaixadores para repetir a ladainha sobre as urnas eletrônicas, conseguindo apanhar não só do PTcomo de Caiado e Zema.

Mais do que manter a coesão do bolsonarismo, Flávio aposta mesmo em um argumento que justifique as ingerências de Trump sobre o país. Mas, se o discurso soa bem para o tiozão do zap, ao lembrar que a família é afeita ao golpismo, Flávio também afasta a Faria Lima. E tão ruim quanto perder o apoio da turma do dinheiro é a incapacidade de conseguir o voto evangélico, desconfiado com as relações de Flávio com Daniel Vorcaro. A situação, que já era ruim com o episódio Dark Horse, só foi confirmada com a revelação de que o escritório de Flávio emitiu R$ 1,5 milhão em notas para empresas do esquema de Vorcaro, e poderá ficar ainda pior com o aprofundamento da investigação autorizada pelo STF sobre o financiamento do filme.

.Centrãoquistão. Se nas eleições presidenciais a disputa será novamente entre a esquerda e o bolsonarismo, nos governos estaduais é muito provável que o centrão saia fortalecido.

Na região sul, a gaúcha Juliana Brizola é a aliada de Lula com melhores chances entre os candidatos, ainda que numa disputa acirrada com o bolsonarista Tenente Coronel Zucco. O também bolsonarista raiz Jorginho Mello lidera em Santa Catarina, enquanto no Paraná o cenário favorece o bloco conservador, impulsionado pelo espólio político de Ratinho Júnior (PSD), mas em disputa com o reconvertido bolsonarista Sérgio Moro (PL).

Na região Sudeste, maior colégio eleitoral do país, o medo do petismo é que Tarcísio de Freitas vença no primeiro turno, enquanto Eduardo Paes, um aliado de Lula em versão light e ampla, lidera no Rio. Em Minas, o cenário para a sucessão no Palácio Tiradentes permanece pulverizado, mas sob liderança do senador Cleitinho (Republicanos), um aliado menos controlável pelo bolsonarismo, enquanto o PT solucionou a lambança que ele mesmo criou com o lançamento de Patrus Ananias.

A força lulista, obviamente, está no Nordeste, onde o partido demonstra força na Bahia, Piauí e Rio Grande do Norte, com uma eleição difícil no Ceará e apoiado também na força do PSB na região, especialmente Pernambuco, onde Lula tem o apoio de João Campos, mas não enfrenta resistências da atual governadora Raquel Lyra (PSD).

Mas é no Centro-Oeste e na região Norte que o centrão e parte do bolsonarismo têm maior força, liderando ou disputando entre si nos pleitos. O mais próximo que o lulismo tem de apoiador é Omar Aziz (PSD), segundo colocado no Amazonas. 

.Ponto Final: nossas recomendações.

.O plano de Donald Trump para interferir nas eleições dos EUA. Na Pública, James Green mostra os passos de Trump para evitar que os democratas assumam o controle da Câmara. 

.IA chinesa avança e desafia domínio dos EUA. Como a política chinesa de código aberto ameaça a hegemonia norte-americana e a propriedade intelectual privada. No DW.

.China quer reduzir dependência do agronegócio brasileiro: o plano que assusta o Brasil. O 15º Plano Quinquenal chinês tem como meta ampliar a soberania alimentar, o que a longo prazo pode significar menos importações do Brasil. Veja na BBC.

.Com alta de 74% em 16 anos, eleitorado idoso ganha força, mas enfrenta desafio da abstenção. Os idosos representam 23% do eleitorado nacional, mas sua participação política é decrescente. Veja na NP.

.Quem na Academia é contra a Universidade Indígena? Rafael Guerra de Oliveira responde às críticas contra a Universidade Federal Indígena. No Outras Palavras.

.O avanço da extrema direita nas Américas ameaça a Amazônia e reduz as chances de sobrevivência. Na Samaúma, veja o impacto da conjuntura política latino-americana sobre a questão ambiental. 

*Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

Fonte
Brasil de Fato
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