A ciência pela história, episódio 27 – Um prêmio Nobel para o Brasil?

24/07/2026 às 19:130 visualizações
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Jornal da USP

Por Gildo Magalhães, professor sênior do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP

 Publicado: 24/07/2026 às 16:13
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Por que um brasileiro ainda não ganhou um prêmio Nobel?

Bem, antes de uma possível resposta, é notório que o Nobel confere prestígio e dinheiro, mas não é uma garantia absoluta de qualidade do contemplado e de sua obra.

Geralmente há uma boa correlação entre o mérito pessoal e a premiação. No entanto, sendo o processo de escolha uma atividade humana, ela é sujeita a falhas, há fatores internos e externos que intervêm, e dentre estes, elementos de cunho político conseguem em certas ocasiões predominar sobre os demais quesitos.

Um bom exemplo dessa interferência é o próprio Nobel no campo da literatura, o que pode ser constatado na coleção Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura. Em cada um dos livros do período de 1901 a 1970 há uma seção introdutória, Pequena História da Atribuição do Prêmio Nobel, dedicada ao agraciado do ano. São expostos os motivos da premiação, em que entram componentes de pressão de academias literárias, jornais e até governos em favor deste ou daquele candidato, considerando sua nacionalidade, amizades e inimizades, idade, reputação, idiossincrasias, tendências de momento e… sua efetiva capacidade artística.

Assim se explicam as vitórias de escritores por vezes não tão expressivos e a falta de premiação para alguém tão célebre como Tolstói. Não são muito diferentes as circunstâncias que cercam a eleição de membros de academias de letras, de história, de música, de artes plásticas ou, em certas circunstâncias, até mesmo o resultado de concursos públicos.

Talvez como uma reação ao tanto de arbitrário verificado nas premiações do Nobel surgiu a paródia do irreverente e engraçado Prêmio IgNobel, criado em 1991 para pesquisas consideradas inusitadas ou irrelevantes, que parecem não ser sérias, mas que denotam um engajamento com a ciência. Aliás, na História da Ciência, tem ocorrido que descobertas triviais podem por vezes levar a avanços inesperados.

No que se refere aos prêmios Nobel nas três categorias de ciências naturais (física, química, fisiologia ou medicina) não há a mesma exposição histórica dos dilemas para a escolha dos premiados, como aquela mencionada para o Nobel de literatura. Por falta de uma abertura dos arquivos suecos, a constatação de injustiças ou omissões muitas vezes só ocorre posteriormente. Foi o caso do casal Noddack, que chegaram a ser repetidamente indicados pela descoberta do elemento químico rênio, de Lise Meitner pela fissão nuclear ou de Rosalind Franklin pela estrutura do DNA – estas duas últimas cientistas nem sequer foram consideradas nas candidaturas.

Há também exemplos de controvérsias que ficam escondidas do grande público e até mesmo dos cientistas que estão pouco familiarizados com a História da Ciência, como na concessão a Albert Michelson (1852–1931) do Nobel de Física de 1907 “pelos seus instrumentos de precisão óptica e a investigação espectroscópica e metrológica feita com sua ajuda”. A atribuição está correta, porém se costuma divulgar que o prêmio foi dado pelas experiências que comprovaram a velocidade da luz no vácuo como sendo a máxima possível no Universo e constante, independentemente da velocidade do observador ou da fonte emissora, afirmações frequentemente usadas para justificar a teoria da relatividade especial de Albert Einstein. No entanto, Michelson e seu colega Edward Morley (1838–1923) nunca se convenceram dessa propalada constância, admitindo pelo contrário, mesmo depois da premiação, que a existência do éter no pretenso “vácuo” cósmico influenciaria a velocidade da luz.

É controversa também a justificativa contida no Nobel de Física de 1938 dado a Enrico Fermi (1901–1954) pela “demonstração da existência de novos elementos radioativos produzidos pela irradiação neutrônica e pela descoberta de reações nucleares causadas por nêutrons lentos”. Ora, o que a equipe de Fermi logrou de forma notável não foi a descoberta de novos elementos químicos radioativos, mas sim realizar a fissão de núcleos pesados em elementos mais leves não radioativos, uma correção que foi identificada e comunicada imediatamente pela química Ida Noddack em artigo científico antes da premiação, mas negado por Fermi e igualmente por colegas alemães de Ida.

Para os brasileiros, é forçoso relembrar o que ocorreu com o físico César Lattes (1924–2005). Pioneiro na descoberta e investigação dos mésons pi, foi negligenciado quando em 1950 o Nobel foi para Cecil Powell, “pelo desenvolvimento do método fotográfico de estudo dos processos nucleares e suas descobertas sobre os mésons com este método”, façanhas devidas principalmente ao brasileiro. Com a falta de transparência nas premiações, não é possível saber exatamente porque Lattes foi ignorado para o Nobel, embora se possa conjecturar sobre os motivos, talvez inclusive a sua posição política esquerdista em meio à Guerra Fria, ou seu repúdio às teorias da relatividade de Einstein e à cosmologia do Big Bang.

Nesse contexto de injustiça é ainda mais clamoroso o que aconteceu com o médico brasileiro Carlos Chagas (1878–1934).

Chagas tinha estudado a malária e teve atuação pública destacada como sanitarista de 1905 a 1906, quando da construção da represa de Itatinga, no Estado de São Paulo. Obra iniciada a partir de 1903 pela Companhia Docas de Santos, a tubulação que desce da barragem do rio Itatinga na Serra do Mar, vem alimentar as turbinas da Usina Hidrelétrica em Bertioga, a 700 metros mais abaixo. A construção da barragem e das tubulações em meio à mata atlântica cerrada enfrentava, porém, o problema da malária, que vitimava os trabalhadores nas difíceis condições da obra.

A campanha de Chagas consistiu na eliminação das larvas do protozoário Plasmodium, transmitidas pela picada da fêmea do mosquito-prego, e nas providências para proteção das casas dos trabalhadores, isolamento daqueles que apresentassem o parasita da malária no sangue e tratamento dos doentes crônicos e das crianças infectadas. Outra das medidas decisivas adotadas foi a criação de valas nos principais núcleos de habitação para afastar os criadouros do mosquito.

Devido a esses procedimentos, o surto de impaludismo foi debelado, permitindo que a usina fosse inaugurada em 1910. Ainda operando, a mais do que centenária Usina de Itatinga é dos mais importantes marcos históricos da engenharia nacional e serviu não só para a energia das máquinas do porto, no momento em que ia se tornando o principal do país pela exportação de café, mas também para eletrificar inicialmente a própria cidade de Santos.

A experiência em Itatinga converteu Carlos Chagas para a causa do sanitarismo, tornando-se auxiliar de Oswaldo Cruz (1872–1917) no Instituto Soroterápico em Manguinhos, no Rio de Janeiro. Enviado para combater uma epidemia de malária na região do Rio das Velhas em Minas Gerais, que acometia trabalhadores da construção de uma linha ferroviária, sua curiosidade o levou a descobrir a doença tropical parasitária que leva seu nome. Chagas identificou e estudou o principal vetor da transmissão, o inseto de nome popular “barbeiro”. Percebeu então que, ao se alimentar de sangue havia barbeiros contaminados com um protozoário antes desconhecido, o Tryipanosoma cruzi, e que por isto o inseto pode transmitir a doença, em geral debilitante ou mesmo fatal, porque causa cardiopatias, como se revelou mais tarde. O ciclo completo da doença foi descrito por Chagas em 1909.

Em virtude de sua competência e dedicação, Chagas ficou muito próximo de Oswaldo Cruz, e após a morte deste, foi escolhido para substituí-lo como diretor de Manguinhos. Foi então alvo da inveja de colegas médicos no Instituto de Manguinhos e na Academia de Medicina do Rio de Janeiro, que moveram duas campanhas contra Chagas em 1916 e 1922-23, liderados pelo médico e político Afrânio Peixoto (1876–1947).

As acusações seguiram um esquema que visava o descrédito total de Chagas, afirmando que:

• Chagas inventou uma doença que não existia.
• Mesmo se a doença existisse, estaria circunscrita à região de Minas Gerais onde Chagas trabalhara, e limitada a poucas dezenas de casos.
• O verdadeiro descobridor do parasita da doença seria Oswaldo Cruz e não Chagas.

Carlos Chagas conseguiu rebater todas essas acusações durante as duas campanhas contra si, mas não logrou convencer as autoridades de que se tratava de doença grave e de muito maior dimensão do que se pensava. As difamações que sofreu certamente influenciaram o resultado de sua indicação ao Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina.

Ele foi indicado para a honraria em 1913 e em 1921, e uma terceira indicação foi iniciada, mas interrompida por sua morte em 1934. Em especial sobre a indicação de 1921 há indícios de que o Instituto Karolinska da Suécia solicitou a entidades científicas do Brasil dados sobre a vida e a obra de Carlos Chagas, mas recebeu objeções que interferiram – possivelmente feitas por detratores de Chagas –, e o prêmio naquele ano não foi dado a ninguém!

As tentativas de acessar os arquivos do Comitê Nobel sobre a nomeação de Chagas ao prêmio foram infrutíferas. O que resta é a convicção de que, a exemplo do que ocorre na vida universitária, grandes inimigos das descobertas e da inovação podem ser encontrados entre os próprios colegas de trabalho e um dos principais obstáculos à integração e interdisciplinaridade acadêmica é exatamente a política mesquinha de certos grupos, avessa a discussões e controvérsias, mas que deseja reservar para si a glória do renome.

A estimativa atual é que muitos milhões de pessoas nas Américas e até na Europa e Ásia sofrem com a doença de Chagas. A relativa invisibilidade da doença durante tanto tempo pode ser devida a afligir majoritariamente as populações mais pobres, mas as emigrações têm tornado o mal preocupante em nível mundial. Graças ao sanitarista Carlos Chagas essa moléstia começou a poder ser estudada, embora não pareça até agora ter motivado suficientemente a pesquisa para uma vacina eficaz.

Sabemos que a produção científica em ciências naturais e humanas no Brasil vem se destacando cada vez mais no panorama internacional. Talvez chegue um dia em que algum indivíduo de nosso país possa ostentar algum prêmio Nobel, oxalá com mérito pela obra, como teria sido nos casos de Lattes e Chagas. Até lá, podemos meditar no alcance de uma frase dita por um personagem de Shakespeare, em Henrique VIII:

As maldades humanas ficam inscritas em bronze,
Mas suas virtudes escrevemos com água.

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