
A combinação entre a degradação ambiental, as mudanças climáticas e o histórico subfinanciamento da ciência eleva significativamente o risco de novas pandemias no Brasil e no mundo. Além de favorecer o surgimento de novos patógenos, esse cenário compromete a capacidade de resposta dos sistemas de vigilância e pesquisa.
Vírus com maior potencial pandêmico

De acordo com o professor Paulo Eduardo Brandão, do departamento de Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP, os vírus para os quais a população ainda não possui imunidade ou vacinas disponíveis representam o maior risco de provocar surtos e pandemias.
Segundo o especialista, o vírus da influenza, responsável pela gripe, continua entre as maiores preocupações da comunidade científica devido à sua elevada capacidade de mutação. Outro exemplo é o coronavírus, família de vírus que causa infecções respiratórias e foi responsável pela pandemia de covid-19.
Brandão também destaca o vírus Nipah, classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma das principais ameaças epidêmicas. Os surtos ocorrem principalmente na Índia e em Bangladesh, e ainda não existem vacinas ou tratamentos específicos para a doença. Outro agente de preocupação é o H5N1, subtipo altamente patogênico do vírus influenza A, causador da gripe aviária.
Degradação ambiental favorece o surgimento de novas doenças
A destruição dos ecossistemas e as mudanças climáticas alteram o habitat e o comportamento de diversas espécies, forçando a migração de animais silvestres e aumentando o contato com populações humanas. Esse processo cria condições favoráveis para a transmissão de vírus entre espécies, especialmente em regiões tropicais e com menor nível de desenvolvimento.
Nesse contexto, Paulo Eduardo Brandão explica o conceito de spillover, traduzido por ele como “esparramamento” ou “salto” do vírus. O fenômeno ocorre quando um microrganismo deixa seu hospedeiro animal natural e passa a infectar uma nova espécie, como a humana. Estima-se que cerca de 73% das doenças infecciosas emergentes tenham origem nesse processo.
Investimento em ciência é essencial para reduzir riscos
Para o pesquisador, o Brasil permanecerá vulnerável a novas pandemias enquanto não ampliar os investimentos em ciência e infraestrutura de pesquisa. Entre as prioridades estão o fortalecimento da vigilância genômica, a ampliação da capacidade de monitoramento de patógenos e a construção de laboratórios de máxima biossegurança.
O professor ressalta que enfrentar o risco de futuras pandemias exige uma estratégia integrada, baseada tanto na preservação ambiental quanto no fortalecimento da pesquisa científica. Segundo ele, proteger as florestas e investir em ciência não representam apenas despesas, mas medidas fundamentais para garantir a saúde pública, a segurança sanitária e a estabilidade econômica.
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