Livro da Editora da USP revive “Moema”, de Victor Meirelles

Por Nina Nassar*24/07/2026 às 17:261 visualizações
A pintura Moema (1866), de Victor Meirelles
A pintura Moema (1866), de Victor Meirelles
Jornal da USP

Livro da Editora da USP revive Moema, de Victor Meirelles

Obra do crítico Alex Miyoshi traz longa análise sobre o contexto, o significado e as interpretações provocadas por uma das pinturas mais marcantes da arte brasileira do século 19

 Publicado: 24/07/2026 às 14:26

Texto: Nina Nassar*

Arte: Heloisa Falaschi**

A pintura Moema (1866), de Victor Meirelles
A pintura Moema (1866), de Victor Meirelles
A pintura Moema (1866), de Victor Meirelles

Livro da Editora da USP revive
Moema, de Victor Meirelles

Obra do crítico Alex Miyoshi traz longa análise sobre o contexto, o significado
e as interpretações provocadas por uma das pinturas mais marcantes da arte brasileira do século 19

 Publicado: 24/07/2026 às 14:26

Texto: Nina Nassar*

Arte: Heloisa Falaschi**

A pintura Moema (1866), de Victor Meirelles – Foto: Reprodução/livro Moema

Moema está, realmente, morta? A tela de Victor Meirelles (1832–1903), exposta pela primeira vez em 1866 na Academia Imperial de Belas Artes sob discreta repercussão inicial, retrata a tragédia da indígena encontrada afogada da epopeia Caramuru, do poeta mineiro Santa Rita Durão (1722–1784). Desde então, eternizou-se profundamente viva no imaginário artístico brasileiro e, até hoje, a figura retratada impõe-se para interpretações, ainda despertando novos olhares e leituras. Moema, de Alex Miyoshi – crítico e historiador da arte e pós-doutor pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP -, representa o sétimo volume da coleção Prismas, da Editora da USP (Edusp). Coordenada pelo professor Jorge Coli, a coleção propõe uma análise complexa acerca de uma única obra de arte em cada volume, na intenção de proporcionar ao leitor um diálogo educativo e histórico que valorize o patrimônio artístico brasileiro. Inspirada no canto O Afogamento de Moema, presente em Caramuru, a pintura de Victor Meirelles permite que o autor do novo volume de Prismas caminhe entre suas diversas faces: o contexto de sua produção e recepção, o retrato dos corpos e da nudez no período, as diferentes versões da personagem em criações culturais e interpretações da obra em relação ao lugar entregue à mulher indígena na arte.

A releitura de Meirelles de Caramuru

A releitura de Meirelles de Caramuru

Apesar de Santa Rita Durão ser referência da literatura colonial e árcade brasileira, seu canto em Caramuru, de 1781, antecipou características do Romantismo indianista no Brasil, movimento voltado para a construção do indígena e da natureza como símbolos da identidade nacional. A epopeia conta a tragédia da indígena Moema, que morre no mar tentando alcançar a nado o navio no qual seu amante, Diogo, parte com a esposa Paraguaçu. O poema celebra a colonização e a conversão dos povos nativos ao catolicismo, e a partida de Diogo com Paraguaçu representa o triunfo dos valores ocidentais cristãos. A personagem Moema, por outro lado, concentra a ambígua representação da “natureza selvagem”, romântica, indomável e rebelde, ao mesmo tempo frágil e irracional. O arrebatamento de Moema simboliza o destino dos indígenas que resistiram ou que não se adequaram ao projeto colonizador da dominação religiosa europeia.

No quadro – atualmente parte do acervo do Museu de Arte de São Paulo (Masp) -, o exagero do poema dá lugar à contenção, demonstrando certo cuidado com doutrinas do catolicismo da época. A obra não é, por si só, de intenções religiosas, no entanto, se comparada à Primeira Missa do Brasil, também de Meirelles, notam-se, nesta, cores azuladas, como a representação de uma nação abençoada pela Igreja, em contraste com Moema, de dimensão trágica e tom avermelhado. “Seguindo a fábula épica de Caramuru, podemos inferir que não há outro destino para uma indígena que rejeita a fé católica senão a morte”, interpreta Miyoshi. 

Outra releitura da personagem Moema, atribuída a Pedro Américo -
Outra releitura da personagem Moema, atribuída a Pedro Américo - — Pedro Américo/Wikimedia Commons
Outra releitura da personagem Moema, atribuída a Pedro Américo - Foto: Pedro Américo/Wikimedia Commons
Outra releitura da personagem Moema, atribuída a Pedro Américo -
Outra releitura da personagem Moema, atribuída a Pedro Américo - — Pedro Américo/Wikimedia Commons
Outra releitura da personagem Moema, atribuída a Pedro Américo - Foto: Pedro Américo/Wikimedia Commons

Outro elemento de forte presença no quadro que não existe nos versos de Durão é o agrupamento de indígenas ao fundo – justamente o que traz à imagem uma narrativa não estática, evocando um horror antecipatório daquela aldeia prestes a encontrar o corpo na praia. “Ao homogeneizar o quadro de forma tênue e desvelar a narrativa aos poucos, o artista convida os olhos a vagar pela pintura”, escreve Miyoshi, sobre a linguagem literária presente na imagem, que aproxima o observador da mulher sacrificada e o distancia do grupo ao fundo, imprimindo um tom dramático à narrativa e um alento piedoso às personagens. O autor compara, até, o coro celestial do poema, que representa a conversão dos indígenas ao catolicismo e que ecoa na pintura, a um coro de ópera, considerando o exotismo imaginário e teatral. Ele escreve que o único rosto identificável da tela é o de um homem de cocar, assombrado como quem percebe a tragédia antes dos demais, e que é, provavelmente, Xerenimbó, o pai de Moema. “Durão optou por não cantar os sentimentos da aldeia diante da perda; Meirelles concedeu-lhes a chance do reencontro”, completa.

As influências do quadro e o retrato da mulher indígena nua

As influências do quadro e o retrato da mulher indígena nua

No livro da Coleção Prismas, Miyoshi sustenta que as referências para Moema saíram mais de outras referências artísticas do que da literatura, por si só. O retrato da mulher solitária, adormecida ou morta na natureza, desde meados do século 18, transformou-se em uma figura recorrente, primeiro de forma bucólica no Arcadismo, depois, como tragédia sentimental no movimento romântico. O escritor estadunidense Edgar Allan Poe, autor de O Corvo, relata que essas pinturas se tornaram tão dignificadas quanto santidades porque, de todos os temas melancólicos, o mais poético seria a Morte aliada à ideia de Beleza, contado sob os olhos de quem sofreu essa perda. Alex Miyoshi explica que havia certa perversidade nesse gosto do período pela experimentação simultânea do exótico e do erótico: os artistas passaram a aproveitar da popularidade do romantismo para representar as mulheres em seu “último estágio da sensualidade passiva com total impunidade”, como disse o crítico Bram Dijkstra, citado no livro. 

O autor, então, faz uma série de comparações com outras criações artísticas semelhantes, como A Jovem Mártir, de Paul Delaroche, A Morte de Ofélia, de Eugene Delacroix, e Virgínia, de Bernardin de Saint-Pierre. Ele encontra um ponto que difere Moema de todas elas: enquanto as obras europeias trazem mulheres brancas retratadas quase totalmente vestidas ou com parcial nudez como santas renascentistas, a Moema de Victor Meirelles assume a forma de uma mulher indígena completamente despida. 

"Ophelia", de John Everett Millais, de 1852, retrata a personagem de Shakespeare de forma angelical e totalmente vestida -
"Ophelia", de John Everett Millais, de 1852, retrata a personagem de Shakespeare de forma angelical e totalmente vestida - — Reprodução/livro "Moema"
"Ophelia", de John Everett Millais, de 1852, retrata a personagem de Shakespeare de forma angelical e totalmente vestida - Foto: Reprodução/livro "Moema"

O retrato da mulher indígena nua e as compreensões de Moema

O retrato da mulher indígena nua e as compreensões de Moema

Após Moema, Meirelles deixou os nus de lado em sua carreira, da mesma forma que fizeram Manet e Courbet, depois de obras de sucesso. Sobre esse pudor adotado em seu olhar, Miyoshi considera que o que sempre esteve em jogo em Moema era, mais do que a beleza física, a beleza moral. Essa ideia se reforça pela análise do esboço a lápis antes da versão final do quadro por Meirelles, na qual a indígena era pintada de bruços, olhando para o mar, com certa deformação do corpo advinda de uma possível tentativa dele de trabalhar a nudez ao mesmo tempo em que se esforça para ocultá-la. 

Estudo a lápis de Victor Meirelles, antes da versão final de "Moema" -
Estudo a lápis de Victor Meirelles, antes da versão final de "Moema" - — Victor Meirelles /Wikimedia Commons
Estudo a lápis de Victor Meirelles, antes da versão final de "Moema" - Foto: Victor Meirelles /Wikimedia Commons

A principal tese defendida por Alex Miyoshi trabalha com a ideia de que nunca é dito explicitamente, nem no poema nem na pintura, que Moema de fato morreu – a tragédia e a dramaticidade das obras não se concentra ou resume na Morte em si, destino este que foi historicamente construído por críticas e comentários, assim como a alegoria da personagem como símbolo do País. Na pintura, “tanto o corpo de Moema quanto a paisagem evocam a ideia de exaustão, sugerindo a ruína de um projeto de nação”, escreve Miyoshi. Assim se explicariam a repercussão discreta do quadro e o incômodo político e moral do Império e da República em adquirir a obra. Para o autor, com a facilidade do acesso à obra de Meirelles – que pode ser vista no Masp -, narrativas e imaginários em torno da pintura agora podem ser revisitados e aprofundados a partir, também, das leituras e interpretações de povos originários. “Moema, afinal, não está morta.”

Moema, de Alex Miyoshi, Coleção Prismas, Editora da USP (Edusp), 197 páginas, R$ 90,00

* Estagiária sob supervisão de Marcello Rollemberg e Roberto C. G. Castro

** Estagiária sob supervisão de Simone Gomes

"Moema", em exposição no Museu de Arte de São Paulo (Masp) -
"Moema", em exposição no Museu de Arte de São Paulo (Masp) - — Reprodução/Livro "Moema"
"Moema", em exposição no Museu de Arte de São Paulo (Masp) - Foto: Reprodução/Livro "Moema"

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