Livro da Editora da USP revive Moema, de Victor Meirelles
Obra do crítico Alex Miyoshi traz longa análise sobre o contexto, o significado e as interpretações provocadas por uma das pinturas mais marcantes da arte brasileira do século 19

Livro da Editora da USP revive
Moema, de Victor Meirelles
Obra do crítico Alex Miyoshi traz longa análise sobre o contexto, o significado
e as interpretações provocadas por uma das pinturas mais marcantes da arte brasileira do século 19
A pintura Moema (1866), de Victor Meirelles – Foto: Reprodução/livro Moema
Moema está, realmente, morta? A tela de Victor Meirelles (1832–1903), exposta pela primeira vez em 1866 na Academia Imperial de Belas Artes sob discreta repercussão inicial, retrata a tragédia da indígena encontrada afogada da epopeia Caramuru, do poeta mineiro Santa Rita Durão (1722–1784). Desde então, eternizou-se profundamente viva no imaginário artístico brasileiro e, até hoje, a figura retratada impõe-se para interpretações, ainda despertando novos olhares e leituras. Moema, de Alex Miyoshi – crítico e historiador da arte e pós-doutor pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP -, representa o sétimo volume da coleção Prismas, da Editora da USP (Edusp). Coordenada pelo professor Jorge Coli, a coleção propõe uma análise complexa acerca de uma única obra de arte em cada volume, na intenção de proporcionar ao leitor um diálogo educativo e histórico que valorize o patrimônio artístico brasileiro. Inspirada no canto O Afogamento de Moema, presente em Caramuru, a pintura de Victor Meirelles permite que o autor do novo volume de Prismas caminhe entre suas diversas faces: o contexto de sua produção e recepção, o retrato dos corpos e da nudez no período, as diferentes versões da personagem em criações culturais e interpretações da obra em relação ao lugar entregue à mulher indígena na arte.
A releitura de Meirelles de Caramuru
A releitura de Meirelles de Caramuru
Apesar de Santa Rita Durão ser referência da literatura colonial e árcade brasileira, seu canto em Caramuru, de 1781, antecipou características do Romantismo indianista no Brasil, movimento voltado para a construção do indígena e da natureza como símbolos da identidade nacional. A epopeia conta a tragédia da indígena Moema, que morre no mar tentando alcançar a nado o navio no qual seu amante, Diogo, parte com a esposa Paraguaçu. O poema celebra a colonização e a conversão dos povos nativos ao catolicismo, e a partida de Diogo com Paraguaçu representa o triunfo dos valores ocidentais cristãos. A personagem Moema, por outro lado, concentra a ambígua representação da “natureza selvagem”, romântica, indomável e rebelde, ao mesmo tempo frágil e irracional. O arrebatamento de Moema simboliza o destino dos indígenas que resistiram ou que não se adequaram ao projeto colonizador da dominação religiosa europeia.
No quadro – atualmente parte do acervo do Museu de Arte de São Paulo (Masp) -, o exagero do poema dá lugar à contenção, demonstrando certo cuidado com doutrinas do catolicismo da época. A obra não é, por si só, de intenções religiosas, no entanto, se comparada à Primeira Missa do Brasil, também de Meirelles, notam-se, nesta, cores azuladas, como a representação de uma nação abençoada pela Igreja, em contraste com Moema, de dimensão trágica e tom avermelhado. “Seguindo a fábula épica de Caramuru, podemos inferir que não há outro destino para uma indígena que rejeita a fé católica senão a morte”, interpreta Miyoshi.


Outro elemento de forte presença no quadro que não existe nos versos de Durão é o agrupamento de indígenas ao fundo – justamente o que traz à imagem uma narrativa não estática, evocando um horror antecipatório daquela aldeia prestes a encontrar o corpo na praia. “Ao homogeneizar o quadro de forma tênue e desvelar a narrativa aos poucos, o artista convida os olhos a vagar pela pintura”, escreve Miyoshi, sobre a linguagem literária presente na imagem, que aproxima o observador da mulher sacrificada e o distancia do grupo ao fundo, imprimindo um tom dramático à narrativa e um alento piedoso às personagens. O autor compara, até, o coro celestial do poema, que representa a conversão dos indígenas ao catolicismo e que ecoa na pintura, a um coro de ópera, considerando o exotismo imaginário e teatral. Ele escreve que o único rosto identificável da tela é o de um homem de cocar, assombrado como quem percebe a tragédia antes dos demais, e que é, provavelmente, Xerenimbó, o pai de Moema. “Durão optou por não cantar os sentimentos da aldeia diante da perda; Meirelles concedeu-lhes a chance do reencontro”, completa.
As influências do quadro e o retrato da mulher indígena nua
As influências do quadro e o retrato da mulher indígena nua
No livro da Coleção Prismas, Miyoshi sustenta que as referências para Moema saíram mais de outras referências artísticas do que da literatura, por si só. O retrato da mulher solitária, adormecida ou morta na natureza, desde meados do século 18, transformou-se em uma figura recorrente, primeiro de forma bucólica no Arcadismo, depois, como tragédia sentimental no movimento romântico. O escritor estadunidense Edgar Allan Poe, autor de O Corvo, relata que essas pinturas se tornaram tão dignificadas quanto santidades porque, de todos os temas melancólicos, o mais poético seria a Morte aliada à ideia de Beleza, contado sob os olhos de quem sofreu essa perda. Alex Miyoshi explica que havia certa perversidade nesse gosto do período pela experimentação simultânea do exótico e do erótico: os artistas passaram a aproveitar da popularidade do romantismo para representar as mulheres em seu “último estágio da sensualidade passiva com total impunidade”, como disse o crítico Bram Dijkstra, citado no livro.
O autor, então, faz uma série de comparações com outras criações artísticas semelhantes, como A Jovem Mártir, de Paul Delaroche, A Morte de Ofélia, de Eugene Delacroix, e Virgínia, de Bernardin de Saint-Pierre. Ele encontra um ponto que difere Moema de todas elas: enquanto as obras europeias trazem mulheres brancas retratadas quase totalmente vestidas ou com parcial nudez como santas renascentistas, a Moema de Victor Meirelles assume a forma de uma mulher indígena completamente despida.

O retrato da mulher indígena nua e as compreensões de Moema
O retrato da mulher indígena nua e as compreensões de Moema
Após Moema, Meirelles deixou os nus de lado em sua carreira, da mesma forma que fizeram Manet e Courbet, depois de obras de sucesso. Sobre esse pudor adotado em seu olhar, Miyoshi considera que o que sempre esteve em jogo em Moema era, mais do que a beleza física, a beleza moral. Essa ideia se reforça pela análise do esboço a lápis antes da versão final do quadro por Meirelles, na qual a indígena era pintada de bruços, olhando para o mar, com certa deformação do corpo advinda de uma possível tentativa dele de trabalhar a nudez ao mesmo tempo em que se esforça para ocultá-la.

A principal tese defendida por Alex Miyoshi trabalha com a ideia de que nunca é dito explicitamente, nem no poema nem na pintura, que Moema de fato morreu – a tragédia e a dramaticidade das obras não se concentra ou resume na Morte em si, destino este que foi historicamente construído por críticas e comentários, assim como a alegoria da personagem como símbolo do País. Na pintura, “tanto o corpo de Moema quanto a paisagem evocam a ideia de exaustão, sugerindo a ruína de um projeto de nação”, escreve Miyoshi. Assim se explicariam a repercussão discreta do quadro e o incômodo político e moral do Império e da República em adquirir a obra. Para o autor, com a facilidade do acesso à obra de Meirelles – que pode ser vista no Masp -, narrativas e imaginários em torno da pintura agora podem ser revisitados e aprofundados a partir, também, das leituras e interpretações de povos originários. “Moema, afinal, não está morta.”
Moema, de Alex Miyoshi, Coleção Prismas, Editora da USP (Edusp), 197 páginas, R$ 90,00
* Estagiária sob supervisão de Marcello Rollemberg e Roberto C. G. Castro
** Estagiária sob supervisão de Simone Gomes


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