A carência de profissionais com formação especializada é uma das razões pelas quais o Brasil não pode avançar neste segmento como um desenvolvedor na linha das empresas acima mencionadas. Mas temos que tomar muito cuidado, por que a carência de profissionais também poderá nos impedir de nos tornarmos grandes usuários de IA. Quase todas profissões já estão sendo empoderadas por essa tecnologia. Médicos, advogados, jornalistas, engenheiros, professores e praticamente todos profissionais ficarão completamente obsoletos se não tiverem sua formação complementada para que consigam usar e aplicar a inteligência artificial.
Além de saber usar IA, existem outras partes da cadeia de valores nas quais também podemos nos dar bem. São os segmentos ligados à infraestrutura.
A IA demanda centros de processamento de informação – datacenters – com capacidades e velocidades enormes. Ou seja, a revolução da inteligência artificial não é apenas digital mas é também de infraestrutura adequada. Os datacenters demandam não apenas hardware e software, mas também eletricidade, sistemas de comunicação e refrigeração. São áreas nas quais temos vantagens competitivas e, em alguns aspectos, estamos em situação melhor que a maioria dos países.
Já temos um parque significativo de datacenters, por que somos sede de empresas muito grandes, brasileiras ou multinacionais. Esta é uma enorme vantagem competitiva que possuímos principalmente numa época em que cresce a preocupação com o aquecimento do planeta. Ou seja, o Brasil poderá atrair empresas do mundo inteiro que queiram usar eletricidade obtida por fontes limpas, como água, sol e vento, que possuímos em abundância.
No entanto há sinais preocupantes. Basta ver o que aconteceu com o Redata. Esta era a sigla do Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, uma medida provisória (MP) que foi enviada pelo governo ao Congresso em setembro de 2025. Ela previa incentivos fiscais para instalação e expansão de datacenters de acordo com que o País necessita neste momento. Mas por ser uma MP, ela precisava ter sido aprovada em seis meses – coisa que não aconteceu. Por isso teve que ser retirada e não está mais nem em discussão. Este fato preocupa, pois outros países que são nossos competidores nessa área de infraestrutura estão avançando rapidamente na implantação de legislações mais favoráveis para atrair os datacenters.
Com isso ficamos num vácuo muito perigoso, pois cessaram as discussões de medidas importantes que já poderiam estar atraindo empresas internacionais. Sinalizamos para os investidores que o Brasil ainda não acordou para o tema. Além disso, as próprias empresas brasileiras, que também precisariam de incentivos para investir em melhorias e aperfeiçoamentos em seus parques atuais, acabam desmobilizadas.
Há uma frase famosa usada por economistas irônicos, mas que não podemos permitir que se mostre novamente verdadeira: “O Brasil nunca perde uma oportunidade de perder oportunidades”.
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