Por Luciano Mendes
Eu não acredito em destino, nem manifesto nem oculto, a dirigir a vida das pessoas, ainda que eu saiba que há constrangimentos muitos a que todas as pessoas e cada uma delas estão sujeitas, e sobre os quais nenhum governo têm – nascer menino ou menina, no Brasil, no Japão ou no Zaire, aparecer numa família rica ou pobre, negra, branca ou indígena… – e que marcam sua vida do nascer ao morrer. Mas, a partir daí, tudo é agência e história, inclusive o próprio corpo e tudo que ele nos possibilita ou impossibilita, as sensibilidades, os modos de pensar, os gostos, os gestos e os afetos.
Eu ando pensando nisso a propósito de vastas emoções e pensamentos imperfeitos, para lembrar o grande Rubem Fonseca, que me invadiram por estes dias ao pensar na conjuntura brasileira atual. Nela, tudo, ou quase tudo, nos leva a crer, com outro grande, o Nelson Rodrigues, que “a humanidade não deu certo” mesmo.
Não se trata apenas das ações dos traidores da pátria articulando num país estrangeiro para prejudicar a população inteira do país que eles dizem amar acima de tudo e de todos, mas abaixo de seus deuses. Não, é no cotidiano vívido mesmo, em nosso dia-a-dia na feira, na rua, no trânsito, na praia, nas montanhas, cidades e campos, nos cabarés e congressos brasilienses, que a assertiva no dramaturgo carioca mais parece fazer sentido.
E não há dia em que os meios de comunicação e as redes sociais deixem de nos provar isto com tanta certeza quanto dois mais dois são quatro, ou que o sol nascerá amanhã. E o pior, é como se nosso destino, manifesto e oculto, fosse este mesmo: não dar certo!
Uma das muitas formas como este destino se realiza é a nossa naturalização das nossas atitudes e dos nossos sentimentos em relação às outras pessoas; ou mesmo, às formas como somos injustiçados pelas nossas instituições públicas, as quais deveriam nos respeitar e nos proteger. Também perante o Estado e instituições privadas são, antes de tudo, suspeitos.
Suspeitamos das outras pessoas, de seu compromisso com a causa ou com o trabalho, de suas formas de pensar, de suas presenças, de seus cheiros, de seus gostos. Por sua vez, nossas instituições suspeitam de nós, de nosso porte (mas não de armas!), de nosso modo de andar, de vestir, de nossa cor, de nossos cabelos, de nossa origem, como se fôssemos ervas daninhas. Este clima de suspeição sobre tudo e sobre todos, me faz lembrar a música Polícia, bandido, cachorro, dentista, do Sérgio Sampaio, imortalizada por Vander Lee e Mariana Nunes, em que se canta, inocentemente:
Eu tenho medo de polícia, de bandido, de cachorro e de dentista/Porque polícia quando chega vai batendo em quem não tem nada com isso/Porque bandido quase sempre quando atira não acerta no que mira/Porque cachorro quando ataca pode às vezes atacar o seu amigo/Porque dentista policia minha boca como se fosse bandido/Porque bandido age sempre às escuras como se fosse cachorro/Porque cachorro não distingue o inimigo como se fosse polícia/Porque polícia bandideia minha boca como se fosse dentista.
Nos tempos atuais, do fogão ao teclado, das redes sociais à cama, tem sido muito difícil encontrar razões e filosofias para acreditar e mobilizar contra este estado de suspeição generalizada e naturalizada. Nem mesmo o conforto na inocência ou da sabedoria dos mais pobres, do povo do campo ou da cidade, parece não haver mais.
A indústria do medo e da suspeição age tão intensamente que realmente parece que a humanidade não deu certo. Tristeza, lamento, medo, recolhimento… e dá-lhe, dá-nos, cada vez mais atrocidades e violências múltiplas em nome da segurança e do bem estar, estas coisas que aqui nunca chegaram desde que descobriram nossas riquezas e cobriram os nosso corpos, de roupa, vergonha, culpa e pecado.
Eu, pessoalmente, quando me recolho e tento sustentar acessas as chamas da esperança, a alegria e a ansiedade dos encontros com pessoas mil, a saída tem sido desnaturalizar as práticas e políticas de proteção e cuidados com às pessoas mais vulneráveis, de construção de situações de bem estar coletivo, de cuidado com as populações humanas e não humanas que habitam o planeta. Nada disso também é natural, e tem sido construído e sustentado por pessoas que são opostas àquilo que a indústria do medo e a tradição da suspeição tem nos feito crer.
Lembro sempre, para não esquecer, o que a minha sábia mãe sempre diz: “o número de pessoas boas no mundo é muito maior do que aquele das pessoas ruins; se não, estaria tudo muito pior”. É uma outra filosofia, é um outro modo de pensar e agir, que me traz o bem estar de não precisar de suspeitar antes mesmo de conhecer, que me faz crer – é, talvez seja isto, uma crença mesmo – que a humanidade pode, sim, ainda dar certo, apesar dos demônios, maldades e perversidades que, humanamente, nos habitam.
As questões relativas ao medo, à insegurança e à suspeição, não são naturais, como já se disse acima. São produzidas e potencializadas pelas indústrias que lucram com elas. Logo, também não são sentimentos e comportamentos individuais, ainda que se realizem cotidianamente em cada um de nós. A tristeza e o medo são péssimos conselheiros políticos, e é por isto também que fazem tudo parecer cinzento. Parece um tempo de loucura, recolhimento e espera do fim ou um salvador, nos fazendo lembrar a música do Lenine: “Enquanto todo mundo espera a cura do mal/E a loucura finge que isso tudo é normal.”
Não é, portanto, apenas com boas filosofias e memórias que podemos combater, política e pessoalmente, o desespero e o sem sentido, ainda que aquelas sejam absolutamente necessárias. É com alegria e festa, com encontros, abraços e sorrisos, é com menos tela e com mais rua, parques e praças, é com menos mãos limpas e mais cascas de machucados, como nos recordava, outro dia, o Eugênio Tadeu.
Boas filosóficas, complexas teorias e boas ideologias só caminham em direção à inéditos viáveis, à política portanto, se encontram corpos sensíveis, vibrantes e alegres a festejar, nos encontros e pelos encontros e pelo desejo de bem estar.
É justamente disso que os arautos do medo e da desgraça têm enorme medo; é por isto que é neste terreno que se trava uma batalha decisiva não apenas pela sobrevivência imediata de bilhões de pessoas, mas pela vida de nossa própria casa materna, o planeta Terra e de todas as populações humanas e não humanas que nela habitam.
Luciano Mendes de Faria Filho é pedagogo, doutor em Educação e professor titular da UFMG. Publicou, dentre outros, “Uma brasiliana para a América Hispânica – a editora Fondo de Cultura Econômica e a intelectualidade brasileira” (Paco Editorial, 2021)
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Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal
