Há dez anos, Verônica Oliveira fez uma postagem nas redes sociais: a imagem da atriz Uma Thurman em “Kill Bill”, de Quentin Tarantino. Substituiu o rosto da atriz pelo seu e, no lugar da espada, uma vassoura. Adicionou os dizeres: “Faço faxina” e o contato telefônico. O post viralizou.
“Foi uma forma leve e diferente para divulgar um trabalho tão desconsiderado pelas pessoas”, conta a hoje ex-faxineira e dona do perfil badalado Faxina Boa ao BdF Entrevista. A abordagem permitiu que ela transformasse a própria realidade e a de seus seguidores, promovendo o respeito por uma categoria que, em suas palavras, muitas vezes é tratada sem identidade: “A gente não tem nome.”
Hoje, ela usa a rede social, com quase 300 mil seguidores, para refletir sobre as condições de trabalho e os direitos das trabalhadoras domésticas. Sua biografia no perfil diz: “ex-faxineira de casas, hoje faxino ideias”.
Oliveira destaca que o preconceito contra as trabalhadoras domésticas se manifesta por meio de estereótipos rígidos que ela busca quebrar e que, inclusive, tiram a “humanidade de quem presta esse tipo de serviço”. Ela aponta que existe um imaginário popular do que a profissional deve ser e, quando alguém foge desse padrão, causa espanto.
“Eu acho que esse foi o grande primeiro insight que eu tive trabalhando com limpeza. As pessoas imediatamente falavam: ‘Nossa, você não tem cara de faxineira.’ Então existe um imaginário popular de que é uma senhorinha sem instrução, que anda com uma sacolinha de supermercado a tiracolo. E não é nem de longe. A coisa que me pegou muito, foi uma vez que, porque eu escuto punk rock, falaram: ‘Isso não é música de faxineira.’ Gente! O que é uma música de faxineira?”, questiona.
O cotidiano da profissão, conforme descrito por Verônica, é marcado por “pequenas violências” que muitas vezes passam despercebidas. Ela narra situações como ter que levar sua própria água para o trabalho ou ser impedida de usar utensílios básicos da casa.
“Eu não sabia com quem eu ia lidar, então eu já acostumava a congelar ali uma garrafinha para ter a água gelada ao longo do dia. Por exemplo, eu cheguei com a água sem estar congelada e aí a moça falou assim: ‘Minhas coisas são minhas coisas’, para justificar que eu não poderia colocar a garrafa dentro da geladeira. Aconteceu de me servir uma bolacha para que eu não usasse nem prato, nem talher da casa. Com o tempo, fui aprendendo a contornar essas situações, mas, no primeiro momento, elas são muito dolorosas. Então, você pode limpar, mas não pode usar; você pode fazer as coisas, mas não pode beber água. Acontecem situações que, para mim, até hoje, são muito surreais”, revela.
Atualmente, Verônica Oliveira dedica-se inteiramente à criação de conteúdo e palestras, mantendo uma postura ética rigorosa ao recusar publicidades de casas de aposta, que prejudicam a classe trabalhadora. “Eu não quero ser a responsável por fazer essa pessoa não ganhar nada e ainda deixar de pagar a água e a luz dela. Ao mesmo tempo, quando alguém me oferece meio ano de postagens por meio milhão de reais, me dói, porque eu moro numa casa que meu telhado está caindo. E, quando chove, chove dentro da minha casa. E eu poderia ter resolvido esse perrengue do telhado com o dinheiro da publicidade de apostas. Mas eu optei por não fazer”, conta Verônica Oliveira.
A influenciadora também fala sobre o debate do fim da escala 6×1, a importância da luta por direitos e critica discursos que romantizam o esforço excessivo sem contrapartida de dignidade. “Pensar nos outros é tão importante quanto pensar em si próprio”, resume.
Verônica Oliveira também conta que, uma vez, ouviu de uma pessoa que “outras faxineiras deveriam se esforçar e ser como ela”, que hoje não precisa mais fazer serviços domésticos e se tornou uma referência, inclusive política, para o setor. E ela refutou, porque é justamente esse o discurso base para a meritocracia. “Tenho colegas faxineiras que trabalham muito e não conseguem juntar grana para viajar. E não é fazer turismo, é para visitar parentes. É preciso destruir esse discurso de que, se você se esforçar, tudo vai dar certo”, ressalta.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
