Venezuelanos protestam em Caracas contra presença de Israel e dos Estados Unidos no país

Por Leonardo Fernandes24/07/2026 às 23:181 visualizações
Manifestantes queimaram bandeiras de Estados Unidos e Israel durante protesto em Caracas, nesta sexta-feira, 24 de julho.
Manifestantes queimaram bandeiras de Estados Unidos e Israel durante protesto em Caracas, nesta sexta-feira, 24 de julho.
Brasil de Fato

Organizações políticas e movimentos populares realizaram um ato na tarde desta sexta-feira (24) na Praça Bolívar, em Caracas, contra a interferência dos Estados Unidos e a presença de funcionários de Israel no país após o duplo terremoto que atingiu o centro-norte do país no dia 24 d ejunho. A mobilização ocorreu durante o feriado nacional que celebra o nascimento de Simón Bolívar, o libertador e primeiro presidente da nação.

Os manifestantes criticam a aproximação entre o governo interino de Delcy Rodríguez e o Estado de Israel, que enviou uma missão técnica de 30 especialistas para atuar na reconstrução do país após o duplo terremoto ocorrido no fim de junho. A Venezuela mantinha relações diplomáticas rompidas com Israel desde 2009, quando o então presidente Hugo Chávez cortou os laços em solidariedade ao povo palestino após ataques militares na Faixa de Gaza.

Rafael Uzcátegui, dirigente do Partido Pátria Para Todos (PPT), afirmou que o ato é uma demonstração de que há resistência de setores políticos relevantes do país à ocupação imperialista e à “capitulação”. 

“Hoje, 24 de julho, dia do nascimento do libertador Simón Bolívar, a um quarteirão de sua casa, estamos aqui comemorando seu nascimento e ratificando o que ele preconizou quando assinalou que ‘os Estados Unidos estavam destinados pela providência a encher de miséria e fome em nome da liberdade’. Hoje estamos assinalando: Venezuela sim, Trump não. Venezuela sim, yankees não. Nós nos negamos à capitulação”.

Por sua vez, Hindu Anderi, coordenadora da Plataforma Internacional de Solidariedade com a Causa Palestina, classificou a retomada desses contatos como um momento de retrocesso. Para a ativista, a presença israelense e a influência estadunidense fazem parte de um plano de ocupação que tenta dividir a população e roubar recursos naturais. 

“Nós viemos na batalha em favor do povo da Palestina. Temos uma longa luta e uma história maravilhosa desde antes de Chávez, mas que, com Chávez, se concretizou uma solidariedade muito importante, uma solidariedade na prática com uma embaixada da Palestina na Venezuela, com convênios educativos, culturais, econômicos, esportivos, com o Estado da Palestina reconhecido pela Venezuela. Para nós, é um momento de retrocesso nesse sentido, porque entendemos que o povo da Venezuela, a partir de 3 de janeiro, está sendo ocupado, tentam nos humilhar também e, sobretudo, nos dividir e nos dispersar”, aponta a ativista, que estabelece paralelos para explicar o projeto de ocupação imperialista. 

“Por que não entendemos que na Venezuela também há um projeto de ocupação, de roubo indiscriminado de nossos recursos? Como é possível que nós vejamos mais e acreditemos mais nos ‘gringos’ do que em nós mesmos e em nós mesmas? Que não vejamos o plano que Rubio e Trump estão desenvolvendo contra nosso governo, nosso processo e nossa independência”, argumenta. 

Expoentes do chavismo presentes

Questionada pelo Brasil de Fato, a deputada do Partido Socialista Unido da Venezuela (Psuv) e ex-ministra de Serviços Penitenciários, Íris Varela, rejeitou que tenha havido qualquer mudança na posição do governo venezuelano em relação à causa palestina. 

“De modo algum. Nós sempre apoiamos a causa palestina. Essa é a causa dos povos. Nós somos um povo anti-imperialista, somos um povo revolucionário e sempre estaremos do lado das causas justas”, disse a parlamentar.

“Esse é um ato de resistência do povo venezuelano à violação da soberania e à violação da nossa liberdade por parte do governo estadunidense, com o aval e a cumplicidade do governo encarregado”, comentou o também militante do Psuv.

Intervenção disfarçada de ajuda humanitária

A delegação de Israel foi contatada pelo governo interino para realizar avaliações técnicas em cerca de mil edifícios que sofreram danos estruturais. O grupo de engenheiros israelenses desenvolveu um plano nacional de recuperação para áreas afetadas, como o estado de La Guaira. 

No entanto, Zuleika Matamoros, do movimento popular Primeiro de Maio, denunciou o que chamou de “governo genocida de Israel”, afirmando que a ajuda humanitária é um falso discurso para encobrir a ocupação. Para ela, a auto-organização e a mobilização crítica e permanente são fundamentais para a defesa da soberania nacional neste momento crucial.

Cartazes e faixas defendiam que estadunidenses e israelenses deixem o país.
Cartazes e faixas defendiam que estadunidenses e israelenses deixem o país.
Cartazes e faixas defendiam que estadunidenses e israelenses deixem o país.

“Essa é a primeira ação anti-imperialista após o bombardeio de 3 de janeiro e o terremoto que acelerou a ocupação por parte dos e acelerou alguns acordos com o governo genocida de Israel, que, assassinando crianças na Palestina, vem aqui com o falso discurso de que vai proteger os nossos. Eu creio que este primeiro encontro nos dá um termômetro de que ainda resta um setor importante que tem direito a existir”, disse a moradora de Caracas. 

“A auto-organização é a arma mais poderosa que nós temos e o que nos convoca hoje é a defesa da soberania, um anti-imperialismo que seja consequente”, agregou. 

A missão técnica israelense encerrou suas atividades presenciais no terreno após três semanas de trabalho, mas, segundo fontes do governo, deve seguir “assessorando” o trabalho de reconstrução. O duplo terremoto do dia 24 de junho deixou até o momento 5.398 pessoas mortas e mais de 23 mil desabrigados.

“Que o mundo saiba que o povo venezuelano das catacumbas está mobilizado, que somos um povo em resistência, que sabemos muito bem o que nossas autoridades estão fazendo aqui, que nada vai nos dividir e que somos anti-imperialistas. Aqui estamos em resistência. E todos queremos, incluindo até alguns da oposição, que os ianques se vão”, completou Varela.

Outro expoente chavista presente no ato foi o jornalista e apresentador de televisão Mario Silva, que tem feito duras críticas à gestão de Delcy Rodríguez. Ao Brasil de Fato, ele falou em “cumplicidade” do atual governo com o projeto de ocupação imperialista. 

“Esse é um ato de resistência do povo venezuelano à violação da soberania e à violação da nossa liberdade por parte do governo estadunidense, com o aval e a cumplicidade do governo encarregado”, comentou o também militante do Psuv.

Fonte
Brasil de Fato
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