‘Não é um espaço dado’: Letícia Fialho exalta a presença de mulheres negras na música brasileira

Por Marina Duarte de Souza25/07/2026 às 16:000 visualizações
Neste Julho das Pretas, a cantautora Letícia Fialho fala sobre a força da presença feminina e negra na música brasileira
Neste Julho das Pretas, a cantautora Letícia Fialho fala sobre a força da presença feminina e negra na música brasileira
Brasil de Fato

Julho é o mês das pretas, um tempo de memória, luta e celebração. No dia 25, em especial, o calendário se veste de resistência para marcar o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, data que celebra a potência e a trajetória histórica de mulheres que, com seus corpos, vozes e saberes, transformam a cultura de dentro para fora.

Para homenagear esse marco, esta edição do Bem Viver, programa do Brasil de Fato, faz um mergulho no universo poético e sonoro de Letícia Fialho. A artista brasiliense, que se define como uma cantautora popular brasileira, canta e compõe com a força da canção para dar voz a um cotidiano guiado pelo afeto e pela ancestralidade.

“Letícia Fialho é uma pessoa que acredita. Sou cantora, compositora, primeiramente compositora. Estou com meu violão e componho para existir, entender a vida e compartilhar”, afirma a artista.

Nascida em Brasília em 1989, Letícia teve seus primeiros contatos com a música ainda na infância, tocando teclado aos 6 anos e violão aos 10. Aos 12 anos, já compunha suas primeiras canções. Formada em Letras pela Universidade de Brasília, sua trajetória é marcada por participações em festivais ainda na adolescência, incluindo premiações no festival Cantasefe. Antes da carreira solo, integrou o grupo Chinelos de Couro e a banda Contém Dendê, formados apenas por mulheres.

Em 2018, lançou seu primeiro álbum solo, “Maravilha Marginal”, que expandiu exponencialmente o alcance de seu trabalho e trouxe a música “Corpo e Canção”, sucesso que ultrapassou a marca de 4 milhões de streams e tomou as pistas de dança do Brasil e do exterior.

Agora, um ano após o lançamento de “Revoada Baile Canção” (2025), seu segundo álbum de estúdio, Letícia nos mostra como habita e reivindica as margens tendo como lema “casa cheia e mesa farta”. O disco, que conta com participações de Tuyo, Ellen Oléria, Luiza Brina, Ju Strassacapa e Mestre Anderson Miguel, mistura ritmos como maracatu, xote, ijexá e baião a batidas eletrônicas inspiradas na música dos anos 1980 e 1990, consolidando sua assinatura pulsante e dançante.

A Maravilha Marginal

O conceito de “Maravilha Marginal” permeia a identidade artística de Letícia Fialho. Para a compositora, a ideia de unir essas duas palavras que, à primeira vista, parecem paradoxais é a chave para compreender a fundação da própria cultura brasileira.

“Quando falo de ser uma autora negra, falo também a partir de uma ancestralidade e de uma visão de mundo que tem como base a cultura negra”, explica. “Se a gente fala de futebol, de carnaval, de capoeira… São várias manifestações que fundamentam o que é a cultura brasileira, mas que já foram inclusive criminalizadas no passado.”

Letícia relembra que manifestações culturais hoje tidas como patrimônio do país já foram enquadradas pela antiga lei da vadiagem. “Isso para mim é a maravilha à margem. É essa maravilha que sustenta a cultura brasileira. Além disso, trago as camadas da minha própria vivência: ser uma artista fora do eixo Rio-São Paulo, do Centro-Oeste e do Distrito Federal, uma mulher negra e de sexualidade dissidente. São muitas margens, e estou o tempo todo reivindicando a maravilha em cada uma delas”, exalta.

Essa mistura se traduz diretamente em sua sonoridade, onde o elétrico e o orgânico se encontram: o lugar onírico do sonho dialoga com a sarjeta, a garrafa com a pipa, elementos que expressam a riqueza e a resiliência do povo brasileiro. Espaço conquistado com luta. A ocupação dos palcos e das prateleiras da música por mulheres negras é uma conquista contínua. Para exemplificar esse percurso, Letícia resgata o histórico de apagamento de grandes referências brasileiras.

“É uma luta histórica. Tivemos Dona Ivone Lara, por exemplo, que no início precisava ter o samba-enredo assinado pelo primo porque não era aceito que uma mulher negra o fizesse. Ela só foi lançar seu primeiro álbum autoral com mais de 60 anos”, destaca.

Apesar do desafio constante, a cantautora celebra os avanços do cenário atual: “Fico muito feliz que estejamos vivendo um momento com tantos nomes importantes e trabalhos bonitos. Não é um espaço dado, é fruto de muita luta, mas que bom que mais e mais de nós estejam ocupando os palcos.”

E tem mais…

O Bem Viver segue celebrando o mês das pretas e traz também coletivos femininos na Amazônia, que mostram que solidariedade e trabalho compartilhado transformam comunidades.

A chef Gema Sotto ensina uma receita deliciosa com produtos da agricultura familiar: bolo de chocolate com café. Dá pra fazer em casa!

Conheça também a história de Alexina Crespo, a liderança das Ligas Camponesas que ajudou a escrever a história do Brasil e agora ganha exposição em Pernambuco.

E no terceiro episódio da série “Terreiros Urbanos em São Paulo”, conheça a trajetória da ialorixá Claudia Rosa de Oya, que transformou a intolerância religiosa em acolhimento.

Quando e onde assistir?

No YouTube do Brasil de Fato, todo sábado às 13h, tem programa inédito. Basta clicar aqui.

Na TVT: sábado às 13h; com reprise domingo às 6h30 e terça-feira às 20h no canal 44.1 – sinal digital HD aberto na Grande São Paulo e canal 512 NET HD-ABC.

Na TV Brasil (EBC), sexta-feira às 6h30.

Na TVE Bahia: sábado às 12h30, com reprise quinta-feira às 7h30, no canal 30 (7.1 no aparelho) do sinal digital.

Na TVCom Maceió: sábado às 10h30, com reprise domingo às 10h, no canal 12 da NET.

Na TV Floripa: sábado às 13h30, reprises ao longo da programação, no canal 12 da NET.

Na TVU Recife: sábados às 12h30, com reprise terça-feira às 21h, no canal 40 UHF digital.

Na UnBTV: sextas-feiras às 10h30 e 16h30, em Brasília, no Canal 15 da NET.

TV UFMA Maranhão: quinta-feira às 10h40, no canal aberto 16.1, Sky 316, TVN 16 e Claro 17.

Sintonize

No rádio, o programa Bem Viver vai ao ar toda sexta-feira às 10h30, na Rádio Brasil de Fato. A sintonia é 98,9 FM na Grande São Paulo. Além de ser transmitido pela Rádio Agência Brasil de Fato.

O programa conta também com uma versão especial em podcast, o Conversa Bem Viver, transmitido pelas plataformas Spotify, Google Podcasts, iTunes, Pocket Casts e Deezer.

Assim como os demais conteúdos, o Brasil de Fato disponibiliza o programa Bem Viver de forma gratuita para rádios comunitárias, rádios-poste e outras emissoras que manifestarem interesse em veicular o conteúdo. Para ser incluído na nossa lista de distribuição, entre em contato por meio do formulário.

Fonte
Brasil de Fato
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