A escola que ajudou a moldar o campo brasileiro chega aos 125 anos

25/07/2026 às 03:300 visualizações
Quatro imagens lado a lado uma com um pesquisador olhando um experimento, depois uma pessoa caminahndo no campus, duas alunas olhando plantas e um boi
Quatro imagens lado a lado uma com um pesquisador olhando um experimento, depois uma pessoa caminahndo no campus, duas alunas olhando plantas e um boi
Jornal da USP
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SÉRIE ESPECIAL

Reportagens destacam a história, a produção científica e a contribuição da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz para o desenvolvimento do País

Fotos: Divisão de Comunicação / Esalq

A escola que ajudou a moldar o campo brasileiro chega aos 125 anos

Fundada em 1901 a partir do sonho de Luiz de Queiroz, a Esalq chega aos 125 anos combinando tradição, inovação e protagonismo internacional na formação de profissionais, na produção científica e na construção de soluções para a sociedade

 Publicado: 25/07/2026 às 0:30

Texto: Rose Talamone

Antes de existir a Universidade de São Paulo, antes da mecanização do campo e muito antes de o agronegócio se tornar um dos principais motores da economia brasileira, um projeto nascido em uma fazenda de Piracicaba já apostava que ciência e agricultura precisariam caminhar juntas.

Cento e vinte e cinco anos depois, a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP carrega uma marca rara entre as instituições brasileiras: a capacidade de atravessar gerações sem perder a capacidade de se reinventar. 

Sua história começou décadas antes da inauguração oficial, em 3 de junho de 1901. Filho dos Barões de Limeira e formado nas escolas de agricultura de Grignon, na França, e de Zurique, na Suíça, Luiz Vicente de Souza Queiroz acreditava que o futuro do Brasil passaria pelo conhecimento. Em 1889, transformou esse ideal em um projeto concreto ao adquirir a Fazenda São João da Montanha, em Piracicaba, onde pretendia construir uma escola agrícola inspirada nos modelos europeus e norte-americanos.

O caminho, no entanto, esteve longe de ser simples. Houve mudanças de governo, falta de recursos, paralisações nas obras e disputas políticas. Luiz de Queiroz doou a fazenda ao Estado de São Paulo com uma única condição: que a escola fosse inaugurada em até dez anos. Morreu em 11 de junho de 1898, aos 49 anos, sem ver concretizado o sonho que consumiu os últimos anos de sua vida.

Três anos depois, em uma manhã festiva de junho, a cidade de Piracicaba amanheceu enfeitada por bambus e bandeirolas coloridas para celebrar a inauguração da então Escola Prática Luiz de Queiroz. Desde então, a instituição formou milhares de profissionais, ajudou a adaptar a agricultura às condições tropicais, ampliou as fronteiras da pesquisa científica e passou a ocupar espaços centrais nos debates sobre produção de alimentos, desenvolvimento e sustentabilidade.

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Luiz Vicente de Souza Queiroz, fundador histórico da Esalq - Foto: Divulgação/Esalq

Fundada em 1901 e incorporada à USP em 1934, como uma de suas unidades fundadoras, a Esalq ajudou a construir a história da agricultura brasileira e também a trajetória de uma das principais universidades da América Latina.

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Visão aérea do prédio principal da Esalq - Foto: Denise Guimarães/Esalq

Em 2026, chega aos 125 anos com sete cursos de graduação, 17 programas de pós-graduação, estudantes de 53 países, mais de 60 convênios internacionais e uma comunidade acadêmica que continua escrevendo a história iniciada há mais de um século. “Chegar aos 125 anos significa celebrar uma instituição que ajudou a construir a agricultura brasileira, formou milhares de profissionais e ampliou sua atuação para responder aos desafios de cada época. Mais do que olhar para o passado, este marco reafirma nosso compromisso com o futuro”, afirma a diretora da Esalq, professora Thais Maria Ferreira de Souza Vieira.

A data será celebrada pelo Jornal da USP em uma série especial de seis reportagens. Ao longo dos próximos dias, os leitores conhecerão a trajetória da instituição, a ciência que ajudou a transformar a agricultura brasileira, os desafios do futuro, a rede de pesquisa e inovação, o impacto social do conhecimento produzido pela Escola e as pessoas responsáveis por escrever seus próximos capítulos.

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Fotos: Acervo / Esalq USP

Uma escola que cresceu junto com o Brasil

Poucas instituições acompanharam tão de perto as transformações do campo brasileiro quanto a Esalq. Criada oficialmente em 1901, a Escola nasceu com um único curso, Engenharia Agronômica, e a missão de formar profissionais capazes de contribuir para o desenvolvimento do País. Ao longo das décadas, acompanhou transformações econômicas, sociais e tecnológicas, ampliando sua atuação e incorporando novas áreas do conhecimento.

Hoje, além da Agronomia, oferece os cursos de Engenharia Florestal, Ciências Econômicas, Ciências dos Alimentos, Gestão Ambiental, Ciências Biológicas e Administração. A expansão reflete tanto a evolução da instituição quanto as demandas de uma sociedade cada vez mais complexa e interdisciplinar.

Parte dessa renovação pode ser observada nas contratações recentes. Dos cerca de 240 docentes da unidade, mais de 50 ingressaram nos últimos anos, trazendo competências em áreas como inteligência artificial, ciência de dados e agricultura digital.

A trajetória da Escola, entretanto, pode ser contada para além de seus cursos e números, mas também pelas pessoas que atravessaram seus portões. Em 1958, um jovem estudante de Lins desembarcou em Piracicaba para participar dos Jogos Abertos do Interior. Convidado por um amigo para conhecer a então Escola Agrícola, pegou um bonde atrás da Catedral e seguiu até o campus. “Quando entrei no campus, imediatamente me encantei. Do bonde era possível ver o gramado central, as árvores e o prédio principal. Pensei: ‘Que maravilha! É para cá que eu venho’. Foi amor à primeira vista”, recorda o professor Evaristo Marzabal Neves.

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Evaristo Marzabal Neves, ex-diretor e ex-aluno da Esalq - Foto: Gerhard Waller / Esalq USP

O encantamento transformou-se em uma relação de vida inteira. Evaristo ingressou na Esalq em 1962, formou-se em Engenharia Agronômica em 1966, retornou como docente e, décadas depois, assumiu a direção da instituição.

Sua trajetória funciona como uma ponte entre diferentes momentos da Escola: o campus alcançado por bonde, a expansão da pós-graduação, a criação de novos cursos e a consolidação de uma instituição com presença nacional e internacional.

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Fotos: Divisão de Comunicação / Esalq

Formação desde os primeiros anos

Ao longo de seus 125 anos, a Esalq formou profissionais que hoje atuam em universidades, empresas, organismos internacionais, institutos de pesquisa e órgãos públicos.

Atualmente, a unidade reúne mais de 3 mil estudantes de graduação distribuídos em sete cursos. A formação procura combinar excelência acadêmica, experiência prática e inserção precoce dos alunos em atividades de pesquisa e extensão.

Para a professora Wanessa Mattos, presidente da Comissão de Graduação, essa proximidade com diferentes dimensões da vida universitária é um dos diferenciais da Escola. “Os estudantes têm a oportunidade de participar de grupos de pesquisa desde os primeiros anos do curso. Na extensão, a curricularização implementada em 2023 fortaleceu ainda mais a relação entre a universidade e a sociedade”, afirma.

A Escola conta com mais de 80 grupos de extensão, além de laboratórios e centros de pesquisa que permitem aos alunos iniciar atividades acadêmicas e práticas logo nos primeiros semestres. A curricularização da extensão passou a destinar pelo menos 10% da carga horária dos cursos a ações que aproximam os estudantes de produtores, empresas, instituições públicas e diferentes grupos da sociedade.

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Wanessa Mattos, presidente da Comissão de Graduação - Foto: Gerhard Waller / Esalq USP

Outro aspecto que vem transformando o perfil da graduação é a ampliação das formas de ingresso. A adoção do Enem-USP e do Provão Paulista, somada às políticas afirmativas, aumentou a presença de estudantes oriundos da rede pública. Muitos são os primeiros de suas famílias a chegar ao ensino superior.

Na Esalq, 764 estudantes recebem atualmente auxílios permanência, dado que reforça a importância das políticas destinadas não apenas ao acesso, mas também à continuidade da formação.

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Fotos: Divisão de Comunicação / Esalq

Conhecimento para além dos portões

Se a formação acadêmica acontece em salas de aula, laboratórios e campos experimentais, parte importante da identidade da Esalq também é construída na relação cotidiana com a sociedade. A extensão universitária, presente desde os primeiros anos da instituição, ganhou novas dimensões nas últimas décadas e hoje alcança produtores rurais, estudantes, profissionais, escolas e comunidades de diferentes regiões do País.

Em 2026, a Escola reúne mais de 70 grupos de extensão ativos. Somente os cursos de difusão promovidos pela Esalq passaram de 13.517 matriculados, em 2023, para 26.460 neste ano. O Museu Luiz de Queiroz recebeu mais de 20 mil visitantes em 2025, enquanto o evento conjunto formado pelo EsalqShow, USP e as Profissões e Feira dos Grupos de Extensão atraiu cerca de 10 mil pessoas em apenas dois dias.

Para a professora Sonia Maria De Stefano Piedade, presidente da Comissão de Cultura e Extensão Universitária, esses números ajudam a explicar uma característica histórica da Escola. “A Esalq entende a cultura e a extensão não como atividades secundárias, mas como expressões vivas de seu compromisso público.”

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Sonia Maria De Stefano Piedade, presidente da Comissão de Cultura e Extensão - Foto: Gerhard Waller / Esalq USP

Segundo ela, o conhecimento produzido na Universidade alcança a sociedade por diferentes caminhos: cursos de extensão, eventos culturais e técnicos, atividades digitais e iniciativas como a Casa do Produtor Rural, que oferece orientação gratuita a produtores de todo o Brasil. “Levamos o conhecimento para além dos muros da universidade, mas esse processo também transforma os nossos estudantes, que passam a compreender mais cedo as demandas da sociedade e do mercado de trabalho”, afirma Sonia.

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Fotos: Divisão de Comunicação , Instagram Coletivo Baobás e Coletivo LGBTQ+ Integra / Esalq

Uma escola mais diversa

A mudança no perfil dos estudantes trouxe novos desafios para uma instituição que, durante grande parte de sua história, foi predominantemente masculina e pouco diversa socialmente. Criada em dezembro de 2023, a Comissão de Inclusão e Pertencimento (CIP) passou a organizar ações em quatro eixos: vida no campus; mulheres, relações étnico-raciais e diversidades; saúde mental e bem-estar social; e formação e vida profissional.

Em seus primeiros anos, a Comissão conquistou espaço físico próprio, ampliou a equipe e promoveu iniciativas como a Semana da Diversidade, o Encontro para a Consciência Negra, o plantio de mudas de baobás, símbolo da luta antirracista, e ações voltadas ao enfrentamento do assédio e da discriminação. Somente em atividades de divulgação e acolhimento, mais de 8 mil pessoas participaram das ações promovidas entre 2024 e maio de 2026.

Para a presidente da Comissão, professora Simone Lira, o objetivo é fazer com que a inclusão deixe de ser tratada como uma ação isolada e passe a integrar o cotidiano institucional. “É importante que a Esalq seja reconhecida como um ambiente inclusivo, em que a equidade seja um valor presente no cotidiano”, afirma.

A transformação envolve reconhecer diferentes trajetórias, fortalecer políticas de permanência e criar condições para que todos possam estudar, trabalhar e participar da vida universitária.

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Simone Lira, presidente da Comissão de Inclusão e Pertencimento - Foto: Gerhard Waller / Esalq USP

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Fotos: Divisão de Comunicação / Esalq

Pós-graduação de excelência internacional

Se a graduação é a porta de entrada para milhares de estudantes, a pós-graduação representa um dos pilares da excelência acadêmica da instituição.

Entre 2001 e 2026, a Esalq titulou 6.931 mestres e doutores. Atualmente, mantém 17 programas de pós-graduação, dos quais seis possuem conceito 7 da Capes, a nota máxima atribuída pela agência de avaliação.

Ao longo dos últimos 25 anos, estudantes de 53 países passaram por esses programas, fortalecendo a inserção internacional da Escola. “A pós-graduação da Esalq encontra-se em um patamar de excelência consolidado e preparada para uma nova etapa de expansão estratégica com ainda maior impacto”, afirma a professora Carla Bittar, presidente da Comissão de Pós-Graduação.

Entre 2001 e 2024, os programas registraram quase 30 mil artigos científicos e mais de 5 mil livros e capítulos, produção que resultou em aproximadamente 1,3 milhão de citações.

A internacionalização também passou a integrar diretamente a formação. Os programas ampliaram a oferta de disciplinas em inglês, consolidaram acordos de dupla titulação e fortaleceram a mobilidade acadêmica, aproximando a Esalq de universidades da Europa, América do Norte, Ásia e Oceania.

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Carla Bittar, presidente da Comissão de Pós-Graduação da Esalq - Foto: Gerhard Waller / Esalq USP

Nos últimos anos, a presença institucional em espaços internacionais também cresceu. A Escola passou a participar de iniciativas como o Fórum Mundial da Alimentação, promovido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), e das discussões do G20 sobre agricultura.

Para Thais, ocupar esses espaços significa levar a contribuição da universidade pública para debates em que decisões globais são construídas. “A gente tem muito a dizer e muito a contribuir. A universidade precisa ocupar esses espaços”, afirma.

Mulheres em espaços de decisão

Em uma instituição historicamente associada às Ciências Agrárias, a presença feminina em cargos de liderança representa um dos sinais mais visíveis das transformações recentes.

Quando assumiu a presidência da Comissão de Graduação, em 2019, Thais descobriu que era a primeira mulher a ocupar o cargo. Ao começar a frequentar as reuniões do Conselho Técnico-Administrativo, deparou-se com uma situação que sintetizava a ausência feminina nos espaços de decisão. “Não havia banheiro feminino aberto no prédio central. O banheiro existia, mas permanecia trancado porque praticamente não havia mulheres ocupando aqueles espaços”, recorda.

Hoje, além da primeira diretora da história da Esalq, as cinco comissões estatutárias são presididas por mulheres. Entre os docentes da instituição, elas representam 28% do quadro, participação que vem aumentando nas novas gerações. “Ter mais mulheres em cargos de decisão não deve ser visto como algo excepcional. O exemplo transmite confiança para que outras também se coloquem nesse papel”, afirma a diretora.

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Thais Maria Ferreira de Souza Vieira, diretora da Esalq - Foto: Gerhard Waller / Esalq USP

A presença feminina nessas posições não apaga os obstáculos históricos da carreira acadêmica, mas cria referências que não existiam para as gerações anteriores. Coincidentemente, todas as estudantes e duas profissionais ouvidas para esta série especial são mulheres, um detalhe que ajuda a ilustrar como a Esalq de 2026 já é bastante diferente daquela inaugurada em 1901.

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Foto: Gerhard Waller / Esalq USP

Uma história que continua

Ao caminhar pelo campus, é possível encontrar árvores centenárias, prédios históricos e estudantes que ainda carregam a expectativa de quem começa uma nova trajetória.

Foi assim com Evaristo em 1958, quando chegou de bonde e se encantou pela Escola. É assim em 2026, quando milhares de jovens cruzam os portões da Esalq pela primeira vez. A instituição que os recebe, porém, já não é a mesma inaugurada em 1901. Ampliou seus cursos, diversificou a comunidade, consolidou a pós-graduação, fortaleceu sua presença internacional e começou a abrir novos espaços de participação.

Os desafios também mudaram. A formação oferecida hoje precisa responder a transformações tecnológicas, ambientais e sociais que Luiz de Queiroz não poderia prever. Ainda assim, a ideia que sustentou a criação da Escola permanece reconhecível: formar pessoas e produzir conhecimento para contribuir com o desenvolvimento do País.

Luiz de Queiroz sonhou com uma escola que ajudasse a construir o Brasil. Cento e vinte e cinco anos depois, a instituição que leva seu nome continua olhando para a frente, não por abandonar sua história, mas por saber que a melhor forma de preservá-la é manter vivo o compromisso que lhe deu origem.

Parte das informações históricas utilizadas nesta reportagem foi extraída do livro Um olhar entre o passado e o futuro, publicado por ocasião do centenário da Esalq.

No próximo texto, que será publicado em 31 de julho: A ciência que ajudou a transformar a agricultura brasileira


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