Energia limpa para quem? Debate questiona a narrativa dominante sobre os impactos ambientais de megaempreendimentos

Por Jonathan Hirano26/07/2026 às 10:591 visualizações
Encontro reuniu representantes de comunidades atingidas, movimentos populares e pesquisadores para discutir os impactos da expansão da indústria da celulose, dos grandes data centers e de outros empreendimentos
Encontro reuniu representantes de comunidades atingidas, movimentos populares e pesquisadores para discutir os impactos da expansão da indústria da celulose, dos grandes data centers e de outros empreendimentos
Brasil de Fato

Enquanto governos e grandes empresas apresentam data centers, fábricas de celulose e megaempreendimentos como símbolos da inovação e da transição energética, povos indígenas, assentados da reforma agrária, pesquisadores e organizações da sociedade civil denunciam outra realidade: a dos territórios ameaçados pela escassez de água, pela degradação ambiental e pela violação de direitos.

Esse foi o tom da roda de conversa “Vozes amplificadas: os custos socioambientais dos megaempreendimentos”, realizada na quinta-feira (23), na Sala Circo do Multipalco, em Porto Alegre, durante a programação da 1ª Semana de Ação Climática de Porto Alegre (POACAW).

Promovido pelo Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, o encontro reuniu representantes de comunidades atingidas, movimentos populares e pesquisadores para discutir os impactos da expansão da indústria da celulose, dos grandes data centers e de outros empreendimentos sobre os territórios gaúchos.

Mais do que questionar projetos específicos, os participantes colocaram em debate o próprio modelo de desenvolvimento adotado pelo país. Para eles, a crise climática não pode ser enfrentada reproduzindo uma lógica econômica baseada na exploração intensiva da natureza e na concentração de riquezas, sobretudo quando seus custos recaem sobre populações historicamente vulnerabilizadas.

“A tecnologia que precisamos é a agroecologia”

Representando a juventude do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras por Direitos (MTD) e o Assentamento Belo Monte, em Eldorado do Sul, Samuel Santin criticou a prioridade dada pelo poder público aos grandes empreendimentos em detrimento de políticas voltadas à produção de alimentos, à moradia e à adaptação climática. Ao lembrar que o Rio Grande do Sul ainda convive com os efeitos das enchentes de 2024 e de novos eventos climáticos extremos, ele questionou a narrativa de progresso associada aos grandes investimentos privados.

“A principal pergunta que precisamos fazer é se essa é realmente a tecnologia de que precisamos. Esses empreendimentos exploram a natureza e também as comunidades. Qual será o retorno? Vamos ter água de melhor qualidade? Vai parar de faltar energia nos assentamentos? A tecnologia em que deveríamos investir é a agroecologia. É ela que vai garantir sombra, água fresca e um futuro para as próximas gerações”, afirmou.

Santin também chamou atenção para um movimento observado em diversos países, onde cresce a resistência à instalação de grandes data centers devido ao elevado consumo de água e energia. Segundo ele, projetos rejeitados em países centrais acabam encontrando espaço em regiões periféricas, onde a legislação ambiental é mais flexível e a resistência institucional menor.

A materialidade da nuvem

Embora sejam frequentemente associados ao universo virtual, os data centers possuem impactos ambientais bastante concretos. Essa foi uma das reflexões apresentadas pela pesquisadora Joana Winckler, do Observatório das Metrópoles e doutoranda em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). 

Ela explicou que a chamada “nuvem” depende de enormes complexos industriais destinados ao armazenamento e processamento de dados, responsáveis por consumir grandes quantidades de energia elétrica e água para manter seus equipamentos resfriados.

No caso da chamada “Cidade dos Data Centers”, prevista para Eldorado do Sul, Joana destacou que a capacidade energética projetada equivale ao consumo de aproximadamente 49 milhões de pessoas, cerca de quatro vezes a população do Rio Grande do Sul.

Além dos impactos ambientais, a pesquisadora criticou o processo de licenciamento ambiental conduzido pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam). Segundo ela, um empreendimento dessa magnitude recebeu licença simplificada, procedimento que, conforme entendimento já consolidado pelo Supremo Tribunal Federal, deveria ser restrito a atividades de baixo potencial poluidor.

Na avaliação da pesquisadora, “projetos desse porte exigem estudo e Relatório de Impacto Ambiental (EIA-RIMA), além de ampla participação das comunidades potencialmente atingidas”, destaca.

Povos indígenas denunciam ausência de consulta

As críticas ao modelo de licenciamento também vieram das comunidades indígenas. Representando a Tekoá Guajayvi, em Charqueadas, o cacique Cláudio Acosta denunciou o descumprimento da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que assegura aos povos indígenas o direito à consulta prévia, livre e informada sobre medidas que afetem seus territórios.

“O governo nunca nos procura para saber o que pensamos. Esses empreendimentos colocam em risco nossa vida, nossa cultura, nossa pesca, nossa caça e nossa forma de viver. Precisamos que parem de destruir nossa natureza”, afirmou.

Durante a atividade também foi lida uma carta da comunidade Mbya-Guarani da Tekoá Pindó Mirim, reforçando a defesa dos territórios indígenas e reivindicando que as comunidades deixem de ser tratadas apenas como destinatárias dos impactos e passem a participar efetivamente das decisões.

‘O governo nunca nos procura para saber o que pensamos. Esses empreendimentos colocam em risco nossa vida, nossa cultura, nossa pesca, nossa caça e nossa forma de viver’, destaca Cláudio Acosta |
‘O governo nunca nos procura para saber o que pensamos. Esses empreendimentos colocam em risco nossa vida, nossa cultura, nossa pesca, nossa caça e nossa forma de viver’, destaca Cláudio Acosta | — Jonathan Hirano
‘O governo nunca nos procura para saber o que pensamos. Esses empreendimentos colocam em risco nossa vida, nossa cultura, nossa pesca, nossa caça e nossa forma de viver’, destaca Cláudio Acosta | Crédito: Jonathan Hirano

“Chegamos ao teto desse modelo”

O professor da UFRGS e ambientalista Paulo Brack ampliou o debate ao situar os conflitos em torno da CMPC Celulose, dos data centers e de outros megaempreendimentos dentro de um mesmo projeto econômico.

Integrante do Comitê Técnico de Análise e Questionamento do EIA-RIMA da CMPC, Brack afirmou que a expansão desses empreendimentos faz parte do avanço de um modelo neoliberal baseado na concentração de riquezas, na exploração intensiva dos recursos naturais e na flexibilização dos mecanismos de controle ambiental.

Segundo ele, esse processo transforma comunidades em “territórios de sacrifício”, aprofundando desigualdades sociais e agravando a crise climática. “Chegamos ao teto desse modelo”, afirmou.

Ao abordar especificamente a expansão da CMPC, o professor criticou o financiamento público destinado ao setor da celulose por meio do BNDES, apesar do elevado endividamento das empresas, e lembrou denúncias envolvendo violações de direitos humanos.

Também acusou a Fepam de atuar de forma excessivamente permissiva no licenciamento ambiental, priorizando interesses econômicos em detrimento das análises técnicas e dos direitos das populações atingidas.

Para Brack, os impactos do empreendimento vão desde o aumento das emissões de gases de efeito estufa até a ampliação da poluição hídrica, da pressão sobre recursos energéticos e dos conflitos com milhares de pescadores e comunidades tradicionais.

Como alternativa, defendeu uma mudança estrutural do modelo de desenvolvimento, baseada na participação popular, no fortalecimento da fiscalização ambiental, na suspensão do financiamento público aos grandes monopólios e na proteção dos bens comuns.

“O enfrentamento da crise climática passa pela emancipação do capital, soberania ecológica  e pelo bem viver”, resumiu.

Quem conta essa história?

Se os conflitos ambientais ocupam pouco espaço no debate público, isso também está relacionado à forma como a mídia cobre esses empreendimentos. Essa foi a avaliação apresentada por Gabriela Rosa, do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.

A pesquisadora apresentou resultados da pesquisa “Vozes Silenciadas – Energias Renováveis”, que analisou 566 reportagens publicadas entre 2021 e 2023 em veículos nacionais e regionais. Segundo o levantamento, predominam nas notícias as vozes de empresas e governos, enquanto comunidades atingidas, pesquisadores críticos e movimentos sociais aparecem de forma residual.

Para Rosa, essa cobertura ajuda a consolidar um consenso em torno das chamadas “energias limpas”, frequentemente apresentadas como solução automática para a crise climática.

“A imprensa fala muito dos benefícios econômicos, dos investimentos e da geração de empregos, mas quase não aborda os conflitos vividos pelas comunidades”, observou.

Segundo ela, o silenciamento dessas populações não ocorre por acaso. “O silenciamento das vozes dos atingidos funciona como uma estratégia de convencimento, produzindo a ideia de consenso em torno desses empreendimentos e ocultando seus impactos sociais e ambientais”, afirmou.

Para a pesquisadora, ampliar o direito à comunicação é também ampliar a democracia e permitir que os territórios contem suas próprias histórias.

Justiça climática passa pela participação popular

Ao final da atividade, uma ideia atravessou as diferentes falas: enfrentar a crise climática exige muito mais do que substituir uma matriz energética por outra. Os participantes defenderam que qualquer projeto de desenvolvimento deve garantir transparência nos processos de licenciamento, respeito ao direito à consulta prévia, fortalecimento dos órgãos ambientais e participação efetiva das populações atingidas nas decisões sobre seus territórios.

Também apontaram que a construção de alternativas passa pela articulação entre movimentos sociais, universidades, comunidades tradicionais e organizações da sociedade civil, em defesa de um modelo que coloque a vida, a justiça climática e os direitos humanos acima dos interesses do grande capital.

Fonte
Brasil de Fato
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