É comum que essa pergunta seja respondida quase exclusivamente pela tecnologia. No terceiro artigo da série, abordei algumas das novas soluções para a crise climática: captura e armazenamento de carbono, hidrogênio de baixo carbono, bioenergia, eletrificação, inteligência artificial, novos materiais e inúmeras outras inovações. Todas elas são importantes. Algumas provavelmente serão indispensáveis. Mas há o risco de depositarmos nelas expectativas excessivas, o que aumenta a nossa tendência a imaginar que a solução para um problema criado pela sociedade será produzida quase automaticamente por máquinas, equipamentos ou processos industriais. Há um nome para isso: solucionismo tecnológico, termo popularizado pelo escritor Evgeny Morozov. Tecnologias são indispensáveis, mas são instrumentos “para chegar a” e não “a própria” solução. A direção em que as tecnologias são utilizadas depende da inteligência coletiva, da governança e da capacidade de aprendizado da sociedade e não apenas de seus instrumentos.
Ao adotar o solucionismo tecnológico, esquecemos que toda tecnologia nasce de escolhas humanas e que seu impacto depende muito menos de sua existência do que da forma como uma sociedade decide incorporá-la.
Essa distinção é importante porque o desafio que enfrentamos hoje não é apenas tecnológico. Trata-se, antes de tudo, de um problema de organização social. O uso intensivo de combustíveis fósseis não se consolidou apenas porque o petróleo tem alta densidade energética. Ele transformou profundamente os sistemas de transporte, a produção industrial, a agricultura, o desenho das cidades, a economia global e até mesmo nossa percepção do desenvolvimento. Em outras palavras, ele reorganizou os vetores que orientam o funcionamento da sociedade moderna. Esperar que uma simples substituição tecnológica seja suficiente para alterar esse quadro significa subestimar a profundidade das mudanças sistêmicas necessárias nas próximas décadas.
Foi justamente essa percepção que procurei desenvolver em uma série anterior de artigos sobre a mudança social. Sociedades não mudam apenas porque novas ideias surgem ou porque novas tecnologias se tornam disponíveis. Elas mudam quando os vetores que orientam o comportamento coletivo são gradualmente reorganizados.
Esses vetores podem ser econômicos, culturais, institucionais ou tecnológicos, mas todos compartilham uma característica comum: direcionam milhões de decisões individuais que, tomadas em conjunto, acabam por definir a trajetória de uma sociedade. A transição para uma economia menos dependente dos combustíveis fósseis dependerá exatamente dessa capacidade de alterar vetores, e não apenas de desenvolver equipamentos mais eficientes.
Essa reorganização, entretanto, começa muito antes da economia ou da engenharia. Ela começa pela maneira como produzimos, compartilhamos e validamos conhecimento. Nenhuma sociedade consegue enfrentar problemas complexos sem uma circulação intensa de informações entre universidades, centros de pesquisa, escolas, meios de comunicação, instituições públicas, empresas e cidadãos.
Chamo de semiosfera o ambiente onde ideias circulam, são debatidas, corrigidas e, quando sobrevivem ao escrutínio coletivo, tornam-se parte do conhecimento compartilhado. É nela que novas interpretações da realidade são construídas, debatidas, contestadas e, quando suficientemente robustas, incorporadas ao patrimônio coletivo de conhecimento. Antes de transformar a infraestrutura material de um país, precisamos transformar sua infraestrutura simbólica.
É por isso que ciência, educação e comunicação não constituem temas periféricos na agenda climática. São, na realidade, elementos centrais de qualquer estratégia de longo prazo. O conhecimento científico amplia nossa capacidade de compreender relações de causa e efeito que frequentemente escapam à experiência cotidiana. A educação permite que esse conhecimento seja apropriado por parcelas cada vez maiores da sociedade. A comunicação estabelece pontes entre diferentes grupos sociais e reduz a distância entre o que a ciência produz e o que orienta as decisões públicas. Quando esses elementos funcionam de forma integrada, a sociedade aumenta sua capacidade de aprendizagem. Em última análise, fortalece sua inteligência coletiva.
Mas conhecimento, por si só, não transforma a realidade. Para que ele produza mudanças concretas, é necessário que ele seja incorporado às instituições. É nesse ponto que políticas públicas, governança e democracia assumem um papel decisivo. São elas que convertem conhecimento em ação coordenada, articulando interesses frequentemente divergentes e criando condições para investimentos que ultrapassam os horizontes dos governos e dos ciclos eleitorais. Países que conseguem construir políticas públicas baseadas em evidências tendem a responder mais rapidamente às mudanças tecnológicas, econômicas e ambientais. Não porque possuam mais recursos naturais, mas porque desenvolveram maior capacidade institucional de aprender.
Essa relação entre conhecimento, instituições e desenvolvimento pode ser observada em alguns países. A Finlândia transformou uma economia baseada em recursos naturais em uma das sociedades mais inovadoras do mundo não apenas porque investiu em ciência e tecnologia, mas também porque fortaleceu continuamente sua educação, suas instituições e sua capacidade de incorporar conhecimento às políticas públicas. Da mesma forma, a liderança da Dinamarca na transição energética não decorreu apenas do desenvolvimento de tecnologias eólicas, mas de décadas de planejamento, estabilidade institucional e cooperação entre universidades, empresas, governo e sociedade. Em ambos os casos, a tecnologia foi consequência de um processo mais profundo de aprendizagem coletiva.
O Brasil reúne condições particularmente favoráveis para exercer um papel de liderança nessa transição. Nossa matriz energética é relativamente limpa; acumulamos décadas de experiência em bioenergia, possuímos uma biodiversidade singular, uma agricultura altamente desenvolvida e uma comunidade científica reconhecida internacionalmente em diversas áreas da bioeconomia. Nenhuma dessas características, entretanto, garante automaticamente um futuro de prosperidade. Elas representam oportunidades. Transformá-las em desenvolvimento dependerá da capacidade de construir consensos, fortalecer instituições, formular políticas públicas consistentes e manter investimentos contínuos em ciência, educação e inovação.
Talvez seja justamente por isso que eu tenha abordado nesta série, com certa cautela, a expressão “descarbonização”. Embora tenha se consolidado internacionalmente, ela pode levar à interpretação equivocada de que o carbono seja o problema. Não é. O verdadeiro desafio consiste em reduzir nossa dependência dos combustíveis fósseis e reorganizar os fluxos desses combustíveis em torno de sistemas renováveis baseados na fotossíntese, na biomassa, na biodiversidade e na economia circular. Mais do que eliminar carbono, trata-se de aprender a utilizá-lo de forma inteligente.
No fundo, esta série nunca foi apenas sobre carbono. Ela foi sobre aprendizagem. A natureza levou bilhões de anos para construir sistemas capazes de manter em equilíbrio os fluxos de matéria e de energia que sustentam a vida. A humanidade demonstrou, em apenas dois séculos, que é capaz de alterar profundamente esses mesmos fluxos.
Resta agora demonstrar que possuímos outra capacidade igualmente importante: aprender com nossos próprios erros. Se conseguirmos reorganizar os vetores que orientam nossa sociedade, fortalecer a circulação do conhecimento e transformar esse conhecimento em políticas públicas consistentes, talvez descubramos que a solução para a crise climática nunca esteve apenas nas tecnologias que somos capazes de construir, mas, principalmente, na sociedade que escolhemos construir.
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