O verdadeiro desafio é aprender

27/07/2026 às 19:130 visualizações
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Jornal da USP

Por Marcos Buckeridge, professor do Instituto de Biociências da USP

 Publicado: 27/07/2026 às 16:13

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Neste quarto artigo sobre carbono, talvez a conclusão mais importante da série pareça surpreendente: ela nunca foi realmente sobre carbono. Procurei mostrar que o carbono não é inimigo da humanidade. Muito pelo contrário. É a matéria-prima da vida e o elemento que, por meio da fotossíntese, permitiu o surgimento da extraordinária diversidade biológica que conhecemos hoje. Também procurei mostrar que o problema climático não decorre da existência do carbono, mas da maneira como, em pouco mais de dois séculos, alteramos profundamente um ciclo biogeoquímico que vinha se equilibrando ao longo de centenas de milhões de anos. Essa constatação nos conduz naturalmente a uma pergunta mais ampla. Se fomos capazes de reorganizar o planeta em tão pouco tempo, seremos também capazes de nos reorganizar?

É comum que essa pergunta seja respondida quase exclusivamente pela tecnologia. No terceiro artigo da série, abordei algumas das novas soluções para a crise climática: captura e armazenamento de carbono, hidrogênio de baixo carbono, bioenergia, eletrificação, inteligência artificial, novos materiais e inúmeras outras inovações. Todas elas são importantes. Algumas provavelmente serão indispensáveis. Mas há o risco de depositarmos nelas expectativas excessivas, o que aumenta a nossa tendência a imaginar que a solução para um problema criado pela sociedade será produzida quase automaticamente por máquinas, equipamentos ou processos industriais. Há um nome para isso: solucionismo tecnológico, termo popularizado pelo escritor Evgeny Morozov. Tecnologias são indispensáveis, mas são instrumentos “para chegar a” e não “a própria” solução. A direção em que as tecnologias são utilizadas depende da inteligência coletiva, da governança e da capacidade de aprendizado da sociedade e não apenas de seus instrumentos.

Ao adotar o solucionismo tecnológico, esquecemos que toda tecnologia nasce de escolhas humanas e que seu impacto depende muito menos de sua existência do que da forma como uma sociedade decide incorporá-la.

Essa distinção é importante porque o desafio que enfrentamos hoje não é apenas tecnológico. Trata-se, antes de tudo, de um problema de organização social. O uso intensivo de combustíveis fósseis não se consolidou apenas porque o petróleo tem alta densidade energética. Ele transformou profundamente os sistemas de transporte, a produção industrial, a agricultura, o desenho das cidades, a economia global e até mesmo nossa percepção do desenvolvimento. Em outras palavras, ele reorganizou os vetores que orientam o funcionamento da sociedade moderna. Esperar que uma simples substituição tecnológica seja suficiente para alterar esse quadro significa subestimar a profundidade das mudanças sistêmicas necessárias nas próximas décadas.

Foi justamente essa percepção que procurei desenvolver em uma série anterior de artigos sobre a mudança social. Sociedades não mudam apenas porque novas ideias surgem ou porque novas tecnologias se tornam disponíveis. Elas mudam quando os vetores que orientam o comportamento coletivo são gradualmente reorganizados.

Esses vetores podem ser econômicos, culturais, institucionais ou tecnológicos, mas todos compartilham uma característica comum: direcionam milhões de decisões individuais que, tomadas em conjunto, acabam por definir a trajetória de uma sociedade. A transição para uma economia menos dependente dos combustíveis fósseis dependerá exatamente dessa capacidade de alterar vetores, e não apenas de desenvolver equipamentos mais eficientes.

Essa reorganização, entretanto, começa muito antes da economia ou da engenharia. Ela começa pela maneira como produzimos, compartilhamos e validamos conhecimento. Nenhuma sociedade consegue enfrentar problemas complexos sem uma circulação intensa de informações entre universidades, centros de pesquisa, escolas, meios de comunicação, instituições públicas, empresas e cidadãos.

Chamo de semiosfera o ambiente onde ideias circulam, são debatidas, corrigidas e, quando sobrevivem ao escrutínio coletivo, tornam-se parte do conhecimento compartilhado. É nela que novas interpretações da realidade são construídas, debatidas, contestadas e, quando suficientemente robustas, incorporadas ao patrimônio coletivo de conhecimento. Antes de transformar a infraestrutura material de um país, precisamos transformar sua infraestrutura simbólica.

É por isso que ciência, educação e comunicação não constituem temas periféricos na agenda climática. São, na realidade, elementos centrais de qualquer estratégia de longo prazo. O conhecimento científico amplia nossa capacidade de compreender relações de causa e efeito que frequentemente escapam à experiência cotidiana. A educação permite que esse conhecimento seja apropriado por parcelas cada vez maiores da sociedade. A comunicação estabelece pontes entre diferentes grupos sociais e reduz a distância entre o que a ciência produz e o que orienta as decisões públicas. Quando esses elementos funcionam de forma integrada, a sociedade aumenta sua capacidade de aprendizagem. Em última análise, fortalece sua inteligência coletiva.

Mas conhecimento, por si só, não transforma a realidade. Para que ele produza mudanças concretas, é necessário que ele seja incorporado às instituições. É nesse ponto que políticas públicas, governança e democracia assumem um papel decisivo. São elas que convertem conhecimento em ação coordenada, articulando interesses frequentemente divergentes e criando condições para investimentos que ultrapassam os horizontes dos governos e dos ciclos eleitorais. Países que conseguem construir políticas públicas baseadas em evidências tendem a responder mais rapidamente às mudanças tecnológicas, econômicas e ambientais. Não porque possuam mais recursos naturais, mas porque desenvolveram maior capacidade institucional de aprender.

Essa relação entre conhecimento, instituições e desenvolvimento pode ser observada em alguns países. A Finlândia transformou uma economia baseada em recursos naturais em uma das sociedades mais inovadoras do mundo não apenas porque investiu em ciência e tecnologia, mas também porque fortaleceu continuamente sua educação, suas instituições e sua capacidade de incorporar conhecimento às políticas públicas. Da mesma forma, a liderança da Dinamarca na transição energética não decorreu apenas do desenvolvimento de tecnologias eólicas, mas de décadas de planejamento, estabilidade institucional e cooperação entre universidades, empresas, governo e sociedade. Em ambos os casos, a tecnologia foi consequência de um processo mais profundo de aprendizagem coletiva.

O Brasil reúne condições particularmente favoráveis para exercer um papel de liderança nessa transição. Nossa matriz energética é relativamente limpa; acumulamos décadas de experiência em bioenergia, possuímos uma biodiversidade singular, uma agricultura altamente desenvolvida e uma comunidade científica reconhecida internacionalmente em diversas áreas da bioeconomia. Nenhuma dessas características, entretanto, garante automaticamente um futuro de prosperidade. Elas representam oportunidades. Transformá-las em desenvolvimento dependerá da capacidade de construir consensos, fortalecer instituições, formular políticas públicas consistentes e manter investimentos contínuos em ciência, educação e inovação.

Talvez seja justamente por isso que eu tenha abordado nesta série, com certa cautela, a expressão “descarbonização”. Embora tenha se consolidado internacionalmente, ela pode levar à interpretação equivocada de que o carbono seja o problema. Não é. O verdadeiro desafio consiste em reduzir nossa dependência dos combustíveis fósseis e reorganizar os fluxos desses combustíveis em torno de sistemas renováveis baseados na fotossíntese, na biomassa, na biodiversidade e na economia circular. Mais do que eliminar carbono, trata-se de aprender a utilizá-lo de forma inteligente.

No fundo, esta série nunca foi apenas sobre carbono. Ela foi sobre aprendizagem. A natureza levou bilhões de anos para construir sistemas capazes de manter em equilíbrio os fluxos de matéria e de energia que sustentam a vida. A humanidade demonstrou, em apenas dois séculos, que é capaz de alterar profundamente esses mesmos fluxos.

Resta agora demonstrar que possuímos outra capacidade igualmente importante: aprender com nossos próprios erros. Se conseguirmos reorganizar os vetores que orientam nossa sociedade, fortalecer a circulação do conhecimento e transformar esse conhecimento em políticas públicas consistentes, talvez descubramos que a solução para a crise climática nunca esteve apenas nas tecnologias que somos capazes de construir, mas, principalmente, na sociedade que escolhemos construir.

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