A guerra comercial de Trump: o que está por trás da taxação de 25% contra o Brasil

Por Visões Populares27/07/2026 às 20:191 visualizações
Brasil de Fato MG conversou com Weslley Cantelmo, doutor em economia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Faculdade de Ciências Econômicas (Cedeplar)
Brasil de Fato MG conversou com Weslley Cantelmo, doutor em economia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Faculdade de Ciências Econômicas (Cedeplar)
Brasil de Fato

Desde 2025, Donald Trump vem ampliando as barreiras comerciais contra os produtos brasileiros e, após uma investigação baseada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, os Estados Unidos confirmaram uma tarifa adicional de 25% sobre parte das exportações brasileiras, que começaram a valer dia 22, mantendo algumas exceções para alguns produtos. 

Para entender o contexto, o Brasil de Fato MG conversou com Weslley Cantelmo, doutor em economia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Faculdade de Ciências Econômicas (Cedeplar) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). 

Confira a entrevista completa, ou ouça pelas plataformas digitais:

A medida tem sido apontada como parte de uma estratégia bem mais ampla da própria política industrial e geopolítica dos Estados Unidos. Nós estamos diante de um episódio pontual que pode ser revertido ou de uma lógica nas relações comerciais internacionais que pode permanecer, inclusive, mesmo após o governo Trump?  

Wesley Cantelmo – A contextualização dessas tarifas no momento geopolítico contemporâneo é um bom ponto de partida. Tem sido uma marca do governo Trump pressionar os outros países. Eu diria, seus adversários políticos, mas é mais do que isso. É impor uma nova ordem de tensionamento, por um lado, das estruturas internacionais de relação interestatais. Então, tensionar e enfraquecer as instâncias de mediação, como a ONU e, nesse caso, também a Organização Mundial do Comércio (OMC). E ter tratativas que a gente pode dizer, no mínimo, agressivas sob o ponto de vista bilateral.

Eles impuseram várias rodadas dessas tarifas adicionais, para além daquilo que já vinha sendo aplicado pelo Estado norte-americano sobre diversos outros países, e nem sempre essas tarifas estão vinculadas a questões propriamente comerciais. 

Ou seja, não envolve simplesmente um cálculo racional sob o ponto de vista do que é interessante para a economia norte-americana, vis-à-vis aquilo que a gente tem interesse também de, eventualmente, enfraquecer numa economia de um determinado país. Tem isso também, isso é muito claro. Porém, existem outros fatores. Eles têm utilizado essas tarifas como maneira de gerar uma pressão política sobre os países. Às vezes, de uma maneira bem calculada, eu diria; outras vezes, nem tanto.

É bastante controversa, no meio da discussão geopolítica e da ciência política, a avaliação com relação a essas medidas do governo Trump, até porque tem tido idas e vindas as suas determinações na relação com outros países. Então cede, depois aperta de novo, cede novamente. É um movimento bastante instável e nem sempre muito inteligente, sob o ponto de vista que a gente poderia olhar até mesmo do interesse norte-americano.

As tarifas sobre o Brasil, por exemplo, geram pressões internas dentro dos próprios Estados Unidos, porque setores lá também saem perdendo. Principalmente no caso brasileiro, tem um exemplo muito curioso, que são diversas empresas norte-americanas que atuam com unidades produtivas no Brasil. De certa forma, essas empresas exportam para elas mesmas ou para outras empresas norte-americanas do seu circuito produtivo ali, e isso torna o produto mais caro. 

Isso foi pensado de uma maneira um pouco melhor agora, até em decorrência do desastre que foi para a economia norte-americana várias dessas rodadas de tarifas que foram impostas. Dentre elas a própria primeira rodada aplicada ao Brasil, e isso foi pensado agora com um maior número de exceções, de pautas de produtos brasileiros levados à economia norte-americana.

Enfim, isso tende a minorar o impacto interno lá. E o impacto aqui também tende a ser pontual. Óbvio que para quem é do setor que está sendo tarifado não é bom. Mas, para a economia como um todo, não gera uma hecatombe, uma grande crise.

Agora, sob o ponto de vista das relações políticas, fica muito claro que essa tarifa neste momento tem pelo menos dois grandes fatores. Eu diria dois e meio. 

O primeiro grande fator é, de fato — e esse é mais estrutural e preocupante —, uma argumentação com relação ao Pix. O Pix enquanto uma tecnologia que já é bastante cobiçada, como tecnologia de referência que pode ser utilizada como meio de pagamento nos sistemas de comércio internacional. Por enquanto não é, o Pix é interno. 

Ele rouba de certa forma algum mercado, sim, das grandes operadoras do sistema financeiro norte-americano, sobretudo as de cartão de crédito, mas não é nada tão expressivo, não chega a gerar uma substituição. Mas potencializa uma opção forte do mercado interno brasileiro. O problema dele não é esse; o problema é o que ele sinaliza enquanto possibilidade tecnológica para o comércio exterior.

O segundo ponto, eu diria, é o ensaio que o Brasil já vem fazendo, inclusive muito timidamente, mas que outros países e outros blocos já têm feito de uma maneira mais avançada, que é aplicar algum tipo de limitação à operação das big techs norte-americanas. No mundo estão surgindo diversas regulamentações. No Brasil, essa discussão se torna cada vez mais premente, seja sob o ponto de vista desse uso mais clássico, seja sob o ponto de vista também da gestão e armazenamento de dados. 

E, principalmente agora, com essa era das inteligências artificiais que, cada vez mais, se tornam uma realidade constante na vida e no trabalho sem gerar o retorno financeiro que prometeram gerar lá nos Estados Unidos, é um ponto de preocupação também. Logicamente, eles estão antecipando qualquer movimento numa tentativa de que nós não apliquemos regulamentações mais rígidas. O que foi feito até agora e trazendo algum grau de responsabilidade foi uma legislação recentemente aprovada e uma atuação mais dura do STF, que, inclusive, está sendo utilizada politicamente por conta dos vínculos do governo norte-americano com a família Bolsonaro, enfim, com a extrema direita brasileira.

A população brasileira tem mostrado não aceitar interferência externa

O terceiro motivo, que eu disse que é “meio motivo”, é o mais fraco de todos e que talvez gere efeito até relativamente positivo para a gente aqui no curto prazo, é uma tentativa de interferência nas eleições brasileiras. Acendendo uma agenda que tem um lastro político com o público da extrema direita, que infelizmente se consolidou no Brasil, com essa articulação internacional que tem os Estados Unidos trumpista como farol, mas que pode sair pela culatra porque, aliás, as pesquisas já mostram isso. 

Quando se trata do interesse nacional, a população brasileira tem mostrado uma resiliência e uma compreensão de que a gente não deve aceitar nenhum tipo de ingerência ou interferência de qualquer outra nação sobre os nossos assuntos internos.

Embora essa tarifa máxima de 25% incida em aproximadamente um quarto das exportações brasileiras para os Estados Unidos, com setores como madeira, máquinas, móveis, calçados, açúcar e o etanol, que têm sido também uma grande preocupação dos brasileiros, eles tendem a sofrer impactos relevantes. Ao mesmo tempo, tem outros produtos estratégicos que eles tiraram, ficaram fora da medida, como a carne, o café e o suco de laranja. Objetivamente, quais seriam os impactos econômicos reais para o Brasil considerando que uma parte significativa deve ser atingida por essas tarifas?

Primeiro a gente precisa esclarecer, e acho que nesta altura do campeonato as pessoas já têm essa dimensão: os Estados Unidos já não são, há bastante tempo, o nosso principal parceiro comercial. O nosso principal parceiro comercial é a China. E, assim, muito de longe depois vêm os Estados Unidos. O impacto das tarifas, como você bem colocou, está em torno de 25% do que a gente exporta para os Estados Unidos. Para a gente deixar claro: o principal é a China, muito de longe, e depois a gente tem os Estados Unidos mais ou menos num patamar próximo de outros, porque também a gente faz comércio aqui relevante com o Mercosul, por exemplo.

Isso vai impactar em 25% do que vai para os Estados Unidos, em setores que eles julgaram estratégicos para eles. Essa rodada de isenções deixou de fora setores importantes, que principalmente são aqueles que a gente mais exporta para eles, como carne bovina, café, suco de laranja e o petróleo. 

O petróleo ficou de fora e, sob o ponto de vista da indústria de ponta, foi até uma grande preocupação na primeira rodada, que foi a indústria de aeronaves civis, com destaque para a Embraer, que participa bastante no mercado norte-americano, e ficou de fora.

O que ficou e tem um impacto mais forte? 

Você tem ainda um resquício do setor de máquinas e equipamentos, com participação inclusive em empresas de eletrônicos que em geral são empresas americanas. Então tem uma complexidade interna e, muito provavelmente, uma disputa interna de setores dentro dos Estados Unidos que certamente motivaram o encaminhamento dessa aplicação de tarifas, dentro da avaliação da Seção 301.

O setor de calçados e vestuário, que é um setor nosso que é importante, porém é complicado falar deles, porque já têm sido um motivo de preocupação há bastante tempo pela sua capacidade de competição com os produtos chineses. É um setor que perdeu muito nas últimas décadas. Tem tido alguma retomada, sob o ponto de vista da aplicação de novos padrões tecnológicos na produção e de inovações, e o mercado norte-americano é importante para esse setor. 

Ele está sendo fortalecido muito recentemente pela lógica do acordo Mercosul-União Europeia. Eu nem gosto desse acordo; acho que ele é mais uma camada de problema para a economia brasileira, mas esse é um setor que tem uma certa vantagem nesse contexto. Portanto, é um setor totalmente passível de uma articulação e estratégia de abertura de novos mercados, ficando menos dependente da economia norte-americana. No início ele sofre um pouquinho, mas como eu disse, vem se renovando tecnologicamente, então é possível procurar novos mercados.

Depois, o mercado de máquinas agrícolas entra numa competição direta com algumas marcas norte-americanas e pode beneficiar algumas tecnologias e marcas chinesas que podem ocupar esse espaço, a depender da relação com os Estados Unidos, que também não está muito simples. Mas é um setor que pode sofrer um pouco mais. Alguns equipamentos elétricos, como comentei, outras manufaturas diversas, o setor de papel, também vão sofrer um pouquinho.

A tendência é que se trabalhe a diversificação de clientes e a abertura de novos mercados. São produtos em que há essa possibilidade de forma bastante real. Não necessariamente a gente depende do mercado norte-americano para que essas atividades continuem ocorrendo no Brasil, diferente, por exemplo, do mercado da Embraer. Ali é mais complicado, porque são aviões e você não consegue nem implementar uma reciprocidade, já que o mercado é muito interligado.

Mas para esses outros setores é possível uma adaptação. No curto prazo, haverá necessidade de gerenciamento. Certos setores obviamente vão sentir, inclusive porque há contratos engatilhados e será preciso rever toda uma negociação de curto prazo. 

Mas o que a gente tem observado é que há uma atuação intensa da diplomacia brasileira, da Câmara de Comércio e do Ministério da Indústria e Comércio Exterior para o incentivo à abertura de novos mercados, inclusive com crédito do BNDES para esse fim. Então, são setores que vão conseguir se adaptar.

O ideal é que as tarifas sejam retiradas em algum momento, mas pensando numa situação de manutenção desse quadro ou dessa instabilidade — tira, reaplica, tira, reaplica —, que traz insegurança para o setor, a estratégia melhor será a adaptação e a abertura de novos mercados.

Agora, há um setor que sofre mais e já vem sofrendo, que é o setor de aço e alumínio. O mercado norte-americano obviamente não é o único, a gente exporta isso para a Europa, para a China, enfim. Mas esse setor na China é muito competitivo. É um setor que já vinha sofrendo com a aplicação de uma tarifa de 25% diferenciada há bastante tempo. Essa tarifa atual de 25% se soma às tarifas já aplicadas. Ou seja, é um setor que está com uma tarifa de 50%, o que praticamente inviabiliza o comércio com os Estados Unidos. 

Além de existir um setor atuante na economia interna deles, há outras possibilidades no mundo de suprimento. Portanto, o setor brasileiro tende a perder bastante, é um setor preocupante. A gente pode minorar esse impacto com outras estratégias, inclusive com uma absorção no mercado interno, que é limitada, mas nós temos toda uma política industrial para aplicar que está sendo desenhada. No curto prazo, essa solução não é viável, mas podemos pensar nela para trazer mais segurança para esse setor no médio prazo.

Você mencionou a questão da interferência nas eleições aqui no Brasil. Esses efeitos de curto prazo que você está mencionando, sobretudo no setor de aço e alumínio, com esse acréscimo que vai para 50%, podem ser parte da estratégia de interferência?

Taxação não vai ter o efeito que eles esperam nas eleições

Não vai ter o efeito que eles esperam. Como eu disse, os impactos mesmo nesses setores mais atingidos, como aço e alumínio, são muito localizados. Quando falamos de aço e alumínio, do ponto de vista do colégio eleitoral, estamos falando de Minas e do Rio, e não do estado inteiro, mas de localidades específicas, polos industriais que trabalham com essa produção. Então, eu não vejo um impacto eleitoral nesse sentido.

Pelo contrário. O presidente Lula, não só como presidente, mas já enquanto candidato, operou de uma maneira muito inteligente com isso. Eu acho que essas tarifas acendem muito mais um sentimento de proteção do país e de indignação: “Como assim, esses caras querem nos penalizar?”. E fica muito clara a ligação da família Bolsonaro com os incentivos a esse tipo de medida. Isso vem casado com a entrega de um green card para o Eduardo Bolsonaro. Olha que loucura. 

Fica muito claro que é uma família, um grupo político, que está disposto a entregar o Brasil para os Estados Unidos fazerem o que quiserem com a gente e imporem prejuízos monumentais à nossa economia.

Para ser sincero, eu acho que o efeito pode ser até positivo sob o ponto de vista do nosso interesse mais político de combater essa extrema direita brasileira. E eu acho também que isso ajuda a gente a compreender um pouco do caráter do governo norte-americano e das forças políticas norte-americanas no mundo contemporâneo.

Já passou o momento em que a gente poderia prever qualquer tipo de razoabilidade vinda dos Estados Unidos. Isso está muito bem demonstrado não só com relação à nossa interação entre Brasil e Estados Unidos, mas lá na guerra com o Irã, na lógica de sustentação da guerra da Ucrânia e em outros conflitos. Eles têm tido uma atuação errática, guiada por uma disputa interna muito voraz e com muito pouca racionalidade, muito fígado.

Óbvio que não se deve subestimá-los, porque se trata da nação mais poderosa do mundo. Mas eles têm atuado com pouca inteligência nessa crise deles que é iminente e que está às claras. Trata-se de uma civilização em decadência. Não podemos esperar muita razoabilidade ou pensamento estratégico; eles estão jogando agressivamente, como estão habituados a fazer nas últimas décadas, e talvez sem tanta inteligência assim. 

Temos que estar atentos e saber operar. É difícil e sofrido para o Brasil, mas nos dá margem para atuar tanto politicamente quanto estrategicamente na defesa dos interesses nacionais.

Para aprofundar a questão da estratégia do Brasil para lidar com esse novo desafio, o governo Lula anunciou uma nova etapa do plano Nova Indústria Brasil, onde a ideia é fazer uma série de reuniões com representantes dos setores potencialmente afetados. Eles citam questões como financiamentos públicos, apoio à abertura de novos mercados e negociação diplomática.  Muitas empresas já iniciaram um processo de diversificação de compradores e estão apostando em linhas de crédito para reduzir os impactos. Na sua avaliação, essas medidas são suficientes ou tendem a ser paliativas?  

Na primeira versão do plano, eu tinha dúvidas com relação à eficácia, até pela própria instabilidade das decisões norte-americanas. Mas ele se mostrou bastante interessante. A manutenção de uma constante negociação com o governo norte-americano é importante; é melhor sem as tarifas do que com elas. Acho que o governo tem que tomar algum cuidado aí, porque me surpreende um pouco esse esforço de querer convencer as autoridades norte-americanas de que a medida não é razoável nem mesmo sob o ponto de vista deles.

Os argumentos comerciais que eles trazem não são verdadeiros. Aqueles três que apresentei são os reais, os comerciais não fazem sentido nenhum. A questão do desmatamento muito menos. Os índices de desmatamento, inclusive, estão baixando, e os Estados Unidos sequer fazem parte do Acordo de Paris, do qual se retiraram com o governo Trump. 

Há esse esforço brasileiro, mas eu acho que é muito mais para posicionar a liderança brasileira diante do restante do mundo, dizendo: “Olha, aqui a gente trabalha com racionalidade”, do que para tentar de fato convencer o governo norte-americano, porque está claro para todo mundo que lá eles não estão agindo com racionalidade alguma, ou estão agindo com uma racionalidade baseada na política da violência, do Big Stick mesmo, ou dessa versão da Doutrina Monroe do Trump, que se baseia na tática de agressão e constrangimento.

Por outro lado, a principal estratégia é essa: já que a gente não pode ficar à mercê, e eles já não são os nossos principais parceiros comerciais, e nós temos setores estratégicos que operam no mercado deles, nós reunimos as nossas capacidades instaladas, a nossa força empresarial e une isso com a nossa capacidade diplomática, e vamos abrir novos mercados. Vamos fazer isso incentivando as empresas a passar por esse momento de transição. Como há contratos fechados e o planejamento é realizado em torno da expectativa de operar no mercado norte-americano, a gente oferece um suporte através de crédito subsidiado via BNDES e algumas desonerações importantes.

Com isso, consegue-se manter a sustentabilidade financeira dessas empresas para que elas façam essa transição, acoplado com todo um escopo de negociação diplomática e mapeamento de negócios no mundo inteiro. A tendência, a médio prazo, caso a postura dos Estados Unidos se mantenha, é que de fato a gente vá diversificando e a participação relativa norte-americana nas nossas exportações vá sendo diluída, ficando cada vez menor.

Eles têm eleições de meio de mandato agora, as midterms, e pode ter um impacto negativo para o governo Trump, com uma composição do Congresso mais desfavorável que tende a gerar dificuldades. Apesar de que eles têm encontrado maneiras de contornar as dificuldades do Congresso, trabalhando com ordens executivas e gerando uma governança sui generis e bastante violenta do ponto de vista interno.

Se se confirmar um cenário de derrota do trumpismo nas midterms, o conflito interno dos Estados Unidos pode se intensificar. Isso pode ser bom para nós num curto prazo, mas a tendência maior é que, com a intensificação desse cenário de conflito, o governo Trump passe a agir com ainda mais violência. Então, nos próximos dois anos e meio que ainda temos de Trump, eu trabalharia com um cenário de risco muito alto.

O cenário mais seguro é trabalharmos com previsões de agressões contínuas

Eu esperaria agressões daí para mais, inclusive saindo do ponto de vista comercial. E num eventual futuro governo democrata, uma transição é outro jogo, mas pela história do que temos acompanhado, essas agressões tendem a não arrefecer muito nas mãos dos democratas. A situação dos Estados Unidos é estrutural. 

O cenário mais seguro para nós é trabalharmos com previsões de agressões contínuas daqui para a frente e procurarmos diluir os efeitos com abertura de novos mercados e investindo muito na relação Sul-Sul e no fortalecimento do BRICS, que tem ficado aquém neste período. Eu tenho bastante convicção de que a saída para o Brasil neste momento é por aí.

Eu queria retomar a questão do Pix, que você mencionou no início e que tem sido uma grande questão. O relatório do USTR — a representação comercial dos Estados Unidos — afirma que o Banco Central brasileiro está favorecendo o Pix em detrimento das empresas americanas de pagamentos eletrônicos. Essa crítica foi contestada por diversos especialistas, entre eles o vencedor do prêmio Nobel Paul Krugman, que elogiou o sistema brasileiro e classificou as críticas do USTR como infundadas. Queria que você explicasse o que está por trás desse posicionamento contundente dos Estados Unidos e se, na sua avaliação, esse modelo de pagamento ameaça a hegemonia do dólar no mundo.

No curto prazo, não ameaça. Tem muita água para passar debaixo da ponte para que a gente estabeleça novos sistemas de pagamentos internacionais. O Brasil deveria estar investindo mais nisso, política e tecnologicamente. Não ameaça no curto prazo, mas deveria ameaçar mais; deveríamos estar investindo mais em escapar da teia do sistema SWIFT. Com todo esse poder, os Estados Unidos fazem o que querem: sancionam, bloqueiam riquezas. 

As crises que temos observado em Cuba e na Venezuela foram via mecanismos de sanções norte-americanas, cujo ponto central é a retirada de países do sistema de pagamentos internacional. A Rússia tenta puxar isso bastante via BRICS e via Organização de Cooperação de Xangai, e há soluções regionais, mas, para fazer frente ao sistema norte-americano, ainda não.

O Pix é uma tecnologia interessante, um farol e uma opção. Ainda não está desenhado para comércio internacional, apesar de diversos países já terem acordos com o Brasil para compartilhar a tecnologia, mas pensadas para contextos internos.

Sobre a acusação e a fala do Krugman, de certa forma eles têm uma certa razão. O Pix, no médio prazo, pode fazer com que a gente não precise usar bandeiras de cartão norte-americanas. Para que usar? Com o Pix parcelado, menos ainda. A gente tem uma tecnologia própria, gratuita e produzida pelo Estado brasileiro que colou; as pessoas gostam de usar o Pix. Ele sinaliza inovações até para a criação de uma big tech brasileira. Tem gente que manda Pix de um centavo para trocar mensagem, e agora o Pix funciona de forma offline.

Não temos que ter receio disso. “Ah, vai prejudicar a empresa norte-americana”. Não é isso que eles defendem? Inove, apresente a sua tecnologia, venha competir no mercado. Eu faço questão de falar isso porque senão fica parecendo que nós jamais vamos querer tirar o oligopólio das duas grandes bandeiras norte-americanas que operam no Brasil. Por favor! É isso que a gente tem que fazer mesmo. 

Os números ainda não mostram uma substituição total, e essas empresas continuam aqui, mas o Pix criou um novo mercado. O nosso interesse tem que ser ocupar esse espaço; paciência para eles, bom para nós. Senão parece que a gente está se submetendo a uma regra universal de novo.

Eu acho que o Pix pode cumprir esse papel, sim. E os Estados Unidos têm feito o que eles fazem: guerra. Isso não é novidade. Eles fazem guerra comercial e imposição tecnológica desde a década de 1950, estruturado na reconstrução europeia e expandido mundo afora. Quando alguém sai um pouquinho da regra, eles tomam medidas guerreiras de constrangimento e sanções.

O que difere essa guerra comercial atual do governo de Donald Trump daquelas travadas historicamente?

Estruturalmente, o que difere é resultado do próprio modelo deles. O parque produtivo do mundo saiu de dentro dos Estados Unidos. Até a década de 1970, eles eram a principal indústria do mundo. Paulatinamente, foram transferindo a indústria para as periferias para baratear os salários, e concentraram nos Estados Unidos os serviços tecnológicos e financeiros que fazem essa máquina girar. Reinaram sozinhos por um tempo.

Acontece que esse mecanismo entrou em crise. Primeiro, houve a fragilidade financeira com a crise de 2008, que gerou problemas para eles e para o mundo. Por outro lado, e talvez não tenham calculado bem, houve o surgimento da China como um competidor em escala e em tecnologia. Tudo que os EUA dominavam, a China passou a dominar e superá-los, com uma capacidade industrial e de coordenação infinitamente maior. Os EUA já não têm capacidade de manter um ritmo de guerra longo, pois a indústria de insumos militares está fora e o custo é elevado.

É esse cenário que vamos ter que viver: Estados Unidos extremamente agressivos, com pressões e divisões internas muito fortes, tentando esmagar nações mais frágeis para extrair o máximo possível. Isso está, inclusive, na doutrina recente de política externa deles.

O governo Lula tem dito que vai tentar negociar em relação a essas tarifas. Existe espaço para uma resposta brasileira baseada na reciprocidade ou isso aprofundaria os prejuízos econômicos?

Espaço há, mas acho que a gente tem que pensar com cautela. Foi bom ter aprovado a lei da reciprocidade, que é um instrumento a mais. Obviamente, devemos usá-la com cuidado para não penalizar os setores que atuam no Brasil. A gente é deficitário na balança comercial com os Estados Unidos e importa muito insumo, tecnologia acabada, máquinas e bens de capital norte-americanos que são necessários para a nossa própria produção, além de produtos de consumo.

Simplesmente aplicar a reciprocidade de forma geral tornaria as importações mais caras, poderia gerar um problema inflacionário e impactar a nossa capacidade de produzir. Agora, aplicar isso de maneira estratégica e pontual naquilo que não vai nos trazer grande prejuízo é outra história. 

Podemos fazer desse limão uma limonada, utilizando o mecanismo clássico de substituição de importações vinculada à nova política industrial. Aquilo que importamos dos Estados Unidos, poderíamos passar a produzir internamente num curto a médio prazo.

Aplicar a reciprocidade para conseguir transferência tecnológica pode ser muito valioso 

Outra possibilidade é substituir o fornecedor: se hoje importamos algo majoritariamente dos EUA, poderíamos passar a importar da China. Mas isso, por si só, não traz vantagens além de fugir da fonte de instabilidade. O ideal é vincular a substituição de importações a novos acordos de transferência tecnológica, algo que com os norte-americanos é muito difícil de conseguir.

No curto prazo, é difícil aplicar o instrumento da reciprocidade de forma isolada. Mas, no médio prazo, aplicar a reciprocidade para proteger um setor estratégico internamente ou firmar uma relação com outro país que nos traga transferência tecnológica pode ser muito valioso para a economia brasileira.

Fonte
Brasil de Fato
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