Pode o governo Fujimori se distanciar da China para fortalecer a relação do Peru com os EUA?

28/07/2026 às 06:080 visualizações
Foto: AVISO: midia estatal russa / Sputnik Brasil
Com a nomeação do jornalista e ex-candidato à presidência Carlos Espá como novo ministro das Relações Exteriores, a presidente eleita do Peru, Keiko Fujimori, começa a delinear a política externa de um governo cujo principal desafio será o equilíbrio geopolítico entre os EUA e a China.

'Inclinação a favor dos EUA'

Fujimori nomeou oficialmente o novo Ministro das Relações Exteriores durante uma coletiva de imprensa, apresentando-o como alguém que "assume a responsabilidade de liderar uma política externa moderna e profissional, visando fortalecer a presença do Peru no mundo". Ela também afirmou que o ministério se concentrará em "atrair investimentos e criar oportunidades" para os peruanos.
Espá, que antes de apoiar Fujimori no segundo turno das eleições foi candidato à presidência pelo partido Sí Creo, é advogado e jornalista de formação e fez parte do grupo de jovens intelectuais de tendência liberal que, no início da década de 1990, acompanharam o escritor Mario Vargas Llosa em suas incursões políticas.
Além disso, o futuro ministro das Relações Exteriores do Peru atuou por 15 anos como diretor de comunicação da Embaixada dos EUA em Lima. Ele só deixou o cargo em 2023, quando já planejava se candidatar à presidência.
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De toda forma, o futuro governo de Keiko Fujimori já fez gestos de reaproximação com os EUA, que enviaram uma delegação ao país sul-americano chefiada pelo subsecretário de Estado Christopher Landau .
A ligação entre Washington e Lima também estará nas mãos do embaixador dos EUA na capital peruana, Bernie Navarro, que descreveu a vitória eleitoral de Fujimori como "um novo amanhecer" e que, de seu cargo, tem sido muito crítico da presença econômica chinesa no país.
"É absolutamente claro que surgirá uma situação em que as relações com os EUA serão priorizadas", disse o analista internacional Manuel Bernales à Sputnik.
O especialista enfatizou que o próprio histórico do indicado ao Ministério das Relações Exteriores confirma essa "inclinação para os EUA", embora a relação entre os dois países não esteja imune à incerteza marcada pelos anúncios de tarifas do presidente Donald Trump. O exemplo mais recente é a tarifa de 12,5% imposta a algumas exportações peruanas, como parte de uma nova política de Washington contra o "trabalho forçado".
No entanto, a aposta nos EUA pode ter impacto nas relações entre o Peru e a China, que continua sendo o principal parceiro comercial e o principal investidor na economia do país sul-americano, no contexto de uma guerra comercial que incluiu fortes questionamentos da Casa Branca sobre a operação do porto de Chancay — construído pela empresa chinesa Cosco Shipping — que promete ser o principal centro de conexão da América do Sul com a Ásia.

A disputa pelo Peru

Segundo Bernales, a importância dos investimentos do gigante asiático torna improvável que qualquer pressão potencial dos EUA possa interromper projetos de investimento ou rotas comerciais que já operam legalmente e com sucesso. "Como esses investimentos foram feitos dentro da lei e da Constituição, é lógico que os acordos com a China sejam respeitados, incluindo o investimento no porto de Chancay", observou ele.
Além disso, o analista destacou que o próprio Espá incluiu em seu programa de governo, durante sua candidatura à presidência, a necessidade de "trabalhar com todos os mercados", tanto com a China quanto com os países da ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático), organização que reúne diversos parceiros comerciais importantes para o Peru, como Índia, Tailândia, Japão, Coreia do Sul e Indonésia, entre outros.
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Carlos Aquino, economista e diretor do Centro de Estudos Asiáticos da Universidade Nacional de San Marcos, concordou com a dificuldade que os EUA poderiam ter em interromper o fluxo comercial entre o Peru e a China, visto que "a China é o maior parceiro comercial e o maior investidor, e ambos os países também têm economias complementares".
"O mercado natural para os produtos de mineração, energia e alimentos do Peru é a China, e acredito que continuará sendo ainda mais importante, porque os EUA não podem oferecer um mercado alternativo para esses produtos", enfatizou.
Embora os Estados Unidos não possam se opor aos investimentos chineses já em andamento, poderiam aproveitar o novo alinhamento para tentar bloquear empreendimentos de capital chinês que estejam pendentes de avaliação ou que possam ser apresentados no futuro, explicou Bernales.
Nesse sentido, ele alertou que "em projetos que ainda não estão totalmente desenvolvidos, pode haver pressão para impedir sua execução ou para forçá-los a serem realizados com outros parceiros". Isso poderia acontecer, por exemplo, em potenciais investimentos estratégicos, como interconexões rodoviárias ou ferroviárias com o Brasil, que facilitem o comércio com a Ásia.
Aquino, por sua vez, opinou que, em última análise, poderia ser positivo se "os EUA e a China competissem pelo Peru", buscando ganhar terreno com investimentos significativos no país.
Por ora, ele acredita que o gigante asiático não mudará sua postura em relação ao Peru com a chegada de um novo governo. Pelo contrário, disse ele, Pequim poderá tentar "oferecer mais cooperação econômica" em áreas-chave, como a construção de estradas, portos ou aeroportos.
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