Digitalização inspira o Sul Global: como a Índia encurtou em décadas o caminho da bancarização?

28/07/2026 às 00:460 visualizações
Foto: AVISO: midia estatal russa / Sputnik Brasil
No país que abriga a maior população do planeta, a implementação de qualquer política pública ou mudança estrutural é sempre mais complexa. Apesar disso, a Índia conseguiu integrar aproximadamente 500 milhões de pessoas ao sistema financeiro digital em menos de uma década, além de ter lançado, ainda em 2016, o UPI (Unified Payments Interface, ou Sistema Unificado de Pagamentos, na tradução do inglês), considerado a maior plataforma de pagamentos do mundo. Com quase 20 bilhões de transações mensais, o sistema serviu inclusive de inspiração para o Pix brasileiro.
Outra realização indiana é a inclusão de mais de 99% da população (quase 1,4 bilhão de pessoas) no sistema de identificação civil digital Aadhaar. Com isso, cada indiano possui um número de identificação único, a exemplo da Carteira de Identidade Nacional do Brasil, e, caso seja necessário alterar dados, como endereço ou nome, não é mais preciso comparecer a um órgão público. Além disso, o país já ultrapassou a marca de um bilhão de smartphones ativos e alcançou uma taxa de acesso à Internet de 70%.
Os números colocam a Índia como um dos pioneiros no avanço da infraestrutura pública digital em todo o mundo e a transformam em uma referência para o Sul Global. O analista de geopolítica e correspondente no Brasil do jornal indiano The Hindu, Shobhan Saxena, afirma ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, que isso tem ajudado a derrubar estereótipos sobre a Índia conhecidos mundialmente, além de se tornar um "grande cartão de visita" para a diplomacia do país.

"O país também deixou de ser apenas um exportador de mão de obra em tecnologia para virar um exportador de soluções públicas de tecnologia. Um exemplo é o India Stack, que não tem custo de licenciamento para nações da África e da Ásia e tem fortalecido imensamente o soft power da Índia. Isso também ajuda o Sul Global a construir os seus próprios sistemas digitais, sem criar dependência de big techs sediadas nos Estados Unidos [...]. A Índia conseguiu consolidar sua liderança política entre os países em desenvolvimento e também vejo que há bastante oportunidade para o Brasil ampliar a cooperação com Nova Deli em áreas como pagamentos digitais", afirma.

Para o especialista, a Índia também conseguiu assumir uma voz ativa sobre a importância da tecnologia, inclusive em fóruns globais como o BRICS e o G20. "Dentro do BRICS, defende a criação de redes para pagamentos internacionais e, em vez de vender um produto fechado, a Índia promove um conserto [de alguma infraestrutura digital] para que cada nação tenha soberania sobre seus próprios trilhos digitais e garanta o desenvolvimento social", complementa.
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Digitalização pública e a redução da pobreza na Índia

Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) revelam que a Índia conseguiu retirar mais de 415 milhões de pessoas da pobreza em 15 anos. Conforme Saxena, o desenvolvimento da infraestrutura digital pública do país foi crucial nesse processo e ajudou, inclusive, a reduzir a corrupção na gestão dos programas sociais em um país que concentra quase 18% da população mundial.
"A grande revolução foi um sistema de transferência de benefícios sociais, o Direct for Beneficiaries. Antigamente, o dinheiro dos auxílios passava por dezenas de mãos, com muita burocracia, e parte dele se perdia no caminho por conta da corrupção. Hoje, a verba cai direto na conta do beneficiário e a ajuda chega com precisão cirúrgica a quem realmente precisa, protegendo famílias em situação de vulnerabilidade", diz.
Já com a criação do sistema de pagamentos digitais, Saxena diz que o comércio ganhou um novo impulso, já que elimina taxas e o aluguel de maquininhas de cartão. "Agora, um vendedor de rua ou um motorista de tuk-tuk utiliza o QR Code do UPI, que é o Pix da Índia. Esse sistema processa bilhões de transações todos os meses, sendo a maioria de valores baixos. Isso movimenta o comércio local, elimina a necessidade de troco e evita a circulação de grandes quantias de dinheiro em espécie, algo comum anteriormente", afirma.
O especialista cita dados da consultoria McKinsey, que prevê um aumento de até US$ 1 trilhão (R$ 5,1 trilhões) no Produto Interno Bruto (PIB) somente com a digitalização que, segundo ele, transformou uma população vulnerável em novos consumidores e agentes ativos de mercado. A pesquisadora do Núcleo de Avaliação da Conjuntura (NAC), da Escola de Guerra Naval, Maria Fernanda Császár concorda e aponta ao podcast Mundioka que, para além dos efeitos econômicos, esse processo também amplia o acesso da população a um direito básico: a documentação civil.

"O Aadhaar é um sistema de biometria e identificação da população em um país muito populoso e denso. Isso criava uma dificuldade muito grande para levar o Estado a essas pessoas. Então, para solucionar esse problema, a tecnologia foi criada ainda em 2009. O sistema também prevê a autenticação de serviços e veio acompanhado de políticas de fomento à inclusão financeira, como a abertura de contas bancárias. E, junto com a conectividade, a Índia também tem investido muito em infraestrutura física, como redes de Internet", enfatiza.

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Parcerias com países de baixa e média renda

De acordo com a especialista, a Índia assinou pelo menos 23 memorandos de entendimento nos últimos anos para a cooperação ou implementação de sistemas públicos digitais, a exemplo do UPI, que já funciona em outros oito países graças a essas parcerias. E todos os beneficiados possuem uma característica em comum: são países de baixa e média renda, como Sri Lanka, Nepal, Butão e Ilhas Maurício.
"Eles têm se colocado como um modelo, como se fosse uma planta básica para a integração, o que está muito alinhado à política externa do governo do primeiro-ministro Narendra Modi. A Índia também tem reforçado a importância de pensar a conectividade de forma segura e confiável, de desenvolver uma infraestrutura digital pública resiliente e de ampliar a cooperação com mercados digitais emergentes. Em maio deste ano, tivemos uma reunião virtual da presidência indiana do BRICS em que foi apresentada uma nota conceitual sobre o desenvolvimento conjunto das capacidades digitais dos países", declara.
Por fim, Császár lembra que Nova Deli também se destaca cada vez mais no setor de inteligência artificial, com um crescimento de 263% nas soluções desenvolvidas desde 2016. Conforme a especialista, há ainda uma preocupação do governo indiano com aspectos como ética, segurança e uso responsável da tecnologia.
"É interessante olhar para a inteligência artificial na Índia porque esse desenvolvimento envolve tanto os bens digitais quanto a própria infraestrutura material que vem sendo construída, como plantas para semicondutores e o avanço das tecnologias de hardware, que historicamente não eram o foco da Índia. O país sempre teve uma atuação mais forte no desenvolvimento de software. Então, existe esse cuidado de pensar, novamente de forma holística, o desenvolvimento da inteligência artificial no país", conclui.
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Sputnik Brasil
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