Nascida em Sanharó, no interior de Pernambuco, Veruschka de Sales Azevedo chegou ainda criança em Guarulhos, na Grande São Paulo, para onde os pais se mudaram em busca de melhores oportunidades de trabalho. A mãe trabalhava como empregada doméstica e o pai era caminhoneiro.
Em casa, com outros seis irmãos, a rotina era dividida entre os estudos e as responsabilidades com os mais novos. Desde cedo Veruschka precisou lidar com as dificuldades financeiras da família e começou a trabalhar ainda muito jovem, mas encontrou na educação o caminho que mudou sua vida.
Foi aluna da Escola Estadual Professora Maria Aparecida Rodrigues, no bairro do Pimentas, em Guarulhos. Anos depois, retornou ao mesmo colégio, desta vez como professora de História.

Há duas décadas trabalhou na mesma escola que estudou @Arquivo pessoal/Divulgação
Nele, desenvolveu projetos voltados ao letramento racial, organizou saraus sobre identidade negra e passou a trabalhar, em sala de aula, temas previstos na Lei 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira nas escolas.
Ensinava a questionar desigualdades, conhecer a própria identidade e acreditar que a universidade era um espaço possível para jovens da periferia. É por esse trabalho que será lembrada após sua morte, em 11 de julho de 2026, aos 52 anos – dois anos após ser exonerada pela Secretaria Estadual de Educação, em um processo considerado “contestável” por colegas.
Seu legado motivou a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo a aprovar, no último dia 13, uma Moção de Aplausos em homenagem póstuma à educadora. No documento, a deputada estadual Monica Seixas (PSOL), do Movimento Pretas, destaca a atuação da professora em defesa da educação pública, da luta antirracista e da formação crítica de estudantes.
“Minha mãe amava lecionar. Foi a missão que ela encontrou aqui na Terra. Desde criança dizia que seria professora e ensinava as outras crianças da vizinhança a ler e escrever”, lembra a filha Rayssa Sales, 22.
Aprendendo e ensinando
Com dedicação, Veruschka ingressou no curso de História na Unesp (Universidade Estadual Paulista), no campus de Franca, no interior de São Paulo, em 1994. Lá se graduou e concluiu o mestrado em 2001. Mais tarde, em 2016, tornou-se doutora em História pela PUC-SP.
Quando a jornalista e correspondente da Agência Mural Gabrielly Souza, 23, moradora do bairro do Pimentas, lembra das aulas de História que teve com Veruschka no 9º ano, não é uma data ou um fato específico que vem à memória. O que permaneceu foi a forma como a professora conduzia as discussões em sala de aula.

A professora Veruschka com os alunos em aula sobre educação antirracista @Arquivo pessoal/Divulgação
“Eu achava as aulas dela o máximo, porque estimulavam o nosso senso crítico. Foi com ela que comecei a refletir sobre racialidade, feminismo e outras questões sociais. A Veruschka ajudou a construir a base da minha consciência crítica e da minha militância”, conta
O relato se repete entre diferentes gerações de estudantes. Para muitos deles, ela ia além dos livros de História: incentivava debates sobre democracia, desigualdade, identidade negra e direitos humanos, além de estimular jovens da periferia a enxergar a universidade como um caminho possível.
“Se hoje sou professor, foi porque ela me deu oportunidade. Se estou na graduação, é porque ela me ensinou o que era necessário. Se eu sou o homem que sou é porque tive uma bagagem muito forte na escola”, conta o ex-aluno Henrique Saraiva, 19, graduando em biologia e professor de cursinho popular.
O jovem conheceu Veruschka na escola e fez parte do Sarau Resistência que, lembrado por diversos ex-alunos, tornou-se uma das marcas da atuação da educadora. A cada edição, estudantes pesquisavam sobre personalidades negras e apresentavam poemas, músicas e peças de teatro.
Mais do que professora da rede estadual por 25 anos, Veruschka também atuou na Associação Nacional de História (ANPUH-SP), integrou o movimento sindical docente e coordenou o Núcleo Mabel Assis – um cursinho popular da UNEafro Brasil, voltado ampliar o acesso de jovens negros e periféricos ao ensino superior, que funciona no campus da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) de Guarulhos.
Uma professora formada pela escola pública
A relação de Veruschka com a escola pública começou antes de ela se tornar professora. Estudante da rede estadual, ela encontrou nos professores que teve o incentivo para buscar uma vaga na universidade. Anos depois, retornou à mesma escola onde estudou como educadora, com a intenção de ampliar os caminhos de outros jovens.
“Ela sempre acreditou que a educação tinha mudado sua vida e que podia mudar a vida de outras pessoas”, afirma a professora Fabiana de Abreu, amiga e colega de trabalho por quase duas décadas.
Para Fabiana, Veruschka ampliava o repertório dos estudantes ao apresentar autores, histórias e perspectivas que muitas vezes não apareciam no cotidiano escolar – como convidá-los a ler obras da consagrada autora Maria Carolina de Jesus, que trabalhou como carroceira e morou na favela do Canindé, na zona norte de São Paulo.

Veruschka e Fabiana eram amigas de docência e lutas pela educação @Arquivo pessoal/Divulgação
A assistente social Vera Aparecida dos Santos, 56, que conheceu Veruschka em movimentos sociais e no cursinho popular Mabel Assis, lembra que a atuação da professora tinha como objetivo ampliar as possibilidades dos estudantes da periferia.
“A maior contribuição que ela teve na minha vida foi fazer com que eu enxergasse o meu potencial e o colocasse a serviço da comunidade”, diz. “A Veruschka vinha desenvolvendo um trabalho de combate ao racismo e empoderava os alunos para pensar na universidade, porque isso não era uma realidade para muitos jovens da periferia”.
Esse incentivo se reflete na trajetória de ex-alunos. Thiago Jesse Santana Gomes, 18, estudante de Filosofia na USP (Universidade de São Paulo), atribui à professora parte da confiança que teve para prestar vestibular. “Ela dizia que eu era um menino de ouro e que conseguiria fazer tudo o que quisesse.”
O professor de filosofia Diego de Freitas, 35 anos, morador do bairro do Pimentas, era amigo de Veruschka e conta que ela defendia uma educação construída em conjunto com os estudantes e voltada para a transformação social.
“Ela nunca ia se enquadrar no modelo enlatado de slides prontos [adotado pela rede estadual na gestão do governador Tarcísio de Freitas, do Republicanos]. Sempre lutou por uma educação de autonomia, em que o professor e os estudantes desenvolvem juntos uma educação pautada na transformação social.”
A convivência também permitiu que Diego conhecesse a professora para além da atuação profissional: ela foi madrinha de seu casamento. “Sempre nos alertou para tantas formas de consciência que eram necessárias, como a consciência de classe, de gênero e racial. Quem teve a amizade da Veruschka também tem consciência da grandeza dela. Era uma mulher gigante em tudo o que fazia.”
Trajetória marcada por conflitos
Depois de mais de duas décadas na mesma escola, projetos realizados e gerações de estudantes impactadas por sua atuação, Veruschka passou a enfrentar conflitos dentro da unidade onde trabalhava. O embate culminou em sua exoneração pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, em maio de 2024.
Em texto publicado pelo Diplomatique Brasil, jornal com o qual colaborava, Veruschka afirmou que a decisão interrompeu sua trajetória como servidora pública e teve impactos profundos no seu futuro.
“Depois de uma vida dedicada à docência, me vi destituída do direito de me aposentar, punida por lutar por uma educação pública, gratuita e democrática, que pudesse incluir todos os estudantes em sua diversidade de vida. Hoje me encontro impedida de fazer concurso público no estado onde moro, além de ter desenvolvido uma doença crônica, provocada pelo trauma da demissão”.
Segundo o relato publicado pela professora, os primeiros conflitos começaram após ela questionar a direção da escola sobre verbas recebidas e cobrar mais transparência. Veruschka afirmou que, a partir disso, passou a enfrentar dificuldades relacionadas à organização do trabalho, como mudanças nos horários de aulas.
Ela e a professora Fabiana de Abreu Machado – que também foi exonerada em 2024, três dias antes da amiga – respondiam a processos administrativos instaurados após conflitos com a direção da escola.
A defesa de Fabiana sustenta que as acusações tinham relação com os projetos que realizavam, ligados aos direitos humanos e ao combate ao racismo, e com as reivindicações por uma gestão mais democrática.
A reportagem teve acesso ao recurso impetrado pelo advogado da Fabiana, que questiona judicialmente a decisão da Secretaria da Educação.
Segundo o documento, o processo administrativo foi instaurado em outubro de 2017 e a demissão publicada apenas em maio de 2024, ultrapassando o prazo de cinco anos previsto no Estatuto dos Servidores Públicos do Estado de São Paulo para a aplicação da penalidade de demissão. A defesa também argumenta que o fato que deu origem ao processo já havia sido objeto de uma punição anulada pela administração.
‘Fomos condenadas por exercer demais a nossa profissão, condenadas por realizar demais aquilo que juramos fazer quando pegamos o nosso diploma’
Fabiana, professora
Segundo Rayssa Sales, filha de Veruschka, a decisão final da Secretaria da Educação foi mais rigorosa do que a recomendação inicial do processo.
“A Procuradoria Geral do Estado tinha decidido por um afastamento de três meses sem salário, essa foi a decisão da primeira parte do processo. Quando chegou na mão do secretário de Educação, Renato Feder, ele mudou a decisão e transformou o afastamento em exoneração. Os advogados estão recorrendo e o processo vai seguir.”
No parecer final, a Secretaria da Educação considerou procedentes acusações como insubordinação, incentivo à participação de estudantes em manifestações contra a direção, tumulto em reuniões pedagógicas, descumprimento de orientações administrativas e falhas relacionadas ao lançamento de notas.

A Secretaria da Educação informou que as servidoras responderam a processos administrativos conduzidos de acordo com a legislação vigente, com garantia do direito à ampla defesa. Segundo a pasta, as penalidades aplicadas seguiram as decisões administrativas de cada processo e também houve responsabilização da então direção da unidade escolar, o que, de acordo com o órgão, demonstra uma análise ampla e sem direcionamento específico às professoras.
Agravamento de problemas de saúde
Depois da decisão que encerrou sua trajetória como professora da rede estadual, pessoas próximas relatam que Veruschka passou a enfrentar um período de maior fragilidade física e emocional.
“Ali começou o sofrimento. Ela começou a adoecer muito. Desenvolveu uma dor de estômago que não tinha mais fim”, conta a psicóloga Iyalorisa Claudia Ty Oya, que acompanhou Veruschka durante anos como companheira de lutas sociais.

A professora junto com a Iyalorisa Claudia em evento @Arquivo pessoal/Divulgação
“A exoneração teve um impacto tremendo. A gente percebia que a saúde dela ia se comprometendo cada vez mais, aparecendo coisas que ela não tinha”, lembra. “Eu nunca entendi e nunca vi um elemento condenatório que justificasse a exoneração. Como servidora, achei que o processo foi muito rápido.”
O estudante de Filosofia Thiago era aluno de Veruschka na época da exoneração, no ensino médio, e conta que a saída repentina e abrupta da professora o desmotivou a seguir os estudos. “Eu nunca mais fui o mesmo depois daquilo, acho que eu me perdi de mim e que muitas das minhas esperanças sumiram”.
Só quando entrou no cursinho Mabel Assis, em 2024, coordenado por Veruschka, é que retornou o desejo por seguir estudando.
Esse foi sem dúvida seu maior legado: ajudar as pessoas a superarem limites e encontrarem na educação um caminho de possibilidades para o presente e o futuro.
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