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Texto: Mauro Bellesa*
Em um cenário de crescente pressão sobre os orçamentos públicos destinados à ciência e à educação superior, a diversificação das fontes de financiamento tornou-se uma das principais estratégias para garantir a continuidade de pesquisas de longo prazo, projetos inovadores e ações de impacto social. Embora as universidades públicas brasileiras continuem tendo no financiamento estatal seu principal sustentáculo, especialistas apontam que a capacidade de captar recursos complementares (provenientes da filantropia, de empresas, fundações e editais nacionais e internacionais) passou a ser um componente estratégico para fortalecer a autonomia universitária e ampliar sua capacidade de responder aos desafios científicos e tecnológicos do País.
O curso Mobilização de Recursos para a Universidade e Desenvolvimento de Relações Institucionais, que será realizado de 3 de agosto a 2 de outubro no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, pretende contribuir para reduzir essa lacuna técnica na USP. A iniciativa é uma realização pioneira do Grupo de Estudos de Modelos de Apoio à Ciência (Gema Filantropia), sediado no IEA-USP, em parceria com a Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR) , com apoio da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP, da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP e do Grupo de Trabalho de Filantropia da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
A expectativa é que a capacitação de servidores técnicos e administrativos, docentes e gestores da Universidade permita consolidar competências capazes de ampliar a atração de investimentos e fortalecer a sustentabilidade financeira das unidades acadêmicas.
Concebido como projeto piloto, o curso terá como alunos profissionais da USP envolvidos na elaboração de projetos para editais, desenvolvimento de campanhas de doação, gestão de convênios, relacionamento com financiadores e articulação entre Universidade, setor público, iniciativa privada e organizações da sociedade civil.
O corpo docente reúne pesquisadores e profissionais com ampla experiência em gestão universitária, filantropia e terceiro setor. As aulas e outras atividades estarão a cargo de Andréa Martini Pineda, Eduardo Szazi, Fernando do Amaral Nogueira, Gerson Damiani, Guilherme Ary Plonski, Marcos Kisil, Maria Dolores Montoya Diaz e Paula Fabiani.
Promoção de uma cultura organizacional
A proposta parte do reconhecimento de que a captação de recursos deixou de ser uma atividade eventual para tornar-se um requisito institucional incontornável. Mais do que buscar financiamento para projetos específicos, o objetivo é desenvolver uma cultura organizacional baseada no planejamento estratégico, na construção de relacionamentos duradouros com financiadores e na adoção de práticas éticas e transparentes de desenvolvimento institucional.
Segundo os organizadores, há hoje uma demanda reprimida por profissionais especializados nessa área no Brasil. Enquanto universidades de referência no exterior mantêm estruturas permanentes dedicadas ao desenvolvimento institucional e à filantropia, com equipes altamente qualificadas, muitas instituições brasileiras, destacaram, ainda que dependem de ações isoladas, sem padronização de processos ou formação específica.
A iniciativa também procura reforçar uma visão cada vez mais presente nas universidades de excelência: a autonomia universitária não depende apenas da garantia do financiamento público, mas também da capacidade institucional de gerar recursos adicionais que ampliem as possibilidades de investimento, especialmente em pesquisas de alto risco, caráter interdisciplinar ou maturação prolongada, que frequentemente encontram maior dificuldade de financiamento pelos mecanismos tradicionais.
O coordenador do Gema Filantropia, Guilherme Ary Plonski, ex-diretor e professor sênior do IEA e da FEA-USP, ressaltou que a USP tem uma tradição de busca ativa de recursos complementares àqueles destinados pelo Tesouro estadual. “Em 2024, por exemplo, 30% das receitas totais provieram de recursos das agências de fomento, fundações de apoio à Universidade, receita própria e convênios.”
Incentivo à filantropia dedicada à ciência
No entanto, diferentemente de outros países, no Brasil ainda não existe uma tradição consolidada de filantropia voltada à pesquisa científica em geral, considerados todos os campos do conhecimento, disse Plonski. “Os recursos de caráter filantrópico favorecem pesquisas de alto risco e longo prazo. E podem contribuir para atenuar as oscilações recorrentes das fontes públicas de financiamento, tensionadas outras demandas legítimas e sujeitas aos humores dos governantes.”
Ele destacou que é particularmente oportuna a realização da primeira edição do curso num momento delicado da trajetória das universidades públicas paulistas, quando “o modelo exitoso de autonomia financeira, vigente desde 1989, está em fase de reformulação, à luz da reforma tributária nacional. Mas o interesse pela temática ultrapassa o âmbito paulista, por isso o Gema Filantropia está alinhado com a SBPC para, a partir dos aprendizados resultantes da primeira edição, elaborar um programa de capacitação de caráter nacional”, afirmou.
Um dos diferenciais do curso é aproximar a comunidade universitária dos principais atores brasileiros especializados em investimento social privado e filantropia voltada ao interesse público. Nesse sentido, além de pesquisadores da USP, participam da iniciativa especialistas ligados à ABCR, ao Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis) e ao Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife), organizações que atuam na profissionalização da captação de recursos e na promoção da cultura de doação no País.
Essa aproximação pretende facilitar futuras parcerias entre a Universidade e organizações filantrópicas, além de ampliar o conhecimento sobre oportunidades de financiamento e sobre as boas práticas adotadas internacionalmente.
Outro objetivo é reduzir a fragmentação das iniciativas atualmente existentes em diferentes unidades da USP. Para isso, o programa prevê o desenvolvimento de subsídios para a criação de um banco de dado colaborativo destinado à mobilização de recursos, permitindo compartilhar informações, experiências e potenciais financiadores.
Ao longo do curso, os participantes terão contato com conceitos fundamentais de filantropia aplicada à ciência, técnicas de prospecção de doadores, elaboração de propostas para financiadores públicos e privados, gestão do relacionamento com parceiros e demonstrações de como estruturar casos de apoio financeiro.
Também serão abordados aspectos jurídicos e contábeis relacionados a doações, patrocínios e convênios, tema considerado essencial para garantir segurança institucional e transparência na aplicação dos recursos captados.
Metodologia privilegia atividades práticas
Com carga horária de 60 horas, o curso foi estruturado em 15 encontros, sendo dois presenciais e 13 online. A proposta pedagógica combina aulas expositivas, estudos de caso, palestras com especialistas e atividades práticas voltadas à aplicação imediata dos conhecimentos.
O eixo central da formação será a elaboração de um trabalho final propositivo na forma de um Plano Estratégico de Captação de Recursos para uma instituição real, de preferência a própria unidade do participante ou uma organização parceira. O trabalho será desenvolvido ao longo do programa com acompanhamento de monitores e orientação especializada. Os critérios para aprovação serão ter 75% de frequência e apresentar trabalho final propositivo condizente com os critérios estipulados pela organização.
A metodologia inclui ainda simulações de reuniões com potenciais doadores, elaboração de editais, exercícios e simulações de negociação, buscando reproduzir situações enfrentadas por profissionais que atuam na área.
Ferramentas digitais também fazem parte das atividades. Os participantes utilizarão plataformas de gestão de relacionamento com financiadores, estratégias de marketing digital, campanhas de crowdfunding e ambientes virtuais colaborativos, aproximando a capacitação das práticas contemporâneas de desenvolvimento institucional.
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* Da Divisão Técnica de Comunicação do IEA-USP




