
Foi assim em Mar e Sertão – ensaio sobre o espaço no pensamento brasileiro. Volta assim em Sobre hemisférios – capítulos de geopolítica brasileira, que vai participar, no 15 de agosto de 2026, do ciclo de reabertura da Casa de Sérgio Buarque de Holanda, aquela da Rua Buri, 35, no bairro do Pacaembu, em São Paulo, às voltas das comemorações dos 90 anos de Raízes do Brasil, do mestre maior, morador daquele logradouro de 1957 a 1982.
Luiz Feldman participa dessas importantíssimas comemorações por Mar e Sertão e Sobre hemisférios. O que indica a dimensão de seu brilho pessoal e os predicados de seus livros – Mar e Sertão e Sobre hemisférios.
Um e outro não vêm simplesmente passíveis de somente se ler, reler, meditar, entender. São labirintos. Obra de Medusa. Coisa de artista. Feitos intencionalmente mosaicos. Bem ao gosto de mineiros. Coisa de oleiro. Manha de ourives. Aquele tipo de artista que esconde segredo a sua infinita habilidade de notar e encontrar o que ninguém vê e trazer ao público o que ninguém espera: ouro, pepitas, luz e brilho. Ou, simplesmente, no caso em questão, formas inovadoras de contemplação da vida, do tempo e da história.
Sobre hemisférios vem assim. Um primor. Luz aos bons ouvidos. Viagem guiada pela história da ação exterior do Brasil do Império à República. Meditação documentada. Calculada. Bem aos moldes de nossa melhor historiografia diplomática e das relações internacionais que sempre auscultou as cartografias mentais de um país, o Brasil, que precisou encontrar pontos ótimos de atuação exterior. Para o bem de todos e para o bem seu próprio.
Luiz Feldman, diplomata de profissão e artista por vocação, prefere geopolítica brasileira. Soa mais sério, mais técnico, mais diplomático. Para mim, sigo convicto, lendo e relendo o livro, tratar-se de circunstâncias. Bem ao estilo de Ortega y Gasset (1883–1955). Que aduzia, sem temores, “Yo soy yo y mi circunstancia, y si no la salvo a ella no me salvo yo”. Abraço-me a circunstâncias porque entendo que o Brasil, na senda de Jules Michelet (1798–1874), assemelha-se a um rosto, um semblante, uma pessoa.
Algo vivo e contingente, portanto. Que luta pra sobreviver. Guerreando ante si e seus ímpetos e ante as suas circunstâncias. Vivendo sempre em ação e reação diante de sua área de atuação. O mundo inteiro, ao todo ou em miniatura. Um mundo que, dependendo, contrai e expande, agride e afaga, sem antecipar-se. Sempre surpreendendo.
Chegando sem licença e partindo sem desculpas nem adeus. Baralhando e modificando, assim, intenções. Impondo, assim, ao prático – estadista, soldado, diplomata e também ao empresário, observador, professor e cidadão – visão, compreensão, estratégia e ação.
O núcleo da investigação de Luiz Feldman reside na ação desses homens práticos que, ao fim das contas, construíram o Brasil. A tese geral subjacente ao seu percurso segue bastante clara: mudar ou fenecer. Dilema das nações. Dilema do Brasil. Que Luiz Feldman aborda sem assombro. Dando ao Brasil a condição de ator, agente e motor. Ator que muda. Agente que age. Motor que calibra a agência e a mudança. Como em jogos de espelhos, jogos de escalas, teatro de sombras, jardins de caminhos que se bifurcam. Que na investida de Luiz Feldman vão formar quatro estações: América do Sul, Hemisfério Ocidental, Trópico e Hemisfério Sul. Quatro escalas de atuação brasileira que ele identifica como capítulos de geopolítica brasileira.
Uma geopolítica, por definição, com intenções e intencionalidades. Intenções e intencionalidades construídas séculos a fio e postas em serviço de meados do Oitocentos a meados do Novecentos pelas mãos do Paulino José Soares de Souza (1807–1866), Joaquim Nabuco (1849–1910), Gilberto Freyre (1900–1987) e Afonso Arinos de Mello Franco (1905–1990).
Paulino José Soares de Souza abre a cena. Luiz Feldman relembra que ele, Visconde do Uruguai, num par de anos do século 19, lançou-se ao Prata, percebeu os dilemas brasileiros ali, mensurou a dimensão dos problemas, indicou soluções, reconheceu as virtudes e os limites da atuação de todos os envolvidos e produziu a melhor e mais curada estratégia brasileira frente ao desafio. Primeiro em ideia. Depois em ação. Ideia e ação que conduziram o Brasil a reconhecer ali, na América do Sul, na América Meridional, no Sul do Meridiano, o essencial de sua grandeza existencial através de um cálculo, hoje, simples: aquele que identifica que nenhum dos vizinhos brasileiros no Prata pretende mudar de logradouro; impondo-se, assim, a convivência. Circunstância e destino. Não há saída. Luiz Feldman convence-nos e reforça essa primazia de Paulino José Soares de Souza e vai além demonstrando que essa convicção, nascida ali, veio pra ficar e constituiu permanências da ação exterior brasileira.
Um leitor de olhos atentos à circunstância brasileira na América do Sul pode supor – e terá razão – que Luiz Feldman não descobre o fogo ao recuperar essa atuação de Paulino José Soares de Souza. Luiz Feldman, de fato, não modifica paradigmas nesse campo. Mas, inquestionavelmente, revigora o conjunto das interpretações políticas e diplomáticas sobre o período e sobre a acurácia do Visconde do Uruguai. Que sai do livro remoçado. Escrutinado em novas lentes e sob nova luz. Revisitado em seus momentos decisivos, mas também naquelas suas passagens esquecidas pela crítica e pelo tempo. Eis o mérito de Luiz Feldman nesse primeiro capítulo de seus hemisférios.
Adiante ele parte para afirmação de outra circunstância: o Hemisfério Ocidental.
Foi na belle époque. Naquele fin de siècle. Quando a segunda Revolução Industrial sacudia e alterava tudo impondo a todos novas ações, reações e prioridades de todos e do Brasil. Foi quando, portanto, o País precisou repensar suas fronteiras mentais e alargar a sua área de atuação para além do Prata e da América do Sul. Especialmente porque os pontos cardeais da nova ordem mundial migravam da Europa para os Estados Unidos e os Estados Unidos viravam protagonistas sinceros nesse novo mundo em construção. Não simplesmente por seu poder bélico, econômico e material – hard power, como dir-se-ia –, mas, forçosamente, pelo seu pulsar de ideias. Mais iluministas, mais iluminadas, mais liberais, mais plurais e fiadores do novo multilateralismo que começava a viger.
Foi aí que o Brasil precisou mudar e mirar. Primeiro em apreensão. Depois em imaginação. Adiante em ação. Começando pelo Barão.
Foi, de fato, o Barão do Rio Branco quem captou primeiro aqueles novos tempos do mundo e foi dele a propulsão de mover-se as linhas de prioridade da ação exterior brasileira de Paris e Londres para Washington e Nova York.
Foi bom. Oportuno. Necessário. Mas foi pouco. Mancava algo. Todos sabiam. Inclusive o Barão. Que suspeitava faltar o essencial. Algo verdadeiramente primordial. Algo sutil. Que poucos conseguiram apreender no momento nem depois que foi a inclinação do Brasil ao Hemisfério Ocidental pelas mãos de Joaquim Nabuco.
Não foi pouco. Nem só símbolo. Foi ação.
Joaquim Nabuco foi homem superlativo e de muitas e importantes ações e facetas. Ao menos três delas, como demonstra Luiz Feldman, foram decisivas para o alargamento da cartografia mental da ação exterior brasileira daquele período. Primeiramente em suas arbitragens junto ao rei da Itália. Depois na formalização pragmática da aliança brasileira pelo Ocidente. Por fim, na participação brasileira em Haia.
Nesse capítulo da geopolítica brasileira Luiz Feldman começa a apresentar maiores pepitas. Aqui ele contribui muito, renova e amplia substancialmente a totalidade da compreensão sobre a atuação mais que decisiva de Joaquim Nabuco na ampliação do arco de visão do lugar do Brasil no mundo. Impondo ao país mirar no Prata, mas também mirar no Hemisfério Ocidental.
Prata e Ocidente. Duas escalas, duas geografias. Mas tem mais. A terceira indicada por Luiz Feldman foi a do Trópico.
Antes de tudo, cumpre reconhecer que, de todos os cadinhos da trama de Luiz Feldman, esse vai longe o mais ousado e pertinaz. Nele o nosso ourives reabilita corajosamente a contribuição de uma personagem quase proscrita do ideário brasileiro: Gilberto Freyre.
É curiosíssimo como esse complexo de vira-latas vigente amplificado por essa bien pensance de cunha identitária e woke faz de tudo para aniquilar Gilberto Freyre de nosso ideário mental e, consequentemente, conduz gerações inteiras a ignorar ou simplesmente deixar de ter contato com esse inequívoco monumento intelectual que o mestre Antonio Candido considerava, tão somente, “o maior intelectual brasileiro do século 20”.
Luiz Feldman move mundos e reabilita a personagem. E o faz com vigor. Especialmente ao avançar uma das facetas menos conhecidas do mestre pernambucano: a sua dimensão internacionalista.
Nesse capítulo Luiz Feldman não apresenta pepitas. Ele nos oferece ouro puro, de muitos quilates e grandes gramaturas.
Só por isso, só por este capítulo, Sobre hemisférios mereceria a condição de peça indispensável na biblioteca de quem se interessa pelo Brasil e pela ação exterior brasileira. Gilberto Freyre – sabe Luiz Feldman e sabemos todos nós – precisa ser revisitado com a dignidade que a sua obra impõe.
Indo ao propósito, numa mirada laboriosa, Luiz Feldman faz-nos perceber a agudeza internacionalista do autor de Casa-Grande e Senzala na imaginação do lugar ideal para o Brasil no mundo a partir dos anos de 1930–1940, especialmente após 1945, quando o mundo ia complexo, fragmentado e em pedaços após o Armagedon.
Naquele momento, ninguém sabia muito bem o que fazer nem dizer. Menos ainda sobre qual o melhor lugar para o Brasil no mundo. Mesmo no Itamaraty – instituição mais constante do estado brasileiro – a carecia de ideias e rumos nesse assunto parecia oceânica.
Nesse vazio, Gilberto Freyre, ensina-nos Luiz Feldman, foi quem indicou as melhores saídas, ampliou a qualidade do debate e avançou a ideia de Trópico, transvestida na noção de lusotropicalismo.
Seria desnecessário dizer, mas, pela conjuntura hodierna virou imperativo relembrar, que o lusotropicalismo foi inserido no index das interpretações da ação exterior brasileira. Virou sacrilégio mencioná-lo.
Mas, quando a ideia surgiu, ela lançava luz sobre o assunto mais candente do momento que dizia respeito à problemática da colonização/descolonização. Problemática nada trivial, que Gilberto Freyre, com muita autoridade moral e intelectual, procurou aclarar.
À vrai dire, Gilberto Freyre foi dos primeiros a propor geometrias variáveis na apreciação, compreensão e superação da problemática colonização/descolonização. Em seu complexo jeitão pernambucano, provinciano, cosmopolita e mundial, ele considerava o assunto complexo demais para ser deixado nas mãos dos burocratas de Washington, Nova Iorque, Genebra, Londres, Moscou e Paris.
Nesse caminho, ele concebia que algumas colônias – entre elas, as lusitanas – talvez merecessem continuar colônias e depositárias do sistema de tutelas formulado pelas Nações Unidas. Nada disso ia sem interesses. Caso feito assim, seguia o autor de Casa-Grande e Senzala, o Brasil poderia levar imenso proveito da situação firmando-se definitivamente no Atlântico e projetando a sua liderança positiva ao encontro das colônias lusitanas na África e além.
Post factum virou impossível recompor com equilíbrio os termos dessa discussão. Tudo que lembra ou sugere colonialismo virou opróbio. Out of the question. Mas recuando no tempo com vagar e retidão, como faz muito bem Luiz Feldman, fica evidente que – à época e ainda hoje – o assunto continua em aberto.
Em contrário, note-se que, por mais que o historiador Luiz Felipe de Alencastro – e outros – venha há mais de cinquenta anos se desdobrando em evidenciar a formação do Brasil no Atlântico Sul, a concretização da presença brasileira nessa escala de atuação continua desparelha, residual e tópica.
Caso as ideias de Gilberto Freyre tivessem sido implementadas, essa lacuna estaria superada e o Trópico seria, efetivamente, outra área real e positiva de atuação da ação exterior brasileira.
É verdade que os militares, após 1964, tentaram, sem sucesso, sob inspiração de Gilberto Freyre, implementar essa ideia na forma de “formação gradual de uma Comunidade Afro-Luso-Brasileira”. Mas foi só lançá-la que veio à tona, em contraponto, a alternativa Hemisfério Sul, outro objeto de análise de Luiz Feldman.
Prata, Hemisfério Ocidental, Trópico e, agora, Hemisfério Sul.
Essa quarta dimensão da geopolítica brasileira proposta por Luiz Feldman esteve ancorada na Política Externa Independente levada a cabo por San Tiago Dantas e Afonso Arinos de Mello Franco. Trata-se de um capítulo vastamente visitado, mas que, agora, mais uma vez, recebe novos contornos por parte de Luiz Feldman.
A maior contribuição de Luiz Feldman nesse capítulo talvez resida em sua operação metodológica. Aqui Luiz Feldman escolheu analisar a emergência da concepção de Hemisfério Sul através do acompanhamento da atuação do ministro Afonso Arinos nas sessões da Assembleia Geral das Nações Unidas em 961 e 1962. E fez bem. Deu certo.
E, com isso, concluiu – ou quase – a sua saga de capítulos de geopolítica brasileira iniciada com o Visconde do Uruguai e finalizada com Afonso Arinos.
Luiz Feldman hesita em concluir por razões de estilo, temperamento e personalidade. Luiz Feldman é, antes de tudo, mineiro. Mineiro dos bons. Depositário daquela gente matreira. Sapiente, discreta e sábia que costuma deixar o melhor subentendido. Lembre-se Tancredo Neves, lembre-se Itamar Franco, lembre-se Pedro Nava, lembre-se Drummond, lembre-se o próprio Afonso Arinos.
De toda sorte, aprende-se muito com Sobre hemisférios. Sobre isto não restam dúvidas. Mas sai-se do livro com certo mal-estar. Nem positivo nem negativo. Mal-estar. Desconforto. Perturbação. Pois, após ler e reler o livro, firma-se na alma a profunda convicção de que essas importantíssimas páginas da ação exterior brasileira recompostas por Luiz Feldman seguem hoje borradas, riscadas, arrancadas. Uma lástima. Sem dramas, mas com muita comiseração, passamos a notar que a força e a lucidez das personagens mobilizadas por Luiz Feldman desapareceram. Não existem mais. Parecem, hoje, apenas cenas de filmes antigos sobre passados distantes, esquecidos no tempo. O que exatamente resta dessa riquíssima tradição brasileira? Luiz Feldman não diz nem projeta dizer. Deixa em suspenso. Como charada. Para meditação. A resposta pode ser amarga. Mas precisa ser ofertada. Ela segue escondida, a sete chaves, em lugar distante e insondável. Seguramente na terceira margem do rio. Onde Luiz Feldman parece estar se preparando para navegar.
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