

A obra se desenvolve a partir da experiência de um jovem que decidiu romper com os valores sociais de uma vida familiar marcada por conforto, acesso e privilégios e buscar outra forma de ser e existir fora de casa. Manifesto traz a trajetória do artista e filósofo “de rua” Eduardo Marinho, expressa na ritualística dramática do teatro, com características documentais e propõe reflexões complexas, ora com leveza, graça e humor, ora com a densidade que o tema pede.
Trata de liberdade de escolha, responsabilidade, consequências sobre os atos, consumo excessivo, identidade, solidariedade, humanidade, preconceitos, consciência e, porque não, de brasilidade. Traz as realidades e anseios passados conectados à construção de futuro a partir de instituições pretensamente sólidas no País, como Banco do Brasil e o exército brasileiro, passando pelas compreensões do “senso comum” que relacionam questionamentos, pluralidade de compreensões e diferenças comportamentais com desajuste social, sofrimento mental e loucura.
Conflitos com os pais, discordância de instituições, naturalização da violência e negações diversas fazem parte da sustentação da proposta sensível de nos fazer pensar sobre nossas escolhas, sobre a capacidade de mudança a partir da nossa realidade e as possibilidades de, com isso, influenciarmos a sociedade no caminho de uma vida com sentido.
Criações e soluções cênicas geniais são constantes e trazem ao espetáculo a sensação de estarmos diante da beleza e da grandeza da liberdade e da capacidade humana de criar. À primeira vista arranjos “simples”, são respostas sofisticadas e sensíveis próprias daqueles que às vezes precisam se virar com pouco, muito pouco. E ainda que a criação possa e deva brotar a partir das melhores condições, é também na escassez e na falta que ela pode emergir, conhecemos muito bem este caminho. Criações teatrais totalmente amalgamadas com a própria história e trajetória de Eduardo Marinho retratada na peça.
A mistura entre cultura material icônica, representada pela Kombi Celestina, os varais que têm presença nas residências populares brasileiras, fruto de uma relação cotidiana e afetiva com a lavagem de roupas, se mesclam com a produção visual e verbal escrita, que traz nos inícios questionamentos, depois propostas de deslocamentos de percepções e implicações abdutivas sofisticadas, suscitando uma alteração das nossas crenças arraigadas pelo hábito, promovendo quiçá, mudanças de consciência e, com elas, novos e melhores comportamentos.
Lee tem presença magnética na cena, quer pela voz potente, quer pela atuação magistral, que nos envolve e nos toma sensivelmente. Seu primeiro trabalho autoral, um monólogo, já nasce irretocável. É impossível desviar a atenção porque cada segundo é carregado de expressão e significados, tornando o palco, aberto e em diálogo com a plateia, um espaço que une o sensível, o existencial e o simbólico a uma só vez.
Manifesto tem trilha sonora original assinada por Seu Jorge e Pedro Semeghini e está em cartaz no complexo cultural Funarte, de quinta a domingo, às 19h30, até o final de agosto. Eu tive o privilégio de vivenciar a estreia de Manifesto, agora convido a todas e todos a assistirem um espetáculo capaz de interromper o fluxo automático dos nossos fazeres, extrair poesia da escassez e nos fazer encarar, com extrema sensibilidade, as escolhas que definem quem somos.
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