
Trocar elevadores por escadas, carros por bicicletas e caminhar até o ponto de ônibus são soluções para incluir atividades físicas no dia a dia. Essas práticas contribuem para aumentar a quantidade de atividade física no cotidiano. O professor Júlio Serrão da Escola de Educação Física e Esporte explica que atividade física é qualquer prática feita que envolve se movimentar, o que “é imensamente superior a não fazer nada”.
Diferentemente da atividade, o exercício físico é a prática de atividades sistematizadas em um treino, por exemplo, treinamento de voleibol, futebol, musculação e corrida, como detalha Serrão. Por outro lado, para ter uma vida ativa e considerada mais saudável é necessário uma combinação entre as duas formas de movimento, já que realizar uma e não a outra não é suficiente.

O professor defende que uma vida ativa consiste em estar em movimento em grande parte do dia, parte dividida em dois momentos: “A vida ativa significa estar em movimento durante grande parte do dia e, em uma frequência menor, se desafiar. E aí entra o exercício. Uma vida saudável pressupõe que você caminhe mais, suba mais escada, use menos elevador, use menos o carro, use mais bicicleta, se exercite mais, fique menos tempo sentado”.
A Organização Mundial da Saúde define que adultos precisam praticar, por semana, de 150 a 300 minutos de atividade física de intensidade moderada ou de 75 a 150 minutos de atividade vigorosa. Porém, a Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) 2006–2024 identificou que, em 2024, 33,3% da população adulta brasileira apresentava prática insuficiente de atividade física, em comparação ao ano de 2013, no qual a parcela correspondia a 48,7% da população.
Os dados da Vigitel 2006–2024 revelam também que as mulheres praticam menos atividades físicas do que os homens. Em 2024, o porcentual de mulheres com prática insuficiente era 39,7%, já os homens apresentavam 25,7% de atividade não suficiente.
Quem pratica atividade física?

Segundo a pesquisadora Andreia Alexandra Machado Miranda, do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da Faculdade de Saúde Pública da USP, “as mulheres enfrentam desafios adicionais. Muitas ainda acumulam uma dupla ou até tripla jornada, conciliando trabalho, tarefas domésticas e cuidados com filhos, familiares ou outras pessoas dependentes. Isso reduz o tempo disponível para atividades de lazer e autocuidado”.
Andreia é uma das autoras da pesquisa Social inequalities in leisure-time and transport-related physical activity through the lens of intersectionality: 10-year longitudinal study in Brazil. Os dados mostram que no período de dez anos a prática de atividade física ao ar livre cresceu, porém, Andreia ressalta que as desigualdades também cresceram.
“Os homens brancos com maior escolaridade continuaram sendo os mais ativos durante o tempo livre, enquanto as mulheres pertencentes a grupos raciais minoritários (pretas, pardas, amarelas ou indígenas) e com menor escolaridade apresentaram os níveis mais baixos de atividade física”, afirma Andreia.
A pesquisa publicada pelo International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity utilizou dados da coorte ISA- Atividade Física e Ambiente – que acompanhou moradores da cidade de São Paulo por dez anos (2014–2024). Andreia detalha que a ideia da pesquisa surgiu de uma dúvida que se tornou frequente na literatura científica: como fatores sociais combinados afetam as desigualdades na prática de atividade física.
“A maioria dos estudos analisa fatores sociais como sexo, raça, renda ou escolaridade de forma separada. Nós queríamos entender o que acontece quando essas características se combinam. Por exemplo, será que as experiências de uma mulher negra com baixa escolaridade são as mesmas de um homem branco com ensino superior? A teoria da interseccionalidade sugere que não, porque diferentes formas de desigualdade podem se somar e gerar situações de maior vulnerabilidade”, conta Andreia.
“ A pesquisa reforça a necessidade de políticas públicas voltadas para a redução das desigualdades sociais e para a ampliação do acesso a ambientes favoráveis à prática de atividade física”
Andreia Alexandra Machado Miranda
Um desafio a ser enfrentado: incluir na rotina

Introduzir a prática de atividades físicas na rotina não é fácil, como mostra o estudo de Andreia. “Por isso, é importante ampliar a compreensão sobre atividade física. Nem sempre ela precisa acontecer em uma academia ou em sessões longas de exercício. Pequenas mudanças na rotina, como caminhar parte do trajeto diário, utilizar escadas, fazer pausas ativas durante o dia ou aproveitar espaços públicos próximos de casa, já podem contribuir para uma vida mais ativa”, observa a pesquisadora.
Já o educador Guilherme Leutwiler Gabas, do Centro de Práticas Esportivas (Cepeusp) da USP, defende também que “sabemos que não é necessário praticar uma hora contínua de atividade física para obter benefícios, especialmente quando o objetivo é promover saúde e qualidade de vida”.
No caso dos exercícios físicos, Gabas pontua que “existem programas de treinamento com baixo volume (pouco tempo de prática) que produzem excelentes resultados em diversas modalidades e podem ser facilmente adaptados à rotina das pessoas, seja em casa, em parques ou até mesmo no ambiente de trabalho”.
“A responsabilidade não deve recair apenas sobre o indivíduo”
Ter tempo ou não para fazer uma atividade física depende de fatores que extrapolam o individual. “É importante reconhecer que a responsabilidade não deve recair apenas sobre o indivíduo. Criar condições para que as pessoas tenham tempo, segurança e oportunidades para se movimentar também é uma responsabilidade da sociedade e das políticas públicas”, destaca Andreia Miranda.
O acesso a ambientes seguros e poder praticar atividades físicas é essencial para a pesquisadora, uma vez que quando uma pessoa tem essas condições, “ela está ampliando suas possibilidades de lazer, socialização, autonomia e participação na vida da cidade. A atividade física não é apenas uma escolha individual ou uma questão de saúde. Ela também reflete as condições sociais em que as pessoas vivem”, acrescenta.
Guilherme Leutwiler Gabas acredita que é importante ampliar a divulgação e o acesso à informação sobre os benefícios da prática de atividade e exercícios. “De forma geral, é fundamental fortalecer políticas públicas que garantam à população espaços adequados e orientação profissional para a prática segura e de qualidade de atividades físicas”, adiciona Gabas.
“A atividade física está relacionada à saúde, mas vai muito além disso. Ela também está associada à qualidade de vida, ao bem-estar psicológico, à convivência social, à ocupação dos espaços públicos e até mesmo à redução das desigualdades sociais”
Andreia Alexandra Machado Miranda
Sem atividade física ideal e a importância de orientação
Júlio Serrão divide em três as capacidades fundamentais para uma vida saudável: força, função cardiorrespiratória e flexibilidade. “Esses três pontos estão em doses diferentes em cada tipo de atividade que a pessoa faz. Então, por isso é muito importante que quem vai fazer atividade física tenha orientação de um profissional que conheça cada atividade da pessoa que ela pratica, o que ela tem de benefício”, afirma.
Para o professor, o ideal é praticar alguma atividade física. “Ao contrário do que muita gente pensa, não tem uma atividade física ideal, a melhor atividade. A maioria das pessoas está procurando a bala de prata”, diz o professor. Serrão pontua que é necessário combinar atividades físicas e, principalmente, atividades que a pessoa goste.
“Do que você gosta? Não adianta nada eu falar para você: ‘Olha, faça musculação, que é muito bacana, tem muitos dados científicos que apoiam a prática’, […] se você odeia musculação, a probabilidade disso dar certo tende a zero”. A escolha de uma atividade física tem como elemento central a questão socioafetiva, na qual gostar e sentir prazer em fazer determinada prática influencia na maior adesão ao exercício.
Experimentar e experimentar
Descobrir o gosto por uma atividade ou exercício físico necessita experimentar. Para Serrão, “não tem outra alternativa se não experimentar. O que é muito fácil hoje em dia. À medida que grande parte dos centros, academias, clubes, estúdios, oferecem aulas experimentais […] Eu diria que uma aula experimental é suficiente para ver se o santo bateu”.

O professor exemplifica: “Colocar você em uma aula de spinning, por exemplo. Se você gostar, você vai gostar muito e vai voltar. Se você odiar, vai ser ódio à primeira vista também. Porque tem toda uma avaliação de ambiente. Tem toda uma avaliação de grupo. Hoje a atividade física é muito nichada. As pessoas se identificam ou não com aquela tribo ali. E isso tudo faz uma enorme diferença. Então, experimente sem preconceito”. Guilherme Gaba acrescenta que é possível fazer essas experiências dentro do Cepeusp, “que oferece uma ampla variedade de práticas esportivas e corporais para a comunidade interna e externa da USP”.
“O ideal é experimentar diferentes práticas corporais e, com uma boa orientação profissional, criar uma rotina que seja prazerosa e sustentável, permitindo colher, ao longo do tempo, todos esses benefícios”
Guilherme Leutwiler Gabas
*Estagiário sob a supervisão de Cinderela Caldeira






