O presidente sírio, Ahmed al-Sharaa, afirmou em entrevista à emissora Al Jazeera que a Síria
busca um pacto de segurança com Israel que possa
pavimentar o caminho para uma paz mais ampla no Oriente Médio. O acordo, no entanto, não comprometeria o direito da Síria às Colinas de Golã, que divide ambos os países.
O planalto rochoso, uma posição estratégica do ponto de vista militar e lar de terras férteis e recursos hídricos, é parte da Síria desde a sua independência do Império Otomano, em 1946, mas foi ocupado pelas Forças de Defesa de Israel desde 1967, tendo sido posteriormente anexado pelo Estado de Israel em 1981.
Anteriormente, Damasco denunciou as agressões cometidas por Tel Aviv em territórios na cidade de As-Suwayda, que junto com Golã representa a principal concentração da população drusa na Síria. Israel alega que os ataques visam proteger os drusos de supostas agressões sírias, mas analistas suspeitam que a ofensiva seja uma manobra para ampliar a presença israelense no sul da Síria.
Um dos que compartilha dessa opinião é Ramez Philippe Maalouf, doutor em geografia humana pela Universidade de São Paulo (USP).
Em entrevista ao
podcast Mundioka, da
Sputnik Brasil, Maalouf explica que Israel aproveita a instabilidade que a Síria atravessa após a derrubada do governo de Bashar al-Assad para tomar mais territórios do país. A decisão de Al-Sharaa ― que antes se chamava
Abu Muhammad al-Julani, em referência justamente às Colinas de Golã, de onde sua família foi expulsa em 1967 ― de sinalizar disposição para um acordo de paz com Israel acabou incentivando o governo do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, a
avançar na política expansionista.
"Ele abriu caminho para que Israel endurecesse, tanto para a ocupação sionista dos territórios sírios, quanto, por exemplo, para atacar o Irã e atacar o Líbano."
Maalouf afirma ainda que a liderança israelense não está analisando, de maneira realista, as condições políticas, militares e geoestratégicas do momento.
"Em vez de eles buscarem a paz, já que Al-Sharaa tomou o poder na Síria e há um governo aliado no Líbano, vamos deixar a Síria e o Líbano em paz? Não, eles querem tomar territórios."
Karina Calandrin, professora de relações internacionais no Ibmec, destaca que a reinvindicação síria das Colinas de Golã e além, para onde os militares israelenses se deslocaram com a queda de Assad em 2024, é também parte de um processo maior de reconhecimento doméstico e internacional.
"O novo governo sírio luta muito para ter a sua legitimidade, para ser reconhecido internacionalmente como um governo soberano. [...] Então, se tem uma potência externa ocupando parte do território, ele não consegue essa legitimidade."
Calandrin acrescenta que o governo de Al-Sharaa é bem mais "palatável" para Israel do que o de Bashar al-Assad porque tem relações muito mais próximas dos EUA e já demonstrou ser favorável a assinar um acordo de paz com o governo israelense.
"Mas, é claro, é um governo que exige o respeito às normas internacionais, exige o respeito à sua soberania, às suas fronteiras. Então não vai aceitar simplesmente que Israel invada e ocupe parte do seu território."
Na visão de Calandrin, se o governo israelense aceitasse o pedido da Síria e se retirasse das regiões ocupadas, poderia de fato abrir caminho para um acordo que traria mais segurança para Israel do que a própria ocupação do território sírio.
"Seria uma forma de criar um sistema de segurança regional muito melhor do que o sistema que a gente vê hoje. Então, eu sou otimista nesse sentido, mas será que o governo israelense vê dessa forma? Dessa parte, eu sou cética."
Já existem resoluções da Organização das Nações Unidas (
ONU) que obrigam Israel a
desocupar territórios da Síria, que, inclusive, foram reiteradas em 2025 pela Corte Internacional de Justiça (
CIJ). O governo sírio poderia recorrer a essas resoluções, mas não há garantias de que isso tenha efeito.
Segundo Calandrin, hoje, o único governo que consegue pressionar Israel a alguma coisa, e ainda assim não de maneira totalmente eficaz, são os Estados Unidos.
"O governo que ainda financia, doa dinheiro para Israel, mantém boa parte também do financiamento militar de Israel, são os EUA. Então, é uma forma de barganha que a Síria poderia ter. De outra forma, eu não vejo Israel obedecendo."
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