25 de julho – Mulher Negra, Latina e Caribenha

Por Vicente Rauber30/07/2026 às 11:140 visualizações
Marcha das Mulheres Negras, em Copacabana, mobilização contra o racismo, por justiça e bem viver
Marcha das Mulheres Negras, em Copacabana, mobilização contra o racismo, por justiça e bem viver
Foto: | / Brasil de Fato

O 25 de julho também é data para falar do Dia Internacional da Mulher Negra, Latina e Caribenha. Os motivos são fundamentais.

A data coincide com o Dia do Colono e da Agricultura Familiar, que tratamos na coluna semanal anterior, mas que precisamos complementar com a participação fundamental das colonas desde o início; do(a) motorista e do(a) escritor(a).

Em 25 de julho de 1992, em Santo Domingo, capital da República Dominicana, 500 anos após a “descoberta” oficial da América por Cristóvão Colombo, mais de 300 mulheres vindas de grande parte dos países latino-americanos e caribenhos, reuniram-se para denunciar o racismo e o sexismo contra as mulheres negras, e as consequentes desigualdades sociais. Era e é necessário dar uma visibilidade maior para a condição de mulher e negra, discriminação ainda maior dos que as já discriminadas mulheres brancas. Foi criada a Rede de Mulheres Afro-Latino-Americanas, Afro-caribenhas e da Diáspora. A Organização das Nações Unidas (ONU) reconheceu o evento logo a seguir.

A discriminação e exploração da mulher negra é histórica. Assim que os europeus – espanhóis e portugueses principalmente – chegaram à América, começou a escravidão de negros(as) africanos(as) desde o México ao Cone Sul. As mulheres escravizadas já desde então eram submetidas à dupla jornada, tendo que cumprir trabalho pesado nas lavouras e minas, além de trabalho doméstico aos seus donos. Ainda sofriam violência sexual e seus filhos gerados eram apropriados pelos senhores feudais para ampliação da mão-de-obra.

O Haiti, em 1804, foi a primeira nação a abolir a escravidão, praticamente junto com a sua independência. Esta “ousadia” não foi perdoada e foi combatida pelos EUA e nações européias, contestando o precedente, já que desejavam manter a escravidão. Vinte anos depois os países da América Central uniram-se para libertar os escravizados em bloco. Somente mais tarde os países da América Latina puseram fim ao tráfico e libertaram as pessoas escravizadas.

O Encontro de Santo Domingo constatou a continuidade de desigualdades estruturais, socioeconômicas, forte violência, menores oportunidades de trabalho e salários e educação, menos acesso a políticas públicas e representatividade políticas das mulheres negras, em grau ainda maior que as mulheres brancas. A situação avançou, mas a luta tem ainda um grande caminho a superar, incluindo o Brasil, como constatado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O nosso país ocupa a quinta posição no mundo em feminicídios, e, segundo o Ministério da Igualdade Social, 61% das vítimas são mulheres negras.

Até mesmo em Cuba permanecem em relação às mulheres aspectos de racismo e estereóticos. No entanto, o acesso à educação, saúde, e organizações sociais está bem evoluído.

Após o Encontro do Santo Domingo, vários países, passaram a ressaltar a data com mulheres negras destacadas nas lutas emancipatórias.

No século 17, Zumbi liderou o Quilombo dos Palmares, no Nordeste.

Brasiliana Fotográfica – Esta ilustração do século 19 foi adotada por várias organizações do movimento negro para representar Tereza de Benguela |
Brasiliana Fotográfica – Esta ilustração do século 19 foi adotada por várias organizações do movimento negro para representar Tereza de Benguela | — Reprodução
Brasiliana Fotográfica – Esta ilustração do século 19 foi adotada por várias organizações do movimento negro para representar Tereza de Benguela | Crédito: Reprodução

Já no século 18 foi a rainha negra Tereza de Benguela que, durante 20 anos, no Mato Grosso, liderou o Quilombo do Quariterê. O Quilombo também conhecido como do Piolho, em referência a José Piolho, companheiro de Tereza, a quem ela sucedeu após a sua morte.

Tereza de Benguela, possivelmente nascida em Angola, coordenava o Quilombo, de em torno de 200 pessoas, através de um conselho, que estabelecia regras e a economia da comunidade. Plantavam mandioca, milho, feijão e algodão, para consumo próprio e vendiam o excedente.

Foi presa e morta pelas tropas do governo de então em 1770.

Em 2014, o governo brasileiro, através da Lei 12.987 oficializou a data de 25 de julho como Dia Nacional de Tereza Benguela e a Mulher Negra. A história do Quilombo de Quariterê e de sua líder merecem ser melhor conhecidos.

Brasiliana Fotográfica – Colonização alemã |
Brasiliana Fotográfica – Colonização alemã | — Reprodução
Brasiliana Fotográfica – Colonização alemã | Crédito: Reprodução

Embora o contexto fosse outro, precisamos reparar o artigo anterior em que deixamos de citar a enorme relevância das imigrantes alemãs nas atividades de colonização, como de todas as agricultoras familiares de hoje.

A dupla jornada de trabalho (com alguma participação em maior ou menor grau dos homens) fez-se presente desde o início.

Participaram do trabalho pesado de abrir mata, do plantio e da colheita. Faziam a gestão do lar, dos alimentos, da confecção de roupas e dos animais. Atuaram no comércio, como parteiras e professoras.

Ontem e hoje cumprem papéis fundamentais na Agricultura Familiar. Além das atividades domésticas, realizam grande parte do cultivo de forma sustentável, mesmo ainda encontrando dificuldades de regularização da posse da terra e de acesso ao crédito. Participam ativamente da gestão das propriedades, de cooperativas e de feiras.

Precisamos superar a misoginia em relação a todas as mulheres e o racismo em relação a todos(as).

E diante de mulheres negras, estes desafios são maiores, e requerem ser superados.

Enquanto isto não for alcançado, não teremos uma sociedade justa.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Fonte
Brasil de Fato
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