Quem abre a torneira para beber água talvez não imagine que ela contém um importante aliado da saúde bucal. Presente em grande parte dos sistemas públicos de abastecimento do Brasil, o flúor é adicionado à água como estratégia de prevenção da cárie dentária. Ao mesmo tempo, o tema é cercado por dúvidas, desinformação e debates sobre os riscos do consumo em excesso.
Na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), pesquisadores das áreas de Engenharia e Odontologia estudam justamente esse equilíbrio entre benefícios e riscos. O assunto será debatido durante o I Simpósio Latino-Americano sobre Fluoreto e Fluorose Dentária (I SIMFLU), realizado entre os dias 5 e 7 de agosto, no Campus Sede.
O que é a fluoretação da água?
A fluoretação consiste na adição controlada de compostos de flúor à água distribuída pela rede pública de abastecimento. A medida é considerada uma das principais estratégias de saúde pública para prevenir a cárie dentária, pois fortalece o esmalte dos dentes, tornando-o mais resistente aos ácidos produzidos pelas bactérias presentes na boca.
No Brasil, a prática é regulamentada pela Lei Federal nº 6.050/1974 para sistemas públicos de abastecimento com estação de tratamento. Embora a legislação esteja em vigor há mais de cinco décadas, a fluoretação ainda enfrenta desafios, como a falta de implementação em alguns municípios e dificuldades no monitoramento das concentrações adequadas.
Esse monitoramento é realizado pelas empresas de abastecimento de água. Segundo o professor do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental, Elvis Carissimi, a eficácia da fluoretação depende justamente desse controle. “O problema não é o flúor em si, mas o excesso. Na quantidade correta, ele previne a cárie; quando ultrapassa os limites recomendados, pode provocar fluorose dentária”, explica.

Quando o flúor deixa de ser um aliado?
Embora seja essencial para a prevenção da cárie, o flúor pode trazer prejuízos à saúde quando presente em concentrações elevadas. Segundo Carissimi, concentrações superiores a 1,5 mg por litro podem causar fluorose dentária, principalmente em crianças que ainda estão na fase de formação dos dentes. A fluorose se manifesta por manchas brancas, opacas ou amarronzadas no esmalte dental. Em casos mais graves, também pode comprometer a estrutura dos dentes.
O professor do Curso de Odontologia da UFSM Orlando Amaral explica que cada estado possui legislação específica que estabelece parâmetros seguros para a fluoretação da água. No Rio Grande do Sul, por exemplo, a legislação estabelece concentrações entre 0,6 e 0,9 mg por litro. Segundo o professor, dentro dessa faixa de concentração, os benefícios são amplamente comprovados pelas evidências científicas.
Carissimi ressalta, porém, que o excesso nem sempre está relacionado ao processo de fluoretação realizado pelos sistemas públicos de abastecimento. “O excesso de flúor pode ocorrer naturalmente, em função das características geológicas do solo e das rochas que entram em contato com as águas subterrâneas. Também pode estar relacionado ao uso de fertilizantes agrícolas e outros produtos químicos que podem atingir as águas”, afirma. De acordo com o docente, esse cenário é mais frequente em comunidades rurais e em áreas onde o abastecimento depende de poços subterrâneos, cuja água pode apresentar concentrações naturalmente elevadas de fluoreto.
O que diz a ciência?
Apesar do consenso científico sobre os benefícios da fluoretação dentro das concentrações recomendadas, o tema frequentemente aparece associado à desinformação nas redes sociais. Entre as alegações mais frequentes estão supostos prejuízos ao desenvolvimento infantil, alterações hormonais e até teorias conspiratórias envolvendo o controle da população.
Segundo Carissimi, essas afirmações não encontram respaldo científico quando a fluoretação é realizada dentro dos parâmetros recomendados pelos órgãos de saúde. “Já ouvi até dizer que o flúor é colocado na água para controlar as mentes. Mas o que a gente tem convicção, com base na ciência, é que a fluoretação é importantíssima para evitar a cárie dentária. É uma medida de saúde pública que a gente precisa ter”, afirma o pesquisador.
Orlando Amaral reforça que há décadas as evidências científicas demonstram a segurança da medida quando realizada nas concentrações recomendadas. “Existe um consenso científico sobre os benefícios do flúor nessas concentrações. Também circulam muitas informações afirmando que o flúor faz mal ou que interfere na glândula pineal. São inúmeras histórias, mas todas baseadas em pseudociência. As evidências científicas acumuladas ao longo de décadas demonstram que, dentro dessas concentrações, o flúor é muito benéfico.”
Pesquisa na UFSM
Na UFSM, o Grupo de Pesquisa em Tratamento de Águas e Efluentes (Wat3r+) desenvolve estudos voltados ao monitoramento da qualidade da água e das concentrações de fluoreto. O grupo busca contribuir tanto para a implantação da fluoretação em regiões onde ela ainda não existe quanto para identificar locais em que os níveis de flúor estejam acima do recomendado.
Uma das iniciativas integra o programa Vigifluor, desenvolvido em parceria com órgãos de vigilância sanitária e com a Rede Latino-Americana de Pesquisas em Fluoretos e Fluorose Dentária (RELYFIF). O objetivo é mapear as concentrações de fluoreto em diferentes regiões da América Latina, produzindo dados que possam subsidiar ações de vigilância e planejamento dos serviços de abastecimento.
A água distribuída em Santa Maria também passa pelo processo de fluoretação. Carissimi explica que começou a pesquisar o tema a partir de estudos realizados em parceria com a Corsan, em um projeto que buscava remover o excesso de fluoreto presente em águas subterrâneas de municípios da região de Santa Maria e da Quarta Colônia. A experiência levou o pesquisador a ampliar sua atuação para estudos sobre monitoramento da qualidade da água e cooperação científica internacional, aproximando a UFSM de pesquisadores de diversos países da América Latina.
Diferentes países, diferentes estratégias
Nem todos os países adotam a fluoretação da água como política pública. Países como Paraguai e Equador, além de diversas nações europeias e asiáticas, optam por outras estratégias para promover a saúde bucal, como a adição de flúor ao sal de cozinha, ao leite ou o fortalecimento de programas preventivos de higiene bucal. Também existem regiões onde o problema é justamente o excesso natural de fluoreto nas águas subterrâneas, o que exige soluções específicas de monitoramento e tratamento.
Segundo Carissimi, essa diversidade de realidades torna importante a cooperação entre pesquisadores de diferentes países latino-americanos. Em 2023, ele participou de atividades na Universidade Nacional de Assunção, experiência que resultou em seu ingresso na Rede Latino-Americana de Pesquisas em Fluoretos e Fluorose Dentária (RELYFIF), formada por pesquisadores da Colômbia, Equador, Peru, México, Chile, Argentina, Uruguai e Paraguai. A rede tem como objetivo promover a cooperação científica entre os países latino-americanos, compartilhando pesquisas, experiências e soluções para os desafios relacionados ao uso do flúor e à prevenção da fluorose dentária.
A participação na rede ampliou sua compreensão sobre as diferentes realidades enfrentadas pelos países latino-americanos. “Pode afetar até a saúde mental. Em algumas localidades, como no Paraguai, há registro de que, por conta de manchinhas nos dentes, crianças sorriem menos e evitam ambientes escolares, porque acabam sofrendo bullying”, relata.
I Simpósio Latino-Americano sobre Fluoreto e Fluorose Dentária
Esses temas estarão em debate no I Simpósio Latino-Americano sobre Fluoreto e Fluorose Dentária (I SIMFLU), que será realizado de 5 a 7 de agosto, no Campus Sede da UFSM. O encontro reunirá pesquisadores do Brasil e de outros países da América Latina para discutir qualidade da água, fluorose dentária, saúde pública e desenvolvimento sustentável, promovendo o intercâmbio entre áreas como Engenharia, Odontologia, Química, Geologia, Psicologia e Ciências Ambientais.
A abertura ocorre no dia 5 de agosto, às 9h, no Auditório Wilson Aita, juntamente com a aula inaugural dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia Civil e Ambiental e em Ciências Odontológicas. As inscrições são gratuitas e podem ser realiadas na página do Simflu por estudantes, pesquisadores, profissionais e gestores públicos interessados no tema. A programação completa está disponível no perfil do evento no Instagram.
Texto: Ellen Schwade, estudante de jornalismo e bolsista da Agência de Notícias
Arte gráfica: Daniel De Carli, designer
Edição: Mariana Henriques, jornalista
