O anúncio foi feito pelo ministro das Relações Exteriores do Paraguai, Rubén Ramírez Lezcano. Segundo o chanceler, a medida busca demonstrar a posição oficial de Assunção diante das declarações de Lula, classificadas pelo governo como incompatíveis com a interpretação histórica adotada pelo país.
"A dignidade do Paraguai não é negociável", afirmou Lezcano durante entrevista coletiva. O ministro acrescentou que o tema foi tratado diretamente entre os presidentes Santiago Peña e Lula em conversa telefônica.
No discurso que provocou a reação paraguaia, realizado na última semana, em Jacareí (SP), Lula defendia investimentos na área de defesa quando mencionou a Guerra da Tríplice Aliança.
"O Brasil gosta de paz, mas a gente não pode esquecer que um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá, ao mesmo tempo invadiu o Uruguai, invadiu a Argentina. E aquela guerra, que parecia que era nada, durou cinco anos", declarou o presidente na ocasião.
Parlamento paraguaio critica fala
Antes mesmo da convocação do embaixador brasileiro, a Câmara dos Deputados do Paraguai já havia aprovado uma declaração oficial de repúdio às declarações de Lula. No documento, os parlamentares afirmam que o presidente brasileiro apresentou uma visão "parcial" do conflito e ignorou fatores históricos que antecederam a guerra, além do impacto humano sofrido pelo Paraguai.
A campanha militar travada entre 1864 e 1870 foi o maior conflito da história da América do Sul, após uma intervenção militar brasileira no Uruguai. Em resposta, o governo de Francisco Solano López declarou guerra ao Império do Brasil e iniciou operações que atingiram territórios brasileiros e argentinos. Posteriormente, Brasil, Argentina e Uruguai formalizaram a Tríplice Aliança para enfrentar o Paraguai.
A guerra terminou com a morte de Solano López e deixou consequências profundas para o Paraguai, incluindo perdas territoriais, destruição da infraestrutura e uma grave redução populacional, fatores que permanecem presentes na memória histórica do país.
Divergências entre Brasil e Paraguai
O episódio ocorre em um momento em que Brasília e Assunção acumulam divergências em temas estratégicos. Nos últimos meses, um dos principais pontos de atrito foi a renegociação do Anexo C do Tratado de Itaipu, que define as bases financeiras da comercialização da energia produzida pela hidrelétrica binacional.
As negociações chegaram a ser interrompidas após o governo paraguaio denunciar uma suposta operação de espionagem contra autoridades do país, atribuída à Agência Brasileira de Inteligência (Abin) durante a gestão anterior. O caso levou Assunção a suspender temporariamente as tratativas até que o governo brasileiro prestasse esclarecimentos.



