A invocação das romarias que abrem caminhos

Por Leonardo Melgarejo31/07/2026 às 14:440 visualizações
A história desta Romaria dos Mártires é longa. Ela inicia na data em que o padre João Bosco Penido Burnier foi assassinado pela polícia. Ano de 1976, com o Brasil vivendo sob ditatura militar
A história desta Romaria dos Mártires é longa. Ela inicia na data em que o padre João Bosco Penido Burnier foi assassinado pela polícia. Ano de 1976, com o Brasil vivendo sob ditatura militar
Foto: | / Brasil de Fato

Estive em Ribeirão Cascalheira, MT, acompanhando a Romaria dos Mártires, 50 anos.

A história desta Romaria dos Mártires é longa.

Ela inicia na data em que o padre João Bosco Penido Burnier foi assassinado pela polícia. Ano de 1976, com o Brasil vivendo sob ditatura militar. Não é impossível que o matador acreditasse estar metendo bala na cabeça de um dos mais importantes desafetos do regime de então, Dom Pedro Casaldáliga, o Bispo de São Félix do Araguaia.  

O fato é que a ditadura militar caçava os “Guerrilheiros do Araguaia”, e fazia isso impondo o terror naquela região. Na prática, para os agentes de governo, ali todos e todas eram cúmplices, ou informantes. E na garantia de impunidade, a tortura era o mecanismo usado como instrumento para discriminar entre uns e outros.

a ditadura militar caçava os “Guerrilheiros do Araguaia”, e fazia isso impondo o terror naquela região |
a ditadura militar caçava os “Guerrilheiros do Araguaia”, e fazia isso impondo o terror naquela região | — Leonardo Melgarejo
a ditadura militar caçava os “Guerrilheiros do Araguaia”, e fazia isso impondo o terror naquela região | Crédito: Leonardo Melgarejo

Em 12 de outubro de 1976, Dom Pedro Casaldáliga e o padre Burnier estavam naquele município. E foram procurados para interceder no drama vivenciado por Margarida e Santana, mulheres que estavam sendo torturadas na delegacia de polícia. Agulhas sob as unhas, para contar o que não sabiam.

Padre e bispo foram lá, cobrar humanidade e pedir respeito aos direitos humanos. O bispo, de camisa de manga curta e sandálias. O padre, de batina e sapato preto. Detalhes que levaram à morte do padre, quando os dois ousaram reclamar o fim das sessões de tortura.

O padre Burnier ainda vivia, quando foi carregado, cabeça estourada, nos braços da irmã da Divina Providência de Ribeauvillé, Béatrice Kruch (Bia), em busca de um socorro impossível. Bia (enfermeira) e Madeleine Hausser (Mada), que então realizavam trabalhos de assistência aos habitantes daquela região, acompanharam de perto a vida daquele povo submetido à violência de Estado que hoje ameaça voltar, e se estender ao país inteiro, com a ascensão da extrema direita.

O padre Burnier ainda vivia, quando foi carregado, cabeça estourada, nos braços da irmã da Divina Providência de Ribeauvillé, Béatrice Kruch (Bia), em busca de um socorro impossível. Bia (enfermeira) e Madeleine Hausser (Mada) |
O padre Burnier ainda vivia, quando foi carregado, cabeça estourada, nos braços da irmã da Divina Providência de Ribeauvillé, Béatrice Kruch (Bia), em busca de um socorro impossível. Bia (enfermeira) e Madeleine Hausser (Mada) | — Leonardo Melgarejo
O padre Burnier ainda vivia, quando foi carregado, cabeça estourada, nos braços da irmã da Divina Providência de Ribeauvillé, Béatrice Kruch (Bia), em busca de um socorro impossível. Bia (enfermeira) e Madeleine Hausser (Mada) | Crédito: Leonardo Melgarejo

Ameaçadas e perseguidas, foi por orientação de Dom Pedro Casaldáliga que elas se deslocaram do Mato Grosso para o norte de Tocantins, onde hoje ainda atuam. Mada e Bia, que têm parte da história de suas vivências, como testemunhas da esperança, relatada em belo filme de Dagmar Talga (que também é responsável por importante documentário sobre a Guerrilha do Araguaia) vivem no assentamento Lagoa da Onça, município de Formoso do Araguaia, região do Bico do Papagaio.

Voltando ao ponto inicial: com o assassinato do padre Burnier, o povo se revoltou. A cadeia foi destruída. A repressão se intensificou. Na resistência pacífica, a população construiu um santuário para onde, desde então, a cada 5 anos se dirige a Romaria dos Mártires.

Mártires da luta são lembrados na Romaria que completou 50 anos |
Mártires da luta são lembrados na Romaria que completou 50 anos | — Leonardo Melgarejo
Mártires da luta são lembrados na Romaria que completou 50 anos | Crédito: Leonardo Melgarejo

Com o tempo, e exatamente porque o Brasil continua vivendo sob o domínio de interesses opostos à paz, tanto a Romaria como a lista dos mártires assassinados, crescem. Nos cantos, nas flâmulas, nas orações e nos relatos, ali estão o padre Rodolfo e o Simão Bororo (1976), Dom Oscar Romero (1980), Margarida Alves (1983),  padre Josimo (1986),  Chico Mendes (1988), Doroty Stang (2005), Marielle Franco (2018), Bruno Pereira e Don Phillips (2022), entre tantos outros que foram mortos antes ou depois daquela primeira Romaria (Martin Luther King, Mahatma Gandhi, Sepé Tiaraju, Zumbi dos Palmares, Tiradentes…). Mortos, todos eles, para que seus testemunhos, suas opções de vida, em vida, desapareçam, sejam esquecidos.

Mada e Bia vivem no assentamento Lagoa da Onça, município de Formoso do Araguaia, região do Bico do Papagaio |
Mada e Bia vivem no assentamento Lagoa da Onça, município de Formoso do Araguaia, região do Bico do Papagaio | — Leonardo Melgarejo
Mada e Bia vivem no assentamento Lagoa da Onça, município de Formoso do Araguaia, região do Bico do Papagaio | Crédito: Leonardo Melgarejo

Mas isso não tem funcionado.

Sempre sobram sementes, sobram exemplos, sobram mensagens. E em romarias, em filas de todo tipo, em grupos de conversa e em ações que estimulam a consciência, ali estão os chamados e as convocações à assunção de responsabilidades que, espelhadas naqueles exemplos, ajudam e ajudarão a alimentar a determinação, a coragem e a esperança de que precisamos para moldar o futuro.

Dez bispos, dezenas de padres e freis, pastores e outras lideranças espirituais participaram da celebração |
Dez bispos, dezenas de padres e freis, pastores e outras lideranças espirituais participaram da celebração | — Leonardo Melgarejo
Dez bispos, dezenas de padres e freis, pastores e outras lideranças espirituais participaram da celebração | Crédito: Leonardo Melgarejo

E é sobre isso que eu pretendia falar, com imagens.

Penso que algumas fotos desta Romaria dos Mártires de 2026 possam servir como invocação e atualização para mensagens que carregamos dentro de nós e que nos alertam em relação ao que poderá cair sobre esta terra em eventual sucesso eleitoral daqueles que elogiam torturadores, dão prêmios a matadores, enriquecem sem trabalhar e se mostram associados a interesses expressos nas ações do presidente da Argentina e nas ameaças de Trump.

Imagens da Romaria dos Mártires de 2026 podem servir como invocação e atualização para mensagens que carregamos dentro de nós |
Imagens da Romaria dos Mártires de 2026 podem servir como invocação e atualização para mensagens que carregamos dentro de nós | — Leonardo Melgarejo
Imagens da Romaria dos Mártires de 2026 podem servir como invocação e atualização para mensagens que carregamos dentro de nós | Crédito: Leonardo Melgarejo

Aquelas e outras mensagens positivas podem ser revistas, em parte, tanto em relato sobre a Romaria, preparado em 2011 (com depoimento de Dom Pedro Casaldáliga e outras lideranças de nossos povos de todas as cores e credos), como nos filmes de Dagmar Talga e/ou naquele sentimento indefinido que avança dentro da gente sempre que escutamos Flávio Bolsonaro e seus parceiros golpistas, gritando “Lula é ladrão”.

Talvez tudo isso nos ajude a entender e a assumir compromissos que sabemos ser nossos, para com um projeto de vida relacionado a todos e todas. Felizmente em outubro teremos mais uma oportunidade de fazer por isso, e ir adiante, superando dificuldades bem menores do que aquelas enfrentadas por Mada e Bia e pelos mártires e testemunhas da esperança. Em paz, pelo voto.

Mais de 4 mil pessoas caminharam cerca de cinco quilômetros |
Mais de 4 mil pessoas caminharam cerca de cinco quilômetros | — Leonardo Melgarejo
Mais de 4 mil pessoas caminharam cerca de cinco quilômetros | Crédito: Leonardo Melgarejo

Para isso, precisamos tão somente abrir os olhos, conversar com as pessoas e fazer o possível para o sucesso da democracia, na disputa política pelo Brasil que queremos.

Se trata de trabalhar pela eleição de Lula, no primeiro turno. E ao mesmo tempo, de reforçar a democracia e renovar a solidariedade plurigeracional abandonada nos períodos Temer-Bolsonaro; Para isso precisamos retirar (pelo voto) dos espaços de poder aqueles e aquelas que desmoralizam a democracia operando no Congresso Nacional e nos governos estaduais, como serviçais de interesses opostos às necessidades de nosso país e seus habitantes.

Desde que Temer e aqueles parlamentares golpistas traíram e derrubaram a presidenta Dilma Rousseff, avançam entre nós mecanismos que trabalham pela destruição dos caminhos da paz e da civilidade, na política. Eles fazem isso com armas, com grana, com ameaças e corrupção ativa. Eles utilizam as grandes mídias digitais para espalhar o medo e a reimplantar no Brasil uma ditadura que nos transformará em colônia do imperialismo norte-americano.  

Não conseguirão.

Místicas fazem parte das romarias |
Místicas fazem parte das romarias | — Leonardo Melgarejo
Místicas fazem parte das romarias | Crédito: Leonardo Melgarejo

A democracia do povo, pelo povo e para o povo pode ser recuperada por novos caminhos e pelo voto direto, consciente, garantindo a partir de outubro o início de uma grande renovação dos representantes da sociedade no Senado, na Câmara e nos executivos estaduais.

Vamos conseguir isso reincorporando em nossa maneira de fazer política algo que eles odeiam, porque não alcançam compreender: a alegria, a espiritualidade, a arte, a beleza e a solidariedade, como bases para a construção do futuro que precisamos e merecemos alcançar.

A democracia do povo, pelo povo e para o povo pode ser recuperada por novos caminhos |
A democracia do povo, pelo povo e para o povo pode ser recuperada por novos caminhos | — Leonardo Melgarejo
A democracia do povo, pelo povo e para o povo pode ser recuperada por novos caminhos | Crédito: Leonardo Melgarejo

Faremos isso pelo testemunho, e pela prática de vida, mostrando que somos parte dos agentes e testemunhas da esperança. Somos parte daqueles que não esquecem o passado, aprendem com o sofrimento alheio e que, unidos, jamais serão vencidos.

* Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Fonte
Brasil de Fato
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