
Imagine um país que precisa cortar a energia limpa que produz enquanto liga usinas que funcionam a combustível fóssil. O absurdo existe e estamos falando, claro, do Brasil. Não é ficção regulatória nem exceção pontual. No ano passado, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) cortou aproximadamente 37 terawatts-hora de geração eólica e solar centralizada, o triplo do que havia sido cortado em 2024, segundo levantamento da consultoria ePowerBay. Para se ter uma ideia do tamanho desse absurdo, o volume cortado pelo ONS equivale à geração de dez meses da usina de Belo Monte. O prejuízo acumulado pelos geradores renováveis afetados chegou a R$ 6 bilhões no ano passado.
Esse corte de geração tem nome técnico: curtailment, ou constrained-off na nomenclatura do setor. Ele acontece quando o ONS determina que uma usina reduza ou interrompa sua geração simplesmente porque o sistema elétrico não consegue absorver toda a energia disponível naquele momento. É energia que existe, que poderia ser consumida, mas que o sistema não tem como receber, armazenar ou escoar.
Para entender direito esse imbróglio, ouça o áudio anexo acima, com análise do professor Fernando de Lima Caneppele, da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) de Pirassununga (SP) da USP, especialista em energia sustentável. O professor coproduz a Série Energia com o jornalista Ferraz Junior, da Rádio USP de Ribeirão Preto. Você pode sintonizar a emissora em FM 107,9, pela internet em www.jornal.usp.br ou pelo aplicativo no celular para Android e iOS.





