O que está por trás do ataque da extrema direita às universidades públicas?

30/07/2026 às 20:340 visualizações
Bruno Ciorlia Nascimento e Marcelo de Trói – Fotos: Acervo pessoal
Bruno Ciorlia Nascimento e Marcelo de Trói – Fotos: Acervo pessoal
Jornal da USP

Por Bruno Ciorlia Nascimento, graduando, e Marcelo de Trói, professor, ambos da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP

 Publicado: 30/07/2026 às 17:34
Bruno Ciorlia Nascimento –
Bruno Ciorlia Nascimento – — Acervo pessoal
Bruno Ciorlia Nascimento – Foto: Acervo pessoal
Marcelo de Trói –
Marcelo de Trói – — Acervo pessoal
Marcelo de Trói – Foto: Acervo pessoal
 
Imagem do artigo
Nas últimas décadas, a educação se tornou um alvo frequente de ataques da extrema direita no Brasil. A acusação recorrentemente é de que as instituições de ensino, sobretudo as públicas, são redutos de “esquerdistas” e locais de supostas doutrinações ideológicas. Os ataques às universidades, em especial às dedicadas à produção de conhecimento na área das ciências humanas, é um projeto sistemático que visa deslegitimar a produção do conhecimento e desestimular a formação de um pensamento crítico. Apesar de não ser totalmente nova, essa ofensiva discursiva foi potencializada pelas redes digitais que operam como amplificadores de moralismos e simplificações, transformando a crítica à ciência e à razão em uma forma de capital político.

Sob esse cenário, elaboramos uma análise sobre tais eventos no artigo científico Performances políticas da extrema direita no Brasil: invasões na FFLCH-USP e a circulação digital do ódio ao conhecimento, escrito por nós e publicado na Revista Brasileira de Sociologia, no final de junho de 2026, no dossiê intitulado Interpretações Críticas das Novas Formas da Política de Direita, organizado por Stefan Klein (Universidade de Brasília), Clara Ruvituso (Ibero-Amerikanisches Institut, Berlim) e Wiebke Keim (Universidade de Strasbourg).

No texto, analisamos de forma crítica as novas formas contemporâneas de política da extrema direita no Brasil, a partir dos discursos autoritários, práticas de desinformação e performances políticas articuladas nas redes sociais. A investigação teve como foco as invasões à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo, em 2025, instituição histórica das ciências humanas com alto capital simbólico e símbolo de resistência frente à ditadura militar brasileira. Embora tenha sido noticiado com frequência na mídia, o artigo é a primeira análise sociológica das invasões promovidas por grupos da extrema direita à faculdade.

Propomos que os episódios sejam compreendidos como performances políticas que ultrapassam a ideia de protestos convencionais, constituindo-se como objetos táticos de uma espetacularização midiática que busca performar ataques e invasões ao campo universitário em frente às câmeras para que os afetos e ódios engajados resultem em visibilidade e viralização nas redes digitais. Com milhões de seguidores, as redes sociais dos invasores, inclusive a de um vereador da cidade de São Paulo, foram utilizadas como plataforma para a propagação dessas mídias. Nos vídeos produzidos por esses agentes são mobilizados títulos provocativos, imagens de confronto e legendas moralizantes com o objetivo de circular nos ecossistemas algorítmicos do YouTube e do Instagram.

Observando tais performances e discursividades, constatamos que elas se fundamentam em ideologias autoritárias e antidemocráticas, articulam moralismos, fundamentalismo religioso e anticomunismo. O anti-intelectualismo é elemento presente em todos os vídeos analisados. Historicamente, nos movimentos fascistas do século 20, é notória a presença do desprezo ao pensamento crítico e a desconfiança das instituições de conhecimento.

Discutimos ao longo do texto a genealogia desse anti-intelectualismo que permeia as performances contemporâneas da extrema direita, e por que ele ganha demasiada aderência no Brasil. Analisamos os vídeos das invasões e os discursos na seção de comentários das publicações, tendo como base referencial teórico da Sociologia e dos estudos midiáticos, além de textos do “guru da extrema direita”, Olavo de Carvalho.

Uma das conclusões a que chegamos é que muitos dos que não tiveram acesso à universidade ou que se viram deslocados pelo avanço das políticas de inclusão, a exemplo da implementação das cotas ou a maior presença de mulheres no ambiente acadêmico, passaram a construir uma narrativa de desconfiança em relação às instituições acadêmicas. Elas passaram a ser vistas como espaços de corrupção moral, ideológica e política. As evidências mostram que o anti-intelectualismo contemporâneo se reorganiza nas plataformas digitais, mobilizando afetos de ódio e teorias conspiratórias.

No decorrer do texto, demonstramos que as performances políticas da extrema direita no Brasil, a exemplo das protagonizadas pelos invasores à FFLCH-USP, constituem uma nova forma de fascismo em rede, capitalizado dentro de um ecossistema comunicacional sustentado por grandes conglomerados de informação e infraestrutura digital. Tal ecossistema potencializa a difusão de discursos de ódio e moralismo. A estratégia gira em torno de afetos negativos, narrativas religiosas e ataques ao conhecimento, ressignificados sob o discurso da liberdade de expressão.

Por fim, neste cenário, abre-se espaço para que o projeto neoliberal instrumentalize a demonização do ensino e do conhecimento crítico para respaldar o desmantelamento do ensino público, a exemplo dos recentes cortes de gastos e redução das disciplinas de ciências humanas no ensino médio. Diante disso, impõe-se a urgência de um pensamento crítico, de estarmos alertas para os problemas que as tecnologias suscitam na sociedade contemporânea. É a partir delas que as emoções políticas, os afetos, os algoritmos e a circulação de desinformação vêm redefinindo os contornos do autoritarismo no Brasil, colocando em xeque as conquistas seculares do conhecimento e da democracia no mundo contemporâneo.

________________
(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)

Imagem do artigo
Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.

Fonte
Jornal da USP
Abrir original ↗
Esta notícia foi útil?

Debates 0

Seja o primeiro a contribuir com o debate.

Difunda suas informações e promova seu argumento

Não se acanhe de publicar alguma informação ou dado que possa ser positivo ou útil.

Para participar do debate, entre com sua conta ou crie uma gratuita.