Produzido por jovens em medidas socioeducativas, podcast ‘ZO em Foco’ vira ferramenta de cidadania

Por Kaique Dalapola31/07/2026 às 21:101 visualizações
As mãos de três jovens seguram um panfleto do podcast 'ZO em Foco'
As mãos de três jovens seguram um panfleto do podcast 'ZO em Foco'
Brasil de Fato

Um endereço residencial na região do Rio Pequeno, na zona oeste de São Paulo, é tomado por um grupo de cerca de dez adolescentes, a imensa maioria formada por meninos com idades entre 12 e 17 anos. Há uma agitação no ar, uma mistura de ansiedade e energia típica da juventude. Eles se preparam para gravar mais um episódio do podcast ZO em Foco.

Na terceira gravação, um imprevisto muda a dinâmica do grupo. O adolescente que estava à frente da produção e faria a condução do roteiro não pôde comparecer. Com o tempo apertado para ensaiar com um novo apresentador, houve um momento de hesitação.

Foi então que o inesperado aconteceu: uma das poucas meninas do grupo demonstrou proatividade. Sem receios, ela assumiu a frente da situação, repassou o roteiro, escolheu rapidamente as perguntas e partiu para a entrevista. Não satisfeita em apenas cumprir o roteiro, formulou questionamentos próprios e, após a gravação, demonstrou um interesse genuíno em, quem sabe, seguir o caminho do jornalismo no futuro.

A cena, que poderia ser um simples projeto escolar, carrega um peso muito maior pelo contexto em que ocorre. O podcast “ZO em Foco” não é uma atividade extracurricular. Trata-se de um projeto desenvolvido como parte do cumprimento de medidas socioeducativas em meio aberto, especificamente Prestação de Serviço à Comunidade (PSC) e Liberdade Assistida (LA) por adolescentes infratores.

A iniciativa ganha vida no Centro Social Santo Dias, uma organização da sociedade civil que atua há 38 anos no bairro do Rio Pequeno, zona oeste de São Paulo.

Geralmente, o cumprimento de horas de prestação de serviços à comunidade ocorre pelo seu viés estritamente punitivo, limitando o potencial de transformação desses jovens. Danielle Helena Alves Luscri, psicóloga e gerente do serviço, explica que os adolescentes costumavam ser enviados pelo sistema de justiça para escolas ou postos de saúde da região para cumprir suas horas de forma puramente braçal e mecânica.

“Os outros espaços não tinham caráter pedagógico. Mandavam o menino testar caneta, tirar prato da mesa, essas coisas”, relata Luscri. Incomodados com a falta de sentido dessa rotina, a equipe decidiu inovar e criou um projeto de PSC coletivo, voltado para a comunicação dentro da própria instituição.

Como é a produção do podcast

Quem encabeça essa linha de frente com os adolescentes é o professor e oficineiro Fernando Araújo Konesuk. Ele explica que a rotina de produção do podcast subverte a lógica tradicional que, historicamente, afasta esses mesmos jovens das salas de aula.

No “ZO em Foco”, o trabalho é horizontal. Os jovens discutem em grupo quem serão os convidados e os motivos para chamá-los. Em seguida, realizam a apuração da biografia do entrevistado para formular as perguntas com embasamento.

“Se a gente for falar de educação, são em grande parte meninos que odeiam a escola. Toda vez que a gente fala em ir para a escola, eles dizem: ‘Não, pelo amor de Deus, não'”, relata Konesuk. “Aqui a gente consegue ofertar um acesso e uma construção de conhecimento que dialoga mais com os interesses deles. A gente consegue fazer a medida socioeducativa ser cumprida de uma forma que eles curtam fazer.”

O professor atua como um mediador. A elaboração do roteiro exige leitura e debate constante, competências muitas vezes negadas a esses jovens por um sistema de ensino público sucateado. Ao pesquisar a vida do entrevistado e estruturar o programa, eles vão além do cumprimento de uma ordem judicial e exercem a cidadania de forma ativa.

Afeto como ferramenta

Para a equipe da Santo Dias, o motivo de esses adolescentes cumprirem medidas antecede o ato infracional. Ana Paula, psicóloga do projeto, alerta que a criminalidade é o fim de uma longa linha de negligência. 

“Quando eles chegam pra gente, o ato infracional aparece muito mais como um sintoma de uma problemática que atravessa a vida deles, com violações muitas vezes desde o nascimento”, avalia a psicóloga.

Ela explica que são jovens que cresceram sem perspectiva, vindos de famílias que, há gerações, sofrem com a ausência do poder público. O Estado, que deveria ser o fiador de direitos básicos como educação, lazer e cultura, muitas vezes só se faz presente no território periférico por meio da força policial.

“Se um adolescente foi criado desde a primeira infância sem nenhuma perspectiva, sem ninguém que dissesse para ele que ele pode mais do que roubar uma moto ou pegar um celular, ele fica condicionado a acreditar que aquilo é o máximo que ele pode fazer da vida”, diz Ana Paula.

Para quebrar esse ciclo vicioso, a punição pura e simples já se provou ineficaz, na avaliação dos profissionais do Santo Dias. A ferramenta de transformação social mobilizada pela equipe técnica do local é invisível aos olhos da Justiça: o afeto.

“A nossa única via de acesso com esses meninos é o vínculo”, reforça a psicóloga. “É buscar o meio do cuidado, fazer com que eles percebam que são mais valorosos do que a sociedade mostrou para eles até hoje.”

Fernando Konesuk compartilha dessa mesma diretriz. Para o professor, o grande diferencial do projeto é criar um espaço seguro de acolhimento. “É saber que as pessoas gostam deles, que querem o bem. Se acontecer alguma situação delicada, a gente vai estar junto com eles.”

Porta para o futuro

Apesar dos resultados considerados expressivos pela OSC, os desafios estruturais e a luta contra o senso comum punitivista são imensos. Danielle Luscri ressalta a dificuldade de integrar o atendimento com outras áreas do poder público.

Ainda assim, a equipe segue resistindo. Para Konesuk, o trabalho diário de gravação e edição com os jovens é uma forma prática de lutar contra o aprisionamento em massa da juventude de quebrada. É, nas palavras dele, uma tentativa de “arriscar sonhar em outras possibilidades, de pensar no mundo sem cadeia”.

Fonte
Brasil de Fato
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