Nas últimas semanas, em meio a crises de sua candidatura à Presidência, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) vem encontrando dificuldades para angariar o apoio de partidos do centrão, como Republicanos, MDB, e a federação União Brasil e PP, à sua chapa eleitoral.
Esses partidos preferiram não declarar apoio ao PL a nível nacional, com alianças seguindo as realidades de cada estado. O mais recente exemplo é a recusa do PP em permitir que a senadora Tereza Cristina (MS) se torce vice de Flávio.
A escolha por neutralidade destoa das eleições passadas, quando esses partidos ou lançavam seus próprios candidatos ou entravam em coligações. Em 2018, por exemplo, o MDB lançou Henrique Meirelles à presidência, enquanto o PP apoiou a candidatura de Geraldo Alckmin. Em 2022, o MDB teve como representante na corrida Simone Tebet, e o União lançou Soraya Thronicke.
Neste ano, o centrão não demonstra muito apetite pela disputa, deixando a corrida para a polarização PT x PL e se preocupando em montar a maior bancada possível, de olho nos recursos do fundo partidário e das emendas parlamentares.
Centrão no governo sem fazer esforço
José Paulo Martins Junior, professor de ciência política da Universidade Federal Fluminense (UFF), explica que desde a crise política de 2015, que culminou no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, houve um reequilíbrio na relação entre Executivo e Legislativo.
"O Congresso passou a controlar uma parcela muito maior dos recursos, especialmente por meio das emendas parlamentares, reduzindo a predominância que o Executivo exercia."
Embora não exista uma definição única sobre quais siglas integram o centrão, estimativas baseadas na composição atual da Câmara apontam que partidos tradicionalmente associados ao grupo — como MDB, PSD, Republicanos, PP, União Brasil, Podemos e PSDB Cidadania — somam cerca de 270 a 280 deputados, mais da metade das 513 cadeiras da Casa.
No Senado, essas legendas também reúnem uma parcela expressiva dos 81 parlamentares, o que faz do bloco um ator decisivo para a aprovação de projetos e a sustentação política de qualquer governo federal.
Neste ciclo eleitoral de 2026, a perspectiva é de que esse número aumente, o que daria maior poder ao Legislativo sobre o Executivo – definição de pautas e questões orçamentárias – e sobre o Judiciário – pressão por impeachment de magistrados e escolha de novos para assumir a posição.
Nesse contexto, a neutralidade adotada por legendas do centrão é uma estratégia pragmática diante da polarização entre PT e PL, que deve concentrar grande parte dos votos à Presidência.
Embora esses partidos, em geral, estejam idelogicamente mais próximos da direita, tendem a negociar com qualquer governo eleito para assegurar governabilidade e preservar espaços de poder, diz o cientista político.
"Esses partidos sempre foram pragmáticos. Independentemente de quem vencer, o presidente precisará construir maioria no Congresso, e isso passa necessariamente pelo centrão."
Além disso, mesmo sendo os principais partidos na disputa presidencial,
PT e
PL dificilmente conseguiriam
montar uma bancada superior a 150 deputados, número insuficiente para aprovar matérias de maior relevância ou impedir iniciativas como
CPIs e pedidos de impeachment.
"O centrão sempre ganha. Controla as presidências da Câmara e do Senado, dispõe de muito recurso orçamentário e reúne condições para preservar sua força eleitoral. É muito provável que esses partidos mantenham sua posição dominante dentro do Parlamento."
Perda de coordenação do Estado
Essa ampliação de poder do Legislativo reduziu a capacidade de coordenação do Estado brasileiro, diz a cientista política Clarisse Gurgel, professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio).
Para ela, a crescente destinação de recursos por meio de emendas parlamentares fragmenta o planejamento nacional, pulveriza a verba federal entre gabinetes e enfraquece a capacidade do Executivo de
implementar políticas públicas de longo prazo.
Em sua avaliação, o problema não se limita à falta de transparência. O modelo atual desloca a lógica do orçamento público para uma dinâmica de negociações políticas, tornando mais difícil articular investimentos estruturantes em áreas como infraestrutura, ciência, tecnologia e desenvolvimento econômico.
Por consequência, a disputa eleitoral acaba concentrada na Presidência da República, enquanto a crescente influência do Congresso sobre a execução do orçamento recebe pouca atenção no debate público.
"As pessoas costumam lembrar em quem votaram para presidente, mas frequentemente esquecem em quem votaram para deputado e senador."
Para Gurgel, o fortalecimento do Congresso exige que o eleitor passe a dar ao Legislativo a mesma atenção dedicada à disputa presidencial, vendo o controle crescente de recursos orçamentários pelos parlamentares tornar a escolha de deputados e senadores tão relevante quanto a do chefe do Executivo.
Sobretudo, o desafio é reconstruir um equilíbrio institucional que reduza a centralidade do poder orçamentário como instrumento de negociação política e devolva ao Executivo o protagonismo na execução do orçamento, sem retirar do Congresso sua função de fiscalização e representação.
"O Executivo precisa voltar a exercer seu papel de executar o orçamento."
Acompanhe as notícias que a grande mídia não mostra!
Siga a Sputnik Brasil e tenha acesso a conteúdos exclusivos no nosso canal no Telegram.
Já que a Sputnik está bloqueada em alguns países, por aqui você consegue baixar o nosso aplicativo para celular (somente para Android).