Estou na esquina de Cabildo e Juramento. Para onde olho, vejo manadas de argentinos ocupando as ruas. É mais uma celebração que se espalha pelo país nesta Copa do Mundo.
Eufóricos, fantasiados, com o rosto pintado, eles cantam ao som dos bombos. Alguns, sem camisa, em pleno inverno. Outros sobem nos ombros de amigos, em marquises, paradas de ônibus e semáforos. Ao menor sinal, a multidão salta, se abraça, agita camisas celestes e brancas, bebe cerveja e vinho direto da garrafa. Não há partido político, time de futebol, classe social ou desavenças. Nesta loucura momesca, ninguém é de ninguém. Todo mundo é de todo mundo.
— Estou mesmo em Buenos Aires? — me pergunto.
É difícil explicar para quem está de fora por que os argentinos comemoram cada vitória como se fosse a final da Copa.
— As pessoas de fora não entenderiam — me diz um pai que levou a família para a rua. — Isso é ser argentino. É ter coragem para jogar até o fim e defender as nossas cores. É o Diego que devolveu o orgulho da nossa camiseta e de ser argentino.
De fora, eles parecem apenas loucos. De dentro, é impossível não se emocionar. Aos poucos, eu também me vejo entregue a essa maré celeste e branca que acredita que a maestria de Lio Messi levará à vitória, nem que seja no último minuto.
“Pelas Malvinas, pelo Diego, pela última do Lio, Argentina, quero ver-te bicampeã… Não me arrependo deste amor, mesmo que doa o coração”, canta a multidão. A música, repetida nos estádios, nas ruas, nos rádios e nas redes, virou um hino.
Os hinos são dramáticos, como quase tudo neste país. Parecem mais um tango do que um samba. Dá a impressão de que o mundo acaba amanhã — ou será na quarta-feira de cinzas?
Empurra-empurra. Cheiro de suor e cerveja. Chuva. Fogos de artifício. É o carnaval que a Argentina nunca teve, mas que esta seleção inventou.
Hoje a Inglaterra caiu. Bastou isso para que ninguém quisesse voltar para casa.
Um grupo de jovens de dezoito, vinte anos, pula abraçado. Um casal que mal se conhece troca um beijo rápido e desaparece na multidão. Mais adiante, como um estandarte de bloco, um rapaz sem camisa ergue um quadro que tirou da parede de casa. É uma fotografia de Maradona levantando a Copa de 1986. Em segundos, centenas de pessoas começam a segui-lo, cantando em uníssono.
Não é um déjà-vu das ladeiras de Olinda?
Não é. Mas poderia ser.
Ali entendo que Maradona nunca foi apenas um jogador. Para muitos argentinos, a vitória sobre a Inglaterra em 1986 o transformou em um herói nacional. Virou religião, memória coletiva, um jeito de ser argentino.
A vitória de hoje reacende uma chama que nunca se apagou. Desde a Guerra das Malvinas, jogar contra a Inglaterra nunca foi apenas um jogo. O futebol virou o campo onde ainda é possível vencer. Desta vez, o orgulho argentino entrou em campo calçando as chuteiras de Messi.
Penso que muitos ao meu redor nem eram nascidos quando a guerra aconteceu. Mas isso parece não importar. Os argentinos cultivam a memória dos seus heróis como poucos povos que conheço. Carregam o passado no peito para celebrar o presente.
Enquanto volto para casa, ainda escuto os bombos ecoando pelas ruas. E percebo que ninguém comemorava apenas uma vitória. Celebrava-se uma memória, uma dor que se transformou em uma explosão de alegria, um país inteiro.
Talvez seja isso que eu mais admire na Argentina. Quando decide comemorar, ela se transforma em um único corpo. Como em Olinda, desconhecidos se abraçam, cantam juntos, dividem cerveja, chuva e suor. Durante algumas horas, ninguém pergunta quem você é. Basta vestir o celeste e o branco — ou apenas deixar-se levar pela festa — para também fazer parte dela.
E, naquela noite, mais uma vez, senti que metade de mim também comemorava como argentina.
