Jovens que saíram da vila rural de Hewan voltaram nos últimos três anos para empreender na própria terra. No mesmo período, a renda per capita local dobrou, chegando a 19.120 yuans, cerca de 14.900 de reais, segundo o Diário Econômico de Gansu. Hoje, apenas 20% dos moradores ainda buscam emprego fora do condado; antes, a saída para o trabalho urbano era o caminho da maioria. Esta é a primeira reportagem de uma série de matérias sobre cultura e revitalização rural na província chinesa de Gansu para o Bem Viver, programa do Brasil de Fato.
Hewan fica a 2.600 metros de altitude nas montanhas do condado de Yuzhong, a 40 quilômetros do centro de Lanzhou, capital da província de Gansu. O vilarejo rural vizinho de Habancha integra o mesmo distrito de Mapo, que faz parte de Lanzhou. Os dois eram chamados de “vilarejos do frio”: estradas de terra, casas de barro e água potável de difícil acesso. Hoje recebem comitivas de outros condados que sobem a montanha para estudar a experiência de revitalização rural implementada ali.
Estufas e renda próprias
Em 2023, a Conferência Consultiva Política da Província de Gansu selecionou Hewan para um programa de construção de vila ecológica habitável. O investimento chegou a 55,67 milhões de yuans, cerca de 43 milhões de reais, distribuídos em 25 projetos de infraestrutura, produção agrícola e turismo.
Uma das principais iniciativas é o Parque Agrícola de Alta Montanha: uma área de 500 mu, cerca de 33 hectares, com 36 estufas voltadas ao cultivo de lírio, angélica-chinesa e hortaliças de clima frio.
As estufas pertencem aos camponeses, que as operam de forma autônoma, respondem pelos lucros e pelos riscos. O subsídio público cobre metade da construção e a outra metade é investimento dos moradores locais, segundo o governo do condado de Yuzhong.
O modelo foi criado para superar o que Bai Bingsheng, vice-presidente da Conferência Consultiva Política do Condado de Yuzhong, descreveu como o problema crônico dos projetos agrícolas: empresas que constroem a infraestrutura enquanto os agricultores ficam fora da operação e do lucro.
A cultura que mais cresce no distrito é a angélica-chinesa, raiz conhecida no país como danggui e usada há séculos na medicina tradicional chinesa. Em todo o distrito de Mapo, já há mais de 8 mil mu plantados, o equivalente a cerca de 530 hectares, segundo a cooperativa local de ervas medicinais, da qual Wang Chenggui faz parte.
O negócio aumentou a renda anual de Wang em 150 mil yuans (cerca de R$ 115 mil), segundo o Diário Econômico de Gansu. “O danggui serve principalmente para tonificar e nutrir o sangue, essa é a função central dele na medicina tradicional chinesa. Nos cosméticos, o que se aproveita é o aroma, que é muito forte e característico. Alguns produtos extraem dele uma espécie de água floral, que entra na fórmula”, explicou Wang.
Adaptação de cultivos e turismo rural
Ao lado, na vila de Habancha, a transformação começou antes. Liu Xiaoqin, moradora da vila, descreveu o percurso: “Nossa vila era uma comunidade rural bem tradicional. A partir de 2017, com a iniciativa Vila Bonita, a aparência e a infraestrutura melhoraram muito, e as estradas ficaram mais acessíveis. Em 2020, completamos a rede de água e esgoto. Como estávamos nos preparando para desenvolver o turismo cultural, fomos deixando as culturas tradicionais, como o trigo, que rendiam pouco, e passamos para as hortaliças. Com o tempo, a hortaliça também chegou a um limite, com pouco espaço para a renda crescer, e fizemos a transição para o turismo. Esse caminho tem funcionado bem, e o padrão de vida melhorou muito.”
Entre as estratégias para impulsionar as iniciativas ali, está a cooperação leste-oeste, política que a China iniciou em 1996 para reduzir as desigualdades regionais por meio de parcerias entre províncias costeiras e o interior do país.
Em 2021, após a erradicação oficial da extrema pobreza, o programa foi reorientado para o desenvolvimento econômico estrutural, enquadrado na estratégia de “prosperidade comum”. Habancha foi escolhida como vila-modelo da parceria feita com o distrito de Ninghe, em Tianjin. Os recursos somam 14,4 milhões de yuans (R$ 11,2 milhões), segundo o governo do condado de Yuzhong.
Com esse investimento foi construído o camping Grande Elefante, com nove cabines espaciais para observação de estrelas e dez áreas de camping. A receita em 2024 foi de 800 mil yuans (cerca de R$ 624 mil), segundo a secretária da vila de Habancha, mesmo com parte do terreno ainda em obras.
“A empresa de turismo paga arrendamento pelo uso da terra do vilarejo rural. Além disso, investimos 250 mil yuans (cerca de R$ 195 mil) em participação acionária, o que nos dá dividendos anuais que entram na nossa economia coletiva. Esses ativos coletivos vão beneficiar todos os moradores”, afirmou Liu Xiaoli, secretária do Partido Comunista em Habancha.

Nos fins de semana, camponeses de Habancha montam uma feira do lado do camping e vendem hortaliça, lírio e danggui diretamente a quem sobe a montanha. Cao Shengbao, ex-trabalhador migrante que voltou para cultivar angélica, faturou 50 mil yuans (R$ 39 mil) em 2024, segundo o Diário de Gansu. Chen Xiaoqin, dona de uma das pousadas de Hewan, disse ao mesmo veículo que na alta temporada o faturamento mensal chega a cinco ou seis mil yuans (R$ 3.900 a R$ 4.700).
O modelo adotado nas duas vilas foi batizado pelos gestores locais como “1+1+N”: uma cooperativa coletiva, mais um produtor individual, mais múltiplos outros operadores econômicos. Os 23 vilarejos rurais do distrito de Mapo estão sendo incorporadas ao esquema.
O corredor turístico que liga Hewan e Habancha ao Parque Nacional de Xinglongshan já recebe mais de 150 mil turistas por ano e gera empregos para mais de 850 camponeses perto de casa, segundo o governo do condado de Yuzhong.
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