Era uma quarta-feira comum, como em tantas outras. Acordei, trabalhei, fiz terapia e, por volta das 19h, fui para a sala de casa assistir televisão com minha mãe e meu pai.
Mas, apesar de ser uma quarta-feira igual a todas as outras, algo diferente aconteceu.
Meu pai estava com a sensação de “barriga muito cheia” e decidiu ir até a padaria ao lado de casa comprar uma água tônica. Por volta das 20h, uma desconhecida chamou no portão de casa, transformando aquela quarta-feira comum em um dia inesquecível.
Ela perguntou: “moça, você conhece um senhor moreninho? Ele caiu no chão, na rua da padaria. Está passando mal.”
Era o meu pai. Antonio Borges, o porteiro de quem já escrevi aqui outra vez.
Quase imediatamente, coloquei uma blusa e uma calça e desci correndo até a padaria. Quando cheguei, encontrei meu pai acordado, mas um pouco desorientado. As pessoas me contavam o que havia acontecido: ele caiu na rua antes mesmo de conseguir comprar a água tônica.
Era o início de um infarto e dos piores dias da minha vida.
Tudo aconteceu muito rápido. Minha mãe voltou para casa para buscar os documentos dele. Pedimos um Uber para a UPA Paineiras, em Diadema, o pronto-socorro mais próximo de casa. Nesse intervalo meu pai quase desmaiou. Foi o tempo de chegarmos à UPA, colocá-lo em uma cadeira de rodas e ele entrar às pressas na emergência, sem nem passar nem pela triagem.

UPA Paineiras, em Diadema, na Grande São Paulo @Simony Maia/ Agência Mural
Meu pai deu entrada no hospital às 20h55. Daí em diante, vieram três longas e torturantes horas sem notícias. Toda vez que pedíamos informações, os médicos respondiam que havia pacientes em estado grave e que não podiam dar atenção à família naquele momento. Já passava da meia-noite do dia 23 de abril quando recebemos a primeira notícia.
Um médico nos informou que meu pai havia sofrido um infarto e precisaria fazer um cateterismo – procedimento minimamente invasivo em que um tubo fino e flexível é inserido em uma veia ou artéria, para diagnosticar ou tratar problemas no coração. Ele permite visualizar vasos sanguíneos, medir pressões e desobstruir artérias.
Minha mãe ficou assustada. Nós não entendemos muito bem o que seria o procedimento nem quais riscos ele trazia. Os médicos, porém, não pareciam muito dispostos a responder.
Por volta das 2h da madrugada, depois de insistirmos muito para ver meu pai, uma enfermeira permitiu que eu entrasse. Conversei com o médico, um homem estrangeiro, pouco simpático. Vi meu pai ali, assustado, sem entender direito o que estava acontecendo.
Minha mãe entrou logo depois de mim. Quando saiu da sala, seu rosto carregava uma expressão de raiva. Perguntei o que havia acontecido e ela respondeu: “o médico me chamou de analfabeta. Fui pedir explicações sobre o estado do seu pai e sobre a medicação que estava tomando, e ele me perguntou se eu sabia ler.”
Essa foi a primeira de muitas microagressões que eu e minha família sofremos durante quase uma semana no hospital.
A frase do médico me fez lembrar do livro “Medicina e Colonialismo”, de Frantz Fanon, em que ele analisa a profunda tensão entre a medicina ocidental e o colonialismo, especialmente na experiência da Argélia. Ele mostra como a prática médica também foi utilizada como ferramenta de opressão e controle, produzindo uma resistência legítima e uma profunda desconfiança por parte dos colonizados.

Em um trecho, ele diz que os doentes acreditam que os médicos, em posição de superioridade, não inspiram confiança. Muitas vezes, ao entrar em consultórios médicos, não sabem como sairão de lá.
O estudo de Fanon, focado na Argélia, também me lembra a realidade das periferias. Quando um ente querido é internado ou precisa de cuidados médicos, somos tratados apenas como “casos clínicos”, desprovidos de história, saberes e sentimentos.
O médico não representa apenas a ciência, mas também uma autoridade de classe, que impõe silêncio, falta de respostas e rigidez quando é confrontado por familiares. É como se não fosse parte do seu trabalho conversar, acolher, orientar e tranquilizar quem espera do lado de fora, tentando saber se a pessoa que ama está bem.
Parece que se parte de um pressuposto que não vale a pena gastar tempo explicando. Afinal, são pessoas da periferia; logo, menos instruídas. Não vão entender. Não poderão ajudar.
Meu pai nunca gostou de hospitais. Para ele, ficar internado foi muito difícil. Além da doença, precisou lidar com médicos e enfermeiros hostis. Entre as muitas microviolências que sofreu, uma me marcou especialmente.
Em uma das noites de internação, recebi, por volta da meia-noite, uma ligação dele. Sua voz estava alterada, parecia medicado. Atendi assustada e ouvi ele dizendo: “Me amarraram.”
Sim. Amarraram meu pai na cama. Indignada, fui imediatamente ao hospital e perguntei às enfermeiras por que ele estava amarrado. Elas responderam que era um procedimento padrão, para evitar que ele se machucasse.

Meu pai, aos 72 anos, em plenas faculdades mentais, internado por causa de um infarto, estava completamente sem entender o que acontecia. Estava com medo. E, naquele momento, fui eu quem apareceu para defendê-lo, assim como ele sempre fez comigo ao longo dos meus 27 anos de vida.
Repreendi as enfermeiras. Disse que aquilo era inaceitável e ouvi de fundo um outro enfermeiro dizendo em tom de deboche: “isso porque não viu a época dos hospícios” – em referência aos pacientes psiquiátricos que eram mantidos em condições desumanas em manicômios. Foi uma prática que marcou negativamente a história da saúde mental no Brasil e que, após muita luta, ficou no passado.
Outros pacientes também estavam amarrados. Depois da minha reclamação, soltaram meu pai. Esperei até que ele pegasse no sono para, só então, conseguir me tranquilizar também.
Fanon escreve que a resistência em ir ao hospital não é fruto da ignorância, mas do medo de ser “descartado como um fardo” ou de morrer longe da família, em um ambiente estranho, sob os cuidados de um sistema que muitas vezes parece não falar a mesma língua que a gente.
Para mim, isso explica muita coisa. Explica o desconforto que sentimos diante de alguns médicos, da indiferença nos olhos deles, do descaso com que, tantas vezes, trataram quem veio das periferias.
Fanon também reflete que as pessoas “colonizadas” que visitam um médico frequentemente são rígidas e monossilábicas em suas respostas. Não porque não consigam se expressar, mas porque se sentem desconfortáveis na presença do médico, que muitas vezes se colocam em uma posição de sabedoria e arrogância.
Se os médicos estão nos hospitais para cuidar de pessoas, por que tantas vezes falta acolhimento e empatia?
Depois de quase uma semana de internação, meu pai recebeu alta no dia 27 de abril. Segue bem, vivendo, saudável e perto das pessoas que o querem bem.
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