Em tempos de polarização acirrada, em que muitas vezes a crença de cada um é usada como alvo de ataques, um projeto faz o caminho inverso e busca o diálogo entre pessoas evangélicas e de terreiro. Criado em 2025, o projeto Axé-Amém, uma iniciativa do Instituto de Estudos da Religião (Iser), envolveu seis encontros ao longo de três meses e nasceu para conectar esses fios de memória que conectam a população negra no Rio de Janeiro.
Tirar a ideia do papel não foi uma tarefa simples e o planejamento começou ainda em 2024. A coordenação sabia que estava mexendo em um vespeiro de preconceitos históricos. “Eu falei: gente, vamos com o medo mesmo”, revela a coordenadora Carolina Rocha, lembrando o receio de não atrair o público desejado.
A preocupação era se as pessoas evangélicas se sentiriam convidadas para uma conversa com pessoas e crenças que, historicamente, são demonizadas por muitos setores da igreja. A ideia não era falar apenas com quem já incorporou o conhecimento sobre outras religiões, mas chegar em quem tem resistência, mas está disposta ao diálogo. “A gente queria também atrair pessoas evangélicas dispostas ao diálogo, mas que nunca estiveram no terreiro”, explica Carolina, que também é conhecida nas redes pelo perfil Dandara Suburbana.
Hoje, o projeto já se expandiu e foca também em quem forma opinião. Recentemente, foi aberta uma turma exclusiva para educadores, já que a escola é um dos lugares onde o racismo religioso mais aparece no Brasil e há uma dificuldade no cumprimento das leis 10.639 de 2003 e a 11.645 de 2008 que exigem o ensino da cultura afro-brasileira e indígena.
Encontros
Mais do que levar as pessoas para a sala de aula e transmitir conteúdo, a proposta da formação é promover esse encontro, em que as pessoas contam quem são, de onde vem e porque estão ali. Essa primeira rodada de apresentações acontece após um café da manhã coletivo e é comum que as afinidades não se deem pela religião em comum, uma surpresa descoberta após a primeira rodada de conversas.
Nesse momento de troca, há relatos de racismo dentro das igrejas, histórias de sincretismo religioso e busca pelo entendimento dos rituais das outras religiões. “Estar em um grupo composto por pessoas negras de diferentes religiões também evidenciou como o racismo estrutural nos atravessa e, muitas vezes, produz divisões, fragmentações e distanciamentos entre nós. Perceber isso coletivamente fortaleceu a reflexão sobre a necessidade de construir pontes, e não barreiras, entre nossas crenças”, contou a participante Jaciléa Santos ao Brasil de Fato.
A proposta da formação é que a troca seja multiplicada em outros espaços. Entre as iniciativas nesse sentido está o de uma professora de escola bíblica dominical na Maré. Incomodada com a violência religiosa no território — onde, em certas áreas, terreiros são proibidos —, ela buscou no projeto ferramentas para educar crianças que sentiam medo de expressar sua fé.
Racismo para além da religião
Para além de incentivar o respeito entre crenças, Rocha destaca que a negação das religiões de matriz africana se mistura com o racismo. Ela pontua que o processo de colonização “cristalizou” uma repulsa tão grande que faz com que pessoas negras neguem a própria história e ancestralidade.
Exemplos não faltam. Desde casos emblemáticos de violência física contra crianças, até agressões cotidianas dentro das igrejas, como o pastor que manda a fiel tirar uma pulseira de miçangas por ser “coisa do diabo”, ou as irmãs de congregação que se recusam a sentar perto de quem usa um turbante. “A gente está falando, na verdade, do próprio racismo, da negação dessas culturas que são negras”, afirma.
Roteiros
Como um dos resultados do curso, a equipe coordenadora divulgou dois roteiros percorridos na região central do Rio que estão disponíveis online e são temas dos dois últimos encontros, em aulas públicas que percorrem a cidade. Um é destinado às religiões de matriz afro e outro a igrejas protestantes. O percurso pelos marcos protestantes, construído com o teólogo Brian Kibuka, também revela as feridas da cidade. O roteiro mostra a elite das igrejas históricas (metodista, presbiteriana, batista) que, no século 19, vivia uma contradição profunda: defendiam o fim da escravidão em teoria, mas muitos de seus pastores e membros mantinham pessoas escravizadas.
Eram igrejas que, por muito tempo, não permitiam que negros sentassem em seus bancos. Só muito mais tarde, com o surgimento do pentecostalismo, é que o movimento evangélico se torna massivamente negro no Brasil.
Diferente do patrimônio católico ou protestante, que tem igrejas monumentais e fixas, a memória africana no Rio está “pulverizada” pelo território. O roteiro de matriz africana exige pernas fortes: começa no Morro do Castelo, passa pela Santa Casa de Misericórdia — fundamental para entender os ritos fúnebres dos africanos escravizados — e segue por espaços de sociabilidade como a Praça XV e o Cais do Valongo.
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O percurso elaborado pelo professor Arthur Baptista termina com uma visita a um terreiro, momento que costuma ser o mais emocionante na avaliação da coordenadora. Isso porque, para muitos evangélicos, o choque não é com o “estranho”, mas com o familiar. “Um participante chorava muito porque ele dizia: a sensação que eu tenho é que eu já conheço isso aqui. Eu conheço esses cheiros”, conta Carolina, explicando que essa conexão vem da própria vivência nas famílias negras periféricas, onde os valores afro-brasileiros sempre estiveram presentes, mesmo que sem esse nome.
Santos sugere um roteiro que inclua um número maior de terreiros para a compreensão da riqueza das tradições afro religiosas, especialmente os localizados fora da região central da cidade. “Também considero importante incluir territórios da Baixada Fluminense e de outras regiões da cidade onde vivemos. Esses locais carregam histórias de resistência, ancestralidade e organização comunitária que, muitas vezes, permanecem invisibilizadas”, avalia.
Aprendizado para todos
Um dos momentos que mais mexeu com a cabeça dos participantes foi o exemplo de Fabíola Oliveira, uma das organizadoras que vive a “dupla pertença”: ela é pastora evangélica e ekedi do Candomblé. Isso abriu uma possibilidade de fé compartilhada que muitos nem imaginavam ser possível.
Ao fim de seis encontros, o que fica é a quebra de estereótipos de ambos os lados. Carolina confessa que o projeto também foi um aprendizado para ela sobre o poder de acolhimento das igrejas evangélicas. “O Axé-Amém é uma escola para todo mundo”, resume ela.
Ao sentarmos à mesa para partilhar o pão e a história, descobrimos que “as diferenças não precisam ser apagadas para que haja respeito”. No Rio de Janeiro do Axé-Amém, a fé é o que nos permite olhar para trás e caminhar, finalmente, juntos.
