Outro dia eu reli trechos da vida do rei inglês Henrique VIII escrito pelo historiador francês Georges Minois, leitura que recomendo.
Fiz algumas anotações mentais que tentarei desenvolver aqui abaixo.
Se trata de uma história muito interessante e original. Lembra um pouco fatos recentes do Brasil, sempre sugerindo curiosas analogias, algumas de cunho anedótico, mas com enredo trágico.
O Brasil estava no estágio fraldas-da-História quando o rei inglês – de um golpe só – rompe com a Igreja Católica, funda a Igreja Anglicana e estatiza todas as propriedades das ordens católicas na Inglaterra.
A ruptura com Roma (Ato de Supremacia, 1534) e a Dissolução dos Mosteiros (1536–1541) foram um enorme negócio imobiliário e financeiro.
Henrique VIII foi completo tirano, teve seis esposas e tirou a vida de duas delas. Feminicida ‘avant la lettre’ (antes que a palavra existisse) e coroado.
Não fundou uma igreja por teologia (ele se considerava católico até o fim, em que pese os seus pecados assombrosos), mas por pragmatismo dinástico e financeiro.
Ao confiscar 800 mosteiros, abadias e conventos, ele dobrou a renda da Coroa no curto prazo. A venda das terras à nova nobreza (gentry) não foi apenas para enriquecer. Foi uma engenharia política inovadora e ousada.
Criou uma classe de proprietários cujo poder dependia da Coroa, garantindo assim aliados contra o Papa. Foi um golpe de Estado feudal com lucros imobiliários gigantescos.
Henrique VIII viu que a religião podia ser não só um negócio rentável, mas um fator de consolidação do poder político a longuíssimo prazo. Permaneceu no poder absolutista até a morte, reinou de 1509 até 1547.
Agora uma brincadeira a título de provocação.
Observem o seguinte: se Jair Bolsonaro tivesse a clarividência e o refinamento político de Henrique VIII, teria evitado a tentativa de golpe de Estado no Brasil (com aqueles risíveis milicos brancaleones) e optaria por criar um cisma qualquer com o Vaticano seguido da criação de uma religião bolsonariano-calvinista.
Hoje, não estaria enjaulado. E seria um potentado evangélico, talvez um banqueiro de Deus.
Anedotas à parte, mas notem bem – agora falando sério – o bolsonarismo sempre sugeriu tragédia (740 mil mortes por covid) e comédias diárias, em doses iguais.
O fato concreto é que grande parcela da força popular do bolsonarismo resulta da aliança com o movimento evangélico, em suas distintas manifestações, mas com grande penetração capilar em todo o território brasileiro.
Analogia entre o business igreja anglicana e o business evangélico atual
No Brasil, fundar uma igreja neopentecostal é, de fato, um negócio extremamente rentável. Por quê?
Isenção tributária, igrejas têm imunidade sobre patrimônio, renda e serviços, além de isenção de contribuições sociais.
Fluxo de caixa constante, dízimos, ofertas, promessas e vendas de objetos “ungidos” geram bilhões por ano. Estima-se que o mercado evangélico movimente mais de R$ 100 bilhões anuais.
Mídia e poder, muitas denominações são donas de redes de rádio e TV, transformando fiéis em audiência e audiência em influência política.
“Teologia da Prosperidade”, diferentemente de Henrique VIII, que vendia terras de terceiros (da Igreja de Roma), os pastores brasileiros vendem a abstrata promessa de enriquecimento aos fiéis, num ciclo em que o pastor enriquece enquanto prega que a pobreza é falta de fé. Para eles, todo o pobre é um ateu inconsciente.
O prestígio social do pastor é evidente. Se trata de prestígio real, mas seletivo. Entre as classes populares e na periferia, o pastor vira uma liderança comunitária e conselheiro moral.
No espectro político, a Bancada Evangélica é uma das forças mais poderosas do Congresso brasileiro. Porém, nos círculos intelectuais, acadêmicos e da elite cultural tradicional, há forte descrédito e associação com charlatanismo e exploração.
Diferente da nobreza inglesa, que comprou terras para consolidar status hereditário, o pastor brasileiro compra jatinhos e fazendas para consolidar status de celebridade e poder de barganha política.
Onde a analogia cessa?
Henrique VIII usou a força do Estado contra uma instituição estrangeira, fixada em Roma.
No Brasil, as igrejas não desapropriam ninguém, elas captam recursos via adesão voluntária (ainda que haja forte coerção psicológica). O dinheiro não sai do bolso do Estado, sai do bolso do trabalhador.
O rei Henrique vendeu terra – capital fixo, finito.
O pastor brasileiro vende esperança e pertencimento – capital simbólico e emoocional, infinitamente renovável.
Um é especulação imobiliária estatal. O outro é marketing existencial.
Henrique precisava de um herdeiro homem e de dinheiro para guerras.
O pastor brasileiro precisa de visibilidade e crescimento orgânico (ou via franquias) num mercado religioso altamente competitivo. É capitalismo de consumo aplicado à salvação.
Ambos os casos expõem a mesma verdade sociológica: onde há instituição religiosa, há acúmulo de capital econômico e prestígio político.
A religião sempre foi um vetor de acumulação primitiva – seja no século 16, com a espada e a pena do rei, seja no século 21, com o microfone e a câmera de TV.
No Brasil, no entanto, o fenômeno tem um contorno perverso, a renda da fé é regressiva. Quem financia o enriquecimento dos bispos “empreendedores” é a classe trabalhadora, que dá o pouco que tem em troca de um milagre.
Enquanto Henrique VIII concentrou renda da Igreja para a Coroa (de cima para cima), no Brasil a concentração acontece de baixo para cima, drenando recursos das periferias para os centros urbanos e para misteriosas contas offshore.
Aqui há um evidente mecanismo de instrumentalização da fé. Mas, enquanto Henrique VIII usou a religião para subjugar a nobreza e o Papa, os novos empresários da fé no Brasil usam a religião para subjugar a concorrência no mercado espiritual e conquistar privilégios num Estado laico que, na prática, trata a religião como zona franca de acumulação.
Estamos em plena campanha eleitoral no Brasil, embora ainda de forma subliminar e disfarçada. Mas o mercado da fé já está aliado ao mercado financeiro para constituir candidatura antipopular e de completa dissolução da soberania nacional.
A fé instrumentalizada por entreguistas e corruptos pode e deve ser denunciada e exposta ao ridículo, irmão gêmeo da temeridade e da covardia cívica.
*Cristóvão Feil é sociólogo.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
