
Segundo pesquisa desenvolvida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, a expansão das apostas esportivas configura um problema de saúde pública no Brasil. A tese Evolução e modernização recente dos jogos de azar e apostas: difusão das bets e usos do território brasileiro, de Leonardo Sena do Carmo, defendida em abril de 2026, aponta que a digitalização do mercado de jogos de azar intensificou os problemas relacionados à ludopatia, transtorno caracterizado pelo vício em apostas.
Na pesquisa, Carmo analisa a evolução dos jogos de azar, desde o jogo do bicho até a disseminação das bets por meio das redes sociais, da televisão e do esporte. “O objetivo da pesquisa foi demonstrar como a expansão das bets e dos jogos on-line tem possibilitado uma reestruturação do mercado de jogos de azar e apostas no território brasileiro. Mais do que uma nova modalidade de aposta, as bets representam uma nova etapa da organização espacial desse mercado, redefinindo aquilo que entendemos como usos do território brasileiro”, explica.
O pesquisador utiliza o conceito de meio técnico-científico-informacional, desenvolvido pelo geógrafo Milton Santos, para mostrar que as apostas deixaram de depender da presença física dos jogadores e passaram a exigir apenas acesso à internet. “Pela primeira vez, torna-se possível acessar uma plataforma de apostas a qualquer hora e de qualquer lugar, desde que se tenha um telefone conectado à internet”, afirma.
Como a pesquisa foi desenvolvida
Segundo Carmo, a proposta inicial do estudo era compreender o mercado de jogos de azar de forma ampla. Quando a pesquisa começou, em 2020, e nos primeiros meses de 2021, o mercado das apostas on-line ainda não apresentava a dimensão que alcançou nos últimos anos.
Como recorte geográfico, o pesquisador escolheu Arapiraca, em Alagoas, e outros 16 municípios da região. Um dos principais resultados do estudo foi identificar que a digitalização modificou profundamente a lógica de funcionamento desse mercado. “Antes, a atividade dependia de estabelecimentos físicos e de agentes locais. Hoje, as apostas podem ser realizadas a qualquer momento, por meio de celulares e computadores, em plataformas que operam em escala global. Isso fortalece grandes corporações internacionais responsáveis por esse tipo de atividade”, observa.
Segundo Carmo, a tecnologia não apenas modernizou as apostas, mas transformou completamente sua dinâmica. As bets deixaram de depender de estabelecimentos físicos e passaram a funcionar em plataformas digitais disponíveis 24 horas por dia. Aliada à publicidade massiva, realizada por influenciadores digitais, jogadores de futebol e outras celebridades, além do uso estratégico de dados e informações, essa transformação impulsionou o crescimento do setor e contribuiu para naturalizar as apostas como uma prática cotidiana, ampliando tanto seu alcance econômico quanto seus impactos sociais.
Para Carmo, reduzir a exposição da população às apostas esportivas é uma medida essencial. O pesquisador defende que o enfrentamento do problema exige políticas públicas de saúde, campanhas de conscientização e educação financeira, além da participação de diferentes áreas do conhecimento na formulação de políticas voltadas ao tema. Como referência internacional, ele cita o modelo adotado pela Espanha, que restringe a publicidade das bets, limitando a veiculação de anúncios na televisão ao período da madrugada e impondo regras mais rigorosas para ações de marketing.
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