
A Faculdade de Direito (FD) da USP anunciou a abertura do processo seletivo para o Grupo de Diálogo Universidade-Cárcere-Comunidade (GDUCC), projeto de extensão que busca restabelecer a comunicação entre a academia, o sistema prisional e a sociedade civil. Entre os dias 3 e 14 de agosto, interessados poderão se inscrever para as 100 vagas disponíveis, divididas entre as frentes Adulto e Socioeducação. Metade das vagas é destinada à comunidade externa, com cotas para egressos do sistema prisional.

O projeto foi idealizado pelos professores Alvino Augusto de Sá e Sérgio Salomão Shecaira, ambos da FD, que propõem fundir saberes acadêmicos e vivenciais em rodas de diálogo horizontal dentro de presídios e unidades da Fundação CASA. Uma das frentes do grupo atua com adolescentes em medida de internação na instituição. Em entrevista ao Jornal da USP, a coordenadora Laleska Walder conta que o trabalho vai além das rodas de conversa e termina com a visita dos jovens à própria Faculdade de Direito.
“O GDUCC Socioeducação incorpora, em seu último encontro, a Visita Pedagógica à FD da USP como atividade de encerramento de cada ciclo, proporcionando aos adolescentes uma experiência de aproximação com o ambiente universitário e ampliando o horizonte de acesso ao ensino superior”, descreve a mediadora do projeto. Ela destaca que “essa experiência procura apresentar a universidade não como um local distante ou reservado a determinados grupos sociais, mas como uma possibilidade concreta de continuidade dos estudos e como um espaço que deve ser ocupado por todos. Acreditamos na democratização dos saberes e no acesso à universidade pública como direito básico a todo e qualquer adolescente.”
Para que essa aproximação continue depois do ciclo de encontros, o projeto mantém parcerias com o Cursinho Popular Arcadas e o Projeto Nova Rota, que oferecem bolsas e mentoria multidisciplinar no período pós-internação.
O GDUCC se afasta de pesquisas mais tradicionais justamente por não tratar quem está preso como objeto de estudo. Caio Bachiega, um dos coordenadores do grupo, explica que é a composição diversa dos participantes que sustenta a profundidade dos debates.
“Os debates são realizados, em regra, em roda, privilegiando uma disposição horizontal que favorece relações de igualdade entre todos os participantes e rompe com a lógica tradicional de hierarquização dos saberes, segundo a qual pessoas privadas de liberdade figurariam como destinatárias passivas do conhecimento produzido pela universidade. A reserva de vagas para pessoas egressas do cárcere e do sistema socioeducativo permite que sujeitos diretamente atravessados por essas experiências ocupem não apenas o lugar de participantes, mas também de estudantes e, posteriormente, de coordenadores do projeto”, explica ele.

Segundo a coordenação do grupo, essa experiência muda a forma como os futuros profissionais enxergam o cárcere. “O projeto permite que a vivência dentro do ambiente prisional e socioeducativo seja conhecida antes mesmo do recebimento do diploma, proporcionando um impacto relevante na formação da sensibilidade e do ideário social dos envolvidos”, afirmam os coordenadores.
A seleção começa com uma fase teórica obrigatória, que inclui uma aula magna no dia 21 de agosto, seguida de encontros semanais às sextas-feiras. Quem avança para a fase prática precisa assinar um Termo de Confidencialidade e Conduta e pode somar até 90 horas de Atividades de Cultura e Extensão.
As inscrições devem ser feitas exclusivamente via formulários Google específicos para cada modalidade, disponíveis no edital, que pode ser acessado neste link.
*Sob supervisão de Silvana Salles.





