Canudos, memória e violência: a história que continua a ecoar

Por Marcia Avanza03/08/2026 às 11:580 visualizações
Giselle Beiguelman - Foto: Cecília Bastos
Giselle Beiguelman - Foto: Cecília Bastos
Jornal da USP
🎙 Marcia Avanza · Jornal da USP

Exposição do artista Igor Vidor resgata as origens da palavra “favela” e investiga como imagens, arquivos e materiais revelam permanências da exclusão no Brasil

 Publicado: 03/08/2026 às 8:58

Imagem do artigo

Imagem do artigo

Em 1897, depois de três derrotas, a quarta expedição do Exército finalmente destruiu o arraial de Canudos. O arraial baiano, fundado em 1893 por Antônio Conselheiro e batizado de Belo Monte, tinha se tornado uma espécie de terra prometida autossuficiente: vivia da agropecuária de subsistência, do comércio local e do trabalho comunitário, fora do alcance do Estado.

Artista que investiga a violência do presente e suas raízes históricas, ele encontra em Canudos a origem de uma palavra: favela. Antes, era o nome do morro onde o Exército se posicionou para bombardear Belo Monte com canhões Krupp. Antes ainda, era o nome de uma flor da caatinga. Depois do massacre, soldados levaram o nome consigo para o Morro da Providência, no Rio de Janeiro, onde se instalaram após uma promessa de moradia que nunca se cumpriu. Dali, “favela” passou a nomear toda uma geografia brasileira da exclusão, que Igor Vidor problematiza em vários de seus trabalhos.

Em sua nova exposição, Cavalo Pálido e os Sanguis-fé, em cartaz na Verve Galeria, com curadoria de Marina Schierasi, nossa aluna aqui na USP, Igor usa pólvora, terra e madeira para produzir suas imagens.

As obras cruzam os aparatos que historicamente capturaram aquela população — a imprensa, os acervos de museus e os registros da polícia — com fotografias que ele mesmo fez em suas visitas ao Parque Estadual de Canudos, entre 2019 e 2026.

Isso produz uma linguagem do real para estudar como a memória se constrói e como certas ausências são fabricadas. Igor emoldurou suas imagens em cedro porque essa foi a madeira encomendada e nunca entregue para a igreja de Belo Monte, estopim do primeiro conflito.

Hoje, o arraial está submerso pela barragem de Cocorobó. Não há beleza possível no extermínio. Mas há, talvez, uma poética mínima naquilo que insiste em sobreviver, como a flor da favela, também presente na exposição, que sempre volta a recobrir o sertão.


Imagem do artigo
Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.

Fonte
Jornal da USP
Abrir original ↗
Esta notícia foi útil?

Debates 0

Seja o primeiro a contribuir com o debate.

Difunda suas informações e promova seu argumento

Não se acanhe de publicar alguma informação ou dado que possa ser positivo ou útil.

Para participar do debate, entre com sua conta ou crie uma gratuita.