O jogo dos acessos aos grandes equipamentos ainda não foi vencido

Por Yara Baiardi03/08/2026 às 23:070 visualizações
Imagem aérea do Centro de Convenções de Pernambuco durante a Fenearte 2026
Imagem aérea do Centro de Convenções de Pernambuco durante a Fenearte 2026
Brasil de Fato

O mês de julho de 2026 foi de fortes emoções. Em 18 de julho, encerrou-se a 23ª Copa do Mundo masculina da Fifa. Também foi realizada a 26ª Feira Nacional de Negócios do Artesanato – a Fenearte, considerada a maior feira de artesanato da América Latina, realizada no Centro de Convenções.

Mas o que esses dois eventos podem ter em comum?

Guardadas as devidas proporções, ambos são eventos de grande porte e que movimentam grandes massas, especialmente quando consideramos o deslocamento de pessoas para acessar espaços específicos ao longo de um determinado período. Mais que receber multidões, é preciso garantir que elas consigam chegar e sair desses espaços com qualidade, segurança e eficiência. É disso que trata a famigerada microacessibilidade.

A Fenearte chama a atenção por disponibilizar traslados gratuitos partindo de shoppings da Região Metropolitana do Recife. Essa iniciativa é fantástica e merece ser aplaudida, pois permite que muitas pessoas, oriundas de diferentes regiões, cheguem ao Centro de Convenções por um transporte de média capacidade e de maneira gratuita. O ônibus, por transportar muito mais pessoas do que o veículo particular — como carros e motos —, é um meio muito mais eficiente para o acesso a grandes eventos quando não há um metrô por perto.

Essa lógica de conectar alguns pontos estratégicos da cidade aos grandes eventos nos remete ao Expresso Folia, que durante as festas carnavalescas é um serviço pago e muito bem avaliado. Em ambos os casos, percebe-se que oferecer alternativas de transporte coletivo de qualidade melhora a experiência de acesso aos grandes eventos.

Todavia, a microacessibilidade, entendida como a facilidade relativa de acesso direto às edificações e aos pontos desejados, é um desastre para todas as formas de acesso no caso do Centro de Convenções, seja a pé, de bicicleta, de ônibus e mesmo de carro. Não posso afirmar se é possível acessá-lo com qualidade por helicóptero, meio mais comum de deslocamento das nossas elites em grandes eventos no Brasil.

Quando não há o serviço de translado, acessar o Centro de Convenções por meio das linhas regulares de ônibus torna-se uma tarefa difícil e, a depender do horário, quase impossível.

Notoriamente, a configuração espacial do equipamento privilegia o acesso por automóvel. A depender do evento, a entrada é obrigatória por apenas um dos seus lados. Quando multidões acessam um evento em um curto período de tempo, o resultado é o caos nas ruas de seu acesso imediato. Nem comentaremos a saída simultânea dessas massas ao término do evento. A experiência urbana é péssima.

Planeja-se o edifício, mas a chegada das pessoas pelos diferentes modos de transporte permanece em segundo plano. Não se planejam e nem se desenham diversos acessos simultâneos para diferentes sistemas de transporte. Deteriora-se a experiência como se prevalecesse a lógica de que “sou o único centro de convenções disponível, as pessoas que lutem para chegar até aqui”.

Inclusive, devemos registrar que, ao privilegiar o acesso por automóvel, amplia-se as possibilidades de exploração econômica do complexo. Assim, o Centro de Convenções ignora o território que o cerca. Olha apenas para dentro de suas paredes. Não existe um maestro, ou um juiz, que possa fazer essa costura territorial entre diversos agentes, proprietários, entre diversos desejos e interesses.

E o que a Copa do Mundo de 2026 nos lembra além do acesso a grandes equipamentos? Pertencimento. Identidade. Orgulho do seu lugar. Em outras palavras, não adianta fazer um gol de letra — um espaço múltiplo e cultural — e depois jogar para a galera. O jogo não está ganho.

O desafio da microacessibilidade não é apenas uma questão de infraestrutura. Trata-se da experiência que queremos proporcionar às pessoas e da forma como planejamos e desenhamos nossas cidades.

O paralelo com a microacessibilidade da Arena de Pernambuco é inevitável. Em breve, o Estado receberá jogos da 10ª edição da Copa do Mundo Feminina. Pernambuco terá, mais uma vez, a oportunidade de transformar esse evento em um legado para além do futebol, qualificando a microacessibilidade daquele importante equipamento urbano e fortalecendo o orgulho dos pernambucanos pelo seu território.

Que comecem os jogos! (mas com novas estratégias)

Fonte
Brasil de Fato
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