Moradores das periferias na zona norte do Recife realizam censo independente para mapear famílias com moradias e sob risco de deslizamento

Por Rostand Tiago04/08/2026 às 17:391 visualizações
Censo é realizado desde 2024 em comunidades da Zona Norte do Recife
Censo é realizado desde 2024 em comunidades da Zona Norte do Recife
Brasil de Fato

No último sábado (1º), a comunidade do Córrego do Boleiro, no bairro de Nova Descoberta, zona norte do Recife, teve acesso em primeira mão aos números e às histórias levantadas pelo Censo das Barreiras, iniciativa do coletivo Redes do Beberibe, que busca entender a realidade das famílias que vivem em situação de risco de deslizamento de terra na capital do estado. O projeto entrevistou moradores de 115 casas localizadas em área de situação de risco alto (R3) e muito alto (R4) nos bairros de Água Fria e Nova Descoberta.

A escolha do Córrego do Boleiro para o lançamento dos dados carrega uma dimensão simbólica e histórica. Há 30 anos, em 1996, 12 pessoas morreram soterradas em um deslizamento de terra, após uma forte chuva e o estouro de um cano da Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa). O jornalista e pesquisador Victor Moura, fundador do Redes do Beberibe e um dos coordenadores do projeto, ressalta que uma das principais diretrizes do trabalho é não deixar os números bastarem por si, mas jogar luz sobre quem são as pessoas e as histórias por trás deles a partir da geração cidadã de dados, na luta por uma cultura da transparência nas comunidades. 

“O levantamento conta uma grande história de ausências. O poder público e a própria sociedade não conhecem plenamente a história dessas pessoas que estão na luta por moradia digna, vivendo em situação de risco. Não entendem o perfil dessas comunidades, como elas se organizam para além das chuvas”, elabora Victor Moura, em conversa com o Brasil de Fato. É o sonho de mudar os rumos dessa história de ausência que impulsiona o projeto do Censo das Barreiras, preenchendo as lacunas com conhecimentos não catalogados pelo poder público, mídia e academia. “As comunidades estão começando a se organizar para gerenciar essas informações e esse conhecimento, para viabilizar políticas públicas adaptadas aos territórios”, complementa. 

Os dados do Censo das Barreiras apontam que a maioria (61%) das famílias localizadas nas áreas contempladas não possui um local seguro para ir em caso de evacuação e 81% já passaram por situações de deslizamentos na região onde vivem ou viram vizinhos abandonarem suas residências em situações de emergência (61%). Quase metade (45%) já precisou deixar a casa para se proteger em algum momento. O perfil dessas famílias é de chefia negra (83%) e feminina (58%), com renda de até um salário mínimo (65%). 

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É a segunda vez que o Censo das Barreiras é realizado. A primeira foi em 2024, no primeiro ano de atividades do Redes do Beberibe, coletivo sediado no bairro do Alto Santa Terezinha. O projeto vem atuando na área da bacia hidrográfica do rio Beberibe, englobando comunidades de Recife e Olinda, com trabalhos de produção de informação sobre esses territórios, por meio de pesquisas e reportagens sobre temas como transparência, políticas e orçamentos públicos na área. 

Na primeira edição, o Censo foi realizado de forma embrionária, partindo de informações obtidas por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), em articulação com movimentos sociais e lideranças locais, contemplando apenas o bairro de Água Fria. Agora, além da inclusão dos territórios de Nova Descoberta, o projeto também pôde contar com uma maior sistematização dos processos, como a formação em técnicas de pesquisa e entrevista para os recenseadores, que são moradores das próprias comunidades pesquisadas. A pesquisa também contou, pela primeira vez, com um aporte financeiro, por meio da ONG Habitat para a Humanidade Brasil. A coordenação do projeto é dividida por Moura com a estudante de jornalismo Letícia Barbosa e a advogada Carolina Barros, também moradoras das comunidades.

Na análise comparativa entre os dois censos, Victor Moura destaca que houve alguns avanços, como a diminuição de casas em zona de risco no bairro de Água Fria. A própria sede do coletivo, uma laje no Alto Santa Terezinha, deixou de estar em uma área R3 a partir de obras de contenção. “Houve um avanço nas políticas de contenção de encostas, sobretudo por projetos executados pela Prefeitura, entre financiamentos próprios e federais, mas o número de casas sob risco ainda é considerável. Nesses dois anos, enviamos muitos documentos e pedidos às secretarias, assim como mantivemos uma produção de conteúdo sobre e fomos avançando nessa política”, diz o coordenador. 

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Uma das principais bandeiras do trabalho do Redes do Beberibe e do Censo é a criação de uma cultura de transparência nas comunidades, em que seus próprios moradores se tornem mais ativos nas cobranças por informações sobre obras e investimentos públicos em seus bairros. É um desafio que o próprio coletivo acaba lidando em suas atividades. Os dados iniciais para as pesquisas só foram coletados após ser superada uma série de entraves por pedidos de informações à Defesa Civil por meio da LAI

O órgão alegava que os dados eram sensíveis e não podiam ser compartilhados, de acordo com a Lei Geral de Proteção de Dados. O Redes do Beberibe apelou com recursos e conseguiu vencer ao defender que o interesse público das informações se sobressai. “Há uma certa resistência dos órgãos em ceder essas informações, até porque a LAI é muito nova, criada em 2011. Querem entender como os dados serão usados, mas a lei não precisa de justificativa para o que será feito com eles”, diz o pesquisador. 

Ele acredita que se trata de um panorama que pode ser alterado a partir da citada cultura de transparência entre os moradores dos bairros periféricos, compreendendo que investimentos públicos não são favores, mas direitos, que precisam ser fiscalizados e cobrados. “Os órgãos não estão acostumados a ver a periferia demandando dados de pesquisa. As comunidades precisam fazer esses pedidos de informações e internalizar uma cultura de transparência, o que vai ajudar também a mudar as culturas dos órgãos”, conclui. 

Os resultados da pesquisa estão disponíveis no perfil do Instagram do Redes do Beberibe. Eles também são apresentados em assembleias públicas nas comunidades, como a do último sábado, no Córrego do Boleiro. A próxima parada é em Água Fria, em evento com data ainda a ser anunciada.

Fonte
Brasil de Fato
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