
A necessidade de diversificar fontes de financiamento para assegurar a continuidade de pesquisas científicas e projetos de extensão motivou a realização de um novo curso na USP: Mobilização de Recursos para a Universidade e Desenvolvimento de Relações Institucionais. O encontro inaugural foi realizado nesta segunda-feira, 3 de agosto, no auditório do Instituto de Estudos Avançados (IEA), reunindo especialistas e gestores públicos para debater a importância da captação de recursos complementares ao orçamento estatal. No mesmo dia, foi realizado o lançamento do livro Filantropia: ciência, prática ou arte?, de autoria do idealizador do Grupo de Estudos de Modelos de Apoio à Ciência (Gema Filantropia) do IEA, Marcos Kisil.
“Em um cenário de crescente pressão sobre os orçamentos públicos destinados à ciência e à educação superior, a capacidade de atrair investimentos da filantropia e da iniciativa privada tornou-se estratégica. O objetivo da capacitação é preencher uma lacuna técnica no Brasil, consolidando uma cultura organizacional voltada ao planejamento estratégico e à transparência. Ao qualificar servidores, docentes e pesquisadores para essa captação, a Universidade fortalece sua autonomia e garante a viabilidade de pesquisas de alto risco e de maturação prolongada, cujos resultados oferecem respostas diretas aos desafios tecnológicos e sociais do País”, explicou o coordenador do Gema Filantropia, Guilherme Ary Plonski, um dos responsáveis pela atividade.

Presente na abertura, o reitor Aluisio Augusto Cotrim Segurado abordou a relevância da iniciativa para as estratégias da instituição e pontuou como a busca por financiamento complementar é indissociável do compromisso social da instituição. “A captação de recursos, alinhada a um firme diálogo com a sociedade, é essencial para cumprirmos plenamente nossa missão pública. O fortalecimento dessas parcerias nos permite maximizar o impacto de nossas ações, garantindo a formação de recursos humanos qualificados, a tradução do conhecimento científico em benefícios diretos para a população e a ampliação das políticas de inclusão e pertencimento, de modo que a Universidade seja cada vez mais um espelho da sociedade a quem servimos”, afirmou.
Para o pró-reitor de Cultura e Extensão Universitária, Amâncio Jorge de Oliveira, a formação dialoga com as demandas atuais de aproximação entre a academia e a sociedade. “A USP tem um grande poder de soft power e um amplo potencial estratégico atrelado ao forte reconhecimento de sua marca. Este curso é um passo importante para que não percamos oportunidades, já que existe uma dimensão estratégica, mas também uma dimensão operacional que precisa ser capacitada.”
A diretora do IEA, Roseli de Deus Lopes, destacou a necessidade de articulação entre os diferentes setores para viabilizar projetos de impacto e destacou o potencial de articulação interna promovido pela capacitação. “A iniciativa vai além da formação teórica ao viabilizar o compartilhamento de saberes práticos e de redes de contato acumuladas por especialistas do setor filantrópico ao longo de anos. Tenho certeza de que vamos ter frutos muito positivos a partir não só do curso, mas dessa possibilidade de conexão entre todos nós, para que a gente consiga se fortalecer”, avaliou, ressaltando que a integração e a troca de experiências entre as diferentes equipes da Universidade são passos estratégicos para aprimorar a estrutura institucional e impulsionar projetos que revertam em benefícios diretos para a sociedade.

Estrutura multidisciplinar e integração institucional
A concepção do projeto, oferecido em caráter piloto, reflete o esforço conjunto de diferentes organizações para conectar o ambiente acadêmico aos principais atores brasileiros especializados em investimento social e filantropia. A organização é liderada pelo Grupo de Estudos de Modelos de Apoio à Ciência (Gema Filantropia), do IEA, com apoio da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária (PRCEU), da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA), da Fundação José Luiz Setúbal e do Grupo de Trabalho de Filantropia da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). A realização conta ainda com a parceria da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR) e dialoga com entidades como o Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e o Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE).
Com carga horária de 60 horas distribuídas em 15 encontros, sendo dois presenciais e 13 on-line, a estrutura do curso foi desenhada para superar a fragmentação de iniciativas isoladas nas unidades acadêmicas, fomentando a criação de bancos de dados colaborativos. A grade curricular contempla desde a difusão de conceitos do ecossistema filantrópico aplicado à ciência até o uso prático de tecnologias modernas, como o financiamento coletivo (crowdfunding), estratégias de marketing digital e plataformas de gestão de relacionamento.
Além das metodologias ativas e simulações de negociação, as disciplinas abordam fontes públicas e privadas de captação, relacionamento e fidelização de doadores, além do marco legal e contábil, conhecimento essencial para garantir conformidade e transparência na prestação de contas. Ao final da capacitação, que se encerra em outubro, os participantes deverão entregar um Plano Estratégico de Captação aplicado à realidade de uma instituição parceira ou de sua própria unidade, traduzindo o aprendizado em resultados concretos para a Universidade e para a sociedade.

O papel estratégico da filantropia na ciência
Historicamente, o sistema de pesquisa brasileiro foi construído com base quase exclusiva no financiamento estatal, o que pode tornar a produção do conhecimento vulnerável às frequentes oscilações econômicas e políticas do País. Nesse cenário, a filantropia científica emerge como uma alternativa estratégica para garantir a estabilidade e a continuidade da ciência. O conceito não propõe que o capital privado substitua o orçamento público, considerado indispensável para a soberania tecnológica nacional, mas sugere uma atuação complementar.
A principal virtude desse modelo de financiamento é a sua capacidade de assumir riscos, aportando recursos de forma flexível em pesquisas de fronteira, ciências básicas e projetos de longo prazo cujos resultados transformadores nem sempre podem ser previstos a curto prazo.
Para funcionar com transparência e garantir a autonomia acadêmica, a filantropia científica baseia-se no princípio da adicionalidade, no qual os recursos privados se somam ao orçamento público sem ditar a agenda de investigação das instituições. No Brasil, a consolidação dessa cultura já tem viabilizado soluções de interesse público, apoiando desde ideias inovadoras não consolidadas até a estruturação de fundos patrimoniais, os chamados endowments. Na prática, os rendimentos desses fundos sustentam de forma perene laboratórios, centros de excelência e bolsas de estudo para alunos em situação de vulnerabilidade socioeconômica.





