
Cada vez mais pessoas adotam o veganismo como estilo de vida, e o universo esportivo acompanha essa tendência. Atletas de elite e alguns clubes de futebol passaram a adotar dietas à base de plantas e obtiveram resultados expressivos. No entanto, ao contrário do que ainda se acredita, não há diferença no desempenho esportivo entre dietas bem planejadas, sejam elas veganas ou onívoras.

O problema, segundo Hamilton Roschel, professor da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP e diretor científico e executivo do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina (FMUSP), surge quando a alimentação não é equilibrada. Para ele, é um equívoco atribuir automaticamente “uma condição de saudabilidade a esse hábito nutricional, sem que isso seja necessariamente verdade”.
Uma dieta vegana mal planejada pode ser tão prejudicial quanto uma dieta onívora inadequada. Com o aumento do número de pessoas veganas, também cresce a oferta de alimentos ultraprocessados desenvolvidos para substituir produtos de origem animal, como hambúrgueres, queijos e linguiças. Roschel alerta que essas alternativas, “em muitos casos, são tão ruins quanto” seus equivalentes de origem animal.
Falta de informação alimenta ideias equivocadas
Na avaliação de Roschel, muitas concepções equivocadas sobre as dietas à base de plantas decorrem “do absoluto desconhecimento de nutrição, de fisiologia e da área biomédica como um todo”. Uma das principais dúvidas envolve a ingestão de proteínas, frequentemente associadas apenas às carnes. No entanto, segundo o pesquisador, uma dieta vegana bem planejada é capaz de suprir plenamente as necessidades proteicas do organismo.
Essa percepção decorre da diferença de densidade proteica entre alimentos de origem animal e vegetal. Em uma mesma porção, as carnes costumam concentrar mais proteínas do que os vegetais. A solução, explica o professor, é aumentar o consumo desses alimentos ou optar por combinações e produtos vegetais com maior teor proteico. “Comer mais, até atingir a quantidade necessária. Ou pensar em combinações e produtos de origem vegetal que têm a densidade proteica aumentada”, afirma.
Roschel observa ainda que a associação entre o consumo de carne e a construção da masculinidade muitas vezes é levada ao extremo. “Tem até uma coisa de machosfera envolvida”, comenta. Segundo ele, ainda persiste a ideia de que o homem considerado másculo é aquele que consome carne, enquanto o vegano seria visto como “inferior”.
Atletas e clubes adotam alimentação à base de plantas
Diversos atletas de alto rendimento adotaram dietas à base de plantas e relatam bons resultados. Lewis Hamilton, heptacampeão mundial de Fórmula 1, e Novak Djokovic, um dos maiores tenistas da história, falam publicamente sobre os benefícios da mudança alimentar. “Tem até atletas de fisiculturismo veganos no Brasil e fora”, destaca Roschel.
Nos últimos anos, a tendência também chegou ao futebol. Um dos casos mais conhecidos é o do Forest Green Rovers, da Inglaterra, que, em 2015, substituiu o cardápio oferecido aos jogadores por opções veganas. Poucos anos depois, o clube conquistou o título da quarta divisão inglesa e alcançou, pela primeira vez, o acesso à terceira divisão.
No Brasil, a iniciativa surgiu em 2022 com a fundação do Clube Laguna, no Rio Grande do Norte, primeiro clube de futebol vegano do País e o segundo do mundo. Roschel acompanhou o projeto desde o início e ressalta que “eles não forçam os seus atletas a serem veganos”. Em quatro anos de existência, o clube conquistou o Campeonato Potiguar da segunda divisão e, em 2026, disputou a Copa do Brasil e a Série D do Campeonato Brasileiro.
*Sob supervisão de Marcia Avanza
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